Chico Buarque - Histórias das canções
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Chico Buarque - Histórias das canções

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de amor
Vou que vou
Pela estrada que dá numa praia dourada
Que dá num tal de fazer nada
Como a natureza mandou
Vou
Satisfeito, a alegria batendo no peito
O radinho contando direito
A vitória do meu tricolor
Vou que vou
Lá no alto
O sol quente me leva num salto
Pro lado contrário do asfalto
Pro lado contrário da dor

Um marinheiro me contou
Que a boa brisa lhe soprou
Que vem aí bom tempo
O pescador me confirmou
Que um passarinho lhe cantou
Que vem aí bom tempo
Ando cansado da lida
Preocupada , corrida, surrada, batida
Dos dias meus
Mas uma vez na vida
Eu vou viver a vida
Que pedi a Deus

A I Bienal do Samba, realizada nos meses de maio e junho de 1968 pela TV
Record, em São Paulo, foi vencida por "Lapinha", de Baden Powell e Paulo
Cesar Pinheiro. A despeito das vaias, uma novidade para quem passara ileso
por todos os festivais, "Bom tempo" ficou em segundo lugar.
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A letra otimista foi considerada por muitos como descolada da realidade,
que requeria engajamento político dos artistas, e acentuou o distanciamento
de Chico em relação à esquerda tradicional de um lado e, de outro, do
Tropicalismo. Dez anos depois, quando ele era tido como engajado e o
patrulhamento ideológico exigia igual posicionamento de outros colegas,
declarou: "Acho absurda a mania de cobrar do artista um engajamento
político sobre sua arte". Em entrevista para a Folha de S.Paulo, ele diz que

"Bom tempo" revelava o mesmo otimismo da elogiadíssima "O que será"
(1976), porém com outra linguagem.

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Sabiá (1968)
Tom Jobim-Chico Buarque

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos
De me enganar

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Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer

Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar

Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá
Cantar uma sabiá

Originalmente, a canção se chamava "Gávea", e fora composta por Tom
Jobim ao estilo das modinhas de Villa-Lobos, para ser incluída no repertório
da soprano Maria Lúcia Godoy. Possivelmente com o intuito de fugir da
incômoda função de jurado, para a qual sempre era convidado, Tom resolveu
inscrever uma música no III Festival Internacional da Canção Popular,
organizado pela Secretaria de Turismo da Guanabara e pela TV Globo nos
meses de setembro e outubro de 1968, e pediu a Chico que fizesse a letra.

A idéia de usar "uma sabiá" foi de Tom - que afirmava que caçador não diz
"um sabiá". E, de fato, o Dicionário Aurélio registra que no Nordeste a palavra
é usada no feminino. O curioso é que na primeira vez em que gravou a
canção, Tom recusou a própria sugestão e cantou no masculino. Outra
interferência sua foi incluir, na última hora e por conta própria, uma estrofe
adicional que seria eliminada em gravações subsequentes:

Vou voltar, sei que ainda vou voltar
E é pra ficar, sei que o amor existe
Eu não sou mais triste
E que a nova vida já vai chegar
E que a solidão vai se acabar
E que a solidão vai se acabar

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A fase paulista do festival era uma prévia da animosidade que dominaria o
ambiente até a final. Formara-se uma imensa torcida por "Pra não dizer que
não falei das flores", de Geraldo Vandré. Era uma música simples, de poucos
acordes e forte apelo. O refrão "Vem, vamos embora/ Que esperar não é
saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer" tocava fundo a
juventude universitária engajada que constituía majoritariamente o público
dos festivais.

Na final paulista, mal Caetano Veloso começara a cantar "É proibido
proibir", a platéia irrompeu em vaias que impediram que ele chegasse ao final
da apresentação. Irritado, ele se apossou do microfone e fez o célebre
discurso em que diz: "Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o
poder? Vocês têm coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de
música que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado!". No final,
recusou o quinto lugar obtido, em solidariedade a Gilberto Gil, que não
classificara sua "Questão de ordem".

O campo da batalha final seria o Estádio do Maracanãzinho, no Rio de
Janeiro. Chico tinha compromissos em Veneza e deixou o parceiro só na
arena. "Sabiá" e "Pra não dizer que não falei das flores" foram apresentadas na
segunda eliminatória da fase nacional, em 28 de setembro de 1968, e ambas
se classificaram para a finalíssima, que seria no dia seguinte. Pela reação da
plateia, podia-se antever um clima pra lá de agitado. Clima tenso havia

também entre os jurados. Corriam denúncias de que a organização, temendo
represálias da ditadura, advertira o júri para não premiar canções que
fizessem apologia da luta armada.

Chico não estava presente quando recebeu a maior vaia de sua vida. Na
madrugada do dia 30 o júri anunciou o segundo classificado: "Pra não dizer
que não falei das flores". Portanto, "Sabiá", interpretada pela dupla Cynara e
Cybele, vencera. O estádio explodiu em vaias e gritos de "Vandré! Vandré!". O
próprio aclamado tentou aplacar a ira do público dizendo: "Gente, por favor...
Para vocês, que acham que me apoiam vaiando... vocês não me ajudam
desrespeitando Tom Jobim e Chico. Tem mais uma coisa só: a vida não se
resume a festivais". Mas pouco adiantou.

Tom Jobim confessa que saiu do episódio abalado e chegou a chorar
quando se dirigia para a casa de um amigo. Passou um telegrama para Chico
pedindo sua presença na final internacional. Com bom humor, ele pretendia ir
ao Aeroporto do Galeão recepcionar o parceiro com a parte
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das vaias que lhe cabia. Mas na noite anterior participara de um jantar com
astros e estrelas internacionais na casa do jornalista Roberto Marinho e
perdeu a hora. Chico se livrou mais uma vez.

"Sabiá" venceu também a fase internacional, desta vez com algumas vaias
e muitos aplausos.

Começava o declínio dos festivais. A MPB ganhava uma linda canção, e
Tom Jobim perdia algumas garrafas de uísque, porque apostara com Vinicius e
outros amigos que "Sabiá" não seria a primeira colocada.

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Benvinda (1968)
Chico Buarque

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha
Por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for
Venha sorrindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho

Cheio de anseios e esperança

Comunico a toda a gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha
Morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal
Pode vir até mentindo, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda

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Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho

Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada
Venha urgente
Venha irmã
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Que essa aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho

Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha
Um carinho para dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda, ai
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Ah, que bom que você veio
Que você chegou tão linda

Eu não cantei em vão
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
Benvinda
No meu coração

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Novamente na contramão da música engajada, Chico inscreveu o samba
"Benvinda" no IV Festival da Música Popular Brasileira, que aconteceu em
novembro e dezembro de 1968,
Marcos
Marcos fez um comentário
Um ótimo livro!
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Felipe
Felipe fez um comentário
Obrigado Inã Cândido, ajudou muito!!
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