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EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA AULA 6 Profª Paula Mitsuyo Yamasaki Sakaguti 2 CONVERSA INICIAL Recursos e serviços especializados na educação especial – formação de professores Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008), as atividades do atendimento educacional especializado (AEE) de estudantes da educação especial – respectivamente, alunado com deficiência (sensorial, intelectual, física), transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação – serão articuladas com base no ensino comum. Assim, o Decreto n. 7.611/2011, que “dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências”, no art. 3º, atribui os seguintes objetivos: I – prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular e garantir serviços de apoio especializados de acordo com as necessidades individuais dos estudantes; II – garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular; III – fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem; e IV – assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis, etapas e modalidades de ensino. Em outras palavras, o acesso ao currículo escolar – com base na utilização de material didático, tecnologia assistiva, sistemas de informação e comunicação, entre outros – é fundamental para assegurar resposta educativa aos estudantes da educação especial. TEMA 1 – ÁREA DA DEFICIÊNCIA Em todas as áreas da educação especial, é importante destacar que a organização, elaboração e efetivação do plano de AEE é de competência do professor que atua na sala de recursos multifuncionais, em trabalho articulado com os demais professores do ensino regular, em interface com serviços de saúde, com as instituições de ensino superior (IESs) e famílias para promover a inclusão (Brasil, 2009). 3 1.1 Surdez O AEE do contraturno escolar, de natureza pedagógica, acontece na sala de recursos multifuncionais ou no centro de AEE e tem como objetivo complementar a aprendizagem de estudantes surdos. Schiavon (2012) enfatiza a importância do trabalho conjunto no planejamento desse atendimento para o professor que ministra aula em Libras, o professor da sala de aula comum e, se houver, professor de língua portuguesa. Na sala de aula comum, a inserção do intérprete de Libras junto ao aluno possibilita o acesso à comunicação e ao conhecimento trabalhado pela professora da sala de aula comum. Em concordância com Schiavon (2012, p. 89), a presença do intérprete “não assegura que as demais necessidades do surdo concernentes também à educação sejam contempladas, considerando o processo de ensino aprendizagem e as estratégias e metodologias pedagógicas adequadas a este aluno”. Reforçamos a necessidade de recursos e metodologias visuais com riqueza de materiais, objetos e imagens, assim como de jogos e softwares educativos para ajudar no processo de abstração. Segundo a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o AEE “é realizado mediante a atuação de profissionais com conhecimentos específicos no ensino da Língua Brasileira de Sinais, da língua portuguesa na modalidade escrita como segunda língua” (Brasil, 2008, p. 12). Ou seja, o AEE ocorre num ambiente bilíngue (Libras e língua portuguesa). Para estudantes surdos, devem ser ofertados três momentos didático- pedagógicos, que contam com três profissionais distintos: 1. AEE em Libras: todos os conhecimentos são explicados em Libras por um professor, preferencialmente surdo. Trabalho feito todos os dias e destinado a todos os alunos surdos; 2. AEE para ensinar Libras: os alunos surdos aprenderão Libras. Trabalho feito pelo professor com/ou instrutor de Libras (preferencialmente surdo); 3. AEE para ensinar português: o professor de língua portuguesa atende o aluno pautando-se no conhecimento deste a respeito da língua portuguesa. É feito todos os dias com alunos surdos em horários à parte das aulas da turma comum. 4 Um planejamento em conjunto, com professores especialistas e aqueles da sala comum, possibilitará um melhor desempenho e aprendizagem do aluno surdo. 1.2 Deficiência visual (cegueira e baixa visão) Como crianças com baixa visão apresentam resíduo visual, Gil (2009) recomenda aprimorar esse pequeno potencial para que explorem o ambiente e o mundo ao seu redor e aprendam a ler e a escrever, usando inclusive outros sentidos. Em relação à cegueira, a mesma autora complementa: crianças cegas são as que não têm visão suficiente para aprender a ler em tinta, necessitando dos outros sentidos, como tato, audição, olfato, paladar e cinestesia, no processo de desenvolvimento e aprendizagem. O Sistema Braille – sistema de sinais em relevo para leitura tátil – deverá ser utilizado no acesso à leitura e escrita. Porém, nesse grupo de crianças, podem ser percebidas diferenças e individualidades: há crianças que nada veem, as que têm apenas percepção de luz, as que podem perceber claro, escuro e delinear algumas formas. O conhecimento dessas diferenças é importante, e a mínima percepção de luz ou vulto pode ser muito útil na orientação espacial, movimentação e habilidades de independência. (p. 32-33) É importante destacar que a “autonomia e a independência podem ser consideradas como as duas condições que mais se relacionam ao exercício da cidadania dos indivíduos com deficiência” (Gil, 2009, p. 40). Para a autora, a orientação e a mobilidade são essenciais para promover a independência e autonomia da pessoa com deficiência visual, para que possa executar atividades como qualquer outro vidente e caminhar com segurança. Nos casos de baixa visão, Lora (2003, p. 63-64) ressalta que, para a orientação e mobilidade desses estudantes, o professor deve se atentar às diversas “pistas visuais do ambiente, portas e janelas abertas, cantina, biblioteca e outros locais da escola […] objetos coloridos existentes na escola, uma vez que poderão servir como ponto de referência para a orientação do aluno”. A autora complementa: As pessoas percebem boa parte da realidade à sua volta por meio da visão, o que não significa que as com deficiência visual estejam impossibilitadas de conhecer e se relacionar com o mundo. Elas devem se utilizar de outras percepções sensoriais, como a audição que envolve as funções de ecolocalização, localização dos sons, escutar seletivamente e sombra sonora; o sistema háptico ou tato ativo; a cinestesia; a memória muscular; o sentido vestibular ou labiríntico; o 5 olfato e o aproveitamento máximo de qualquer grau de visão que possam ter. (p. 58) Salientamos que, quando chega à escola, a criança cega não traz conceitos de esquema corporal, de orientação especial ou de lateralidade que crianças videntes já elaboraram. Por isso é preciso oferecer os seguintes serviços e recursos (Brasil, 2020): • Técnicas de orientação e mobilidade: atividades para conhecer os diferentes espaços e ambientes, visando uma locomoção com segurança e autonomia; • Recursos ópticos: lupas manuais ou de apoio, lupas eletrônicas, lentes específicas bifocais, telescópios, entre outros recursos que ampliem imagens; • Recursos não ópticos: iluminação, plano inclinado, contraste, ampliação de caracteres, cadernos com pauta ampliada, caneta escrita grossa, recursos de informática, entre outros que favoreçam o funcionamento visual; • Soroban: ábaco para ensinar cálculos. Tais recursos de acessibilidade são fundamentais para a educação da criança com deficiência visual para aprender conceitos científicos, em nome de uma efetiva inclusão escolar. 1.3 Deficiência intelectual O acompanhamento pedagógico do professor de AEE na sala de recursosmultifuncionais se baseia no Planejamento de Educação Individualizado (PEI), abarcando toda a escola num trabalho colaborativo que envolve professores do AEE, da sala comum, da escola como um todo e a família, contribuindo para desenvolver esse alunado. Conforme Pletsch e Glat (2013, p. 22), entende-se por PEI: um recurso para orquestrar, de forma mais efetiva, propostas pedagógicas que contemplem as demandas de cada aluno, a partir de objetivos gerais elaborados para a turma. É uma alternativa promissora, na medida em que oferece parâmetros mais claros a serem atingidos, sem negar os objetivos gerais colocados pelas propostas curriculares. 6 Em outras palavras, o PEI deve ser pensado de forma articulada entre a sala comum e a sala de recursos, buscando complementar a aprendizagem do estudante com suporte pedagógico. Para tanto, são fundamentais uma cultura escolar colaborativa, a crença no potencial de aprendizagem de cada estudante com deficiência intelectual, adequação e produção de material didático e pedagógico, uma boa estrutura física, entre outros recursos de acessibilidade para atender esse alunado. Do velho e sábio ditado “cada caso é um caso”, precisamos analisar as necessidades educacionais especiais de cada criança. Ou seja, conhecer as experiências e aprendizagens que ela já traz consigo, observando quais habilidades escolares ela domina e as executa sozinha, aquelas que realiza com ajuda da professora ou colega mais experiente e as que não realiza. Por exemplo, em relação à escrita, deve-se observar, na sala de recursos e na sala de aula comum, quais são as características de seu texto e o nível em que se encontra (pré-silábico, silábico, alfabético), como a criança representa o texto (desenhos, símbolos, sinais gráficos, letras etc.) e suas tentativas de escrita, tendo o professor como escriba dos textos que a criança produz. esse atendimento educacional especializado com foco no aluno com deficiência intelectual implica considerarmos não apenas recursos que poderão ser utilizados em seu processo de aprendizagem, mas, acima de tudo, a avaliação do aluno com deficiência intelectual que será norteadora do processo de ensino e aprendizagem desse aluno na sala comum e na sala de recursos multifuncionais, estabelecendo-se, assim, a parceria necessária entre os professores da sala comum e da especializada. (Milanez; Oliveira, 2013, p. 16) Com base nas potencialidades e dificuldades observadas, organizam-se estratégias para ampliar o repertório da criança com jogos, como contação de histórias, produção de material didático, softwares educativos para favorecer os processos mentais superiores (memória, pensamento abstrato, atenção voluntária etc.), entre outras. TEMA 2 – TECNOLOGIA ASSISTIVA E DEFICIÊNCIA FÍSICA Conforme os padrões estabelecidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em relação à caracterização e infraestrutura da escola, deve- se considerar o seguinte: 7 Concepção de espaços, artefatos e produtos que contemplem o desenho universal, com o objetivo de atender simultaneamente a todas as pessoas com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, independente, segura e confortável, garantindo elementos e soluções que compõem a acessibilidade. (Brasil, 2020, p. 15) A deficiência física diz respeito aos “impedimentos físicos e/ou motores que demandam o uso de recursos, meios e sistema que garantam acessibilidade ao currículo e aos espaços escolares” (Brasil, 2020, p. 6). Em outras palavras, para promover condições de acesso ao currículo, utilizamos a tecnologia assistiva. Como o próprio termo sugere, é todo arsenal de materiais, recursos e serviços que disponibilizamos aos estudantes com deficiência para desenvolver sua vida autônoma. Trata-se de atividades, realizadas ou não com o apoio de recursos de tecnologia assistiva (TA), visando à fruição, pelos alunos, de todos os bens sociais, culturais, recreativos, esportivos, entre outros, e de todos os serviços e espaços disponíveis no ambiente escolar, com autonomia, independência e segurança. (Brasil, 2020, p. 10) Conforme o documento do MEC sobre o AEE (Brasil, 2008, p. 27-28), na área de deficiência física, podemos usar modalidades da tecnologia assistiva, como estas: a) Uso da comunicação aumentativa e alternativa, para atender as necessidades dos educandos com dificuldades de fala e de escrita. b) Adequação dos materiais didático-pedagógicos às necessidades dos educandos, tais como engrossadores de lápis, quadro magnético com letras com ímã fixado, tesouras adaptadas, entre outros. c) Desenvolvimento de projetos em parceria com profissionais da arquitetura, engenharia, técnico em edificações para promover a acessibilidade arquitetônica […]. d) Adequação de recursos da informática: teclado, mouse, ponteira de cabeça, programas especiais, acionadores, entre outros. e) Uso de mobiliário adequado: os professores especializados devem solicitar à Secretaria de Educação adequações de mobiliário escolar, conforme especificações de especialistas na área: mesas, cadeiras, quadro, entre outros, bem como os recursos de auxílio à mobilidade: cadeiras de roda, andadores, entre outros. Salientamos a necessidade da comunicação alternativa e aumentativa (CAA) para ampliar as diversas formas de comunicação, além da fala/linguagem oral. Alguns exemplos: pranchas de comunicação com símbolos, cartões de comunicação, vocalizadores e pranchas alfabéticas e de palavras. Tanto as diversas modalidades da tecnologia assistiva quanto a eliminação de barreiras 8 arquitetônicas e físicas são opções adotadas por sistemas educacionais inclusivos. TEMA 3 – TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA (TEA) Pela Lei n. 12.764/2012, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Brasil, 2012), além de decretar um conjunto de direitos, chamamos a atenção para o art. 7º, que veda a recusa de matrícula a estudantes com qualquer tipo de deficiência e estabelece punição ao gestor escolar ou autoridade que pratique esse ato discriminatório (Brasil, 2012). Salientamos que a Nota Técnica n. 15/2015, publicada pelo Ministério da Educação (MEC), traz orientações aos sistemas de ensino para seu art. 7º, visando fortalecer um sistema educacional inclusivo. Para Brito e Misquiatti (2013), experiências têm evidenciado que estudantes com transtornos globais do desenvolvimento podem se beneficiar social e academicamente se estiverem em ambientes educacionais inclusivos. Em relação à comunicação de estudantes com TEA, Brito e Misquiatti (2013) salientam que há diversas formas não convencionais de comunicação que podem ser utilizadas pelo aluno, não se restringindo à fala, como a comunicação gestual (expressões faciais), vocalizações (riso, choro, sons ininteligíveis, grito), comunicação gráfica (escrita de letras, logotipos), silêncio (pode ser uma expressão de sentimentos e desejos) e os próprios comportamentos estereotipados e/ou repetitivos que podem indicar seu modo peculiar de ser e podem expressar, por exemplo, que não desejam participar de alguma situação em sala. As autoras complementam que é importante incentivar e proporcionar estratégias que promovam a interação e a manutenção de amizades e o desenvolvimento de habilidades sociais e uma comunicação com propósito social. Para apoiar a aprendizagem, pode-se utilizar estratégias voltadas à área de interesse por determinados temas, assuntos e habilidades do aluno, e estímulos visuais – como figuras e fotos – também são úteis para facilitar a compreensão. Alguns alunos podem necessitar de apoio para registo escrito, 9 como gravador para as aulas ou indicar e monitorar um notebook para digitar (Brito; Misquiatti, 2013). Dentre outros recursos de acessibilidade, Fernandes (2013, p. 148) destacaa “adequação de objetivos, conteúdos, metodologias de ensino e estratégias de avaliação voltadas aos perfis comunicativo, social e cognitivo dos alunos”. A mesma autora cita a complementação com o apoio de serviços especializados na área da saúde. TEMA 4 – ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO (AH/SD) Dados sobre a área de AH/SD (embora reconhecida por professores, gestores e legisladores) indicam que esses estudantes não são adequadamente identificados. No censo escolar de 2018, por exemplo, contava-se com apenas 22.116 estudantes com AH/SD cadastrados, o que representa 0,046% de 48,4 milhões de estudantes matriculados na educação básica. Se considerarmos que a estimativa de 3% a 5% da população apresente AH/SD, estamos com menos de 0,05% cadastrados (Arantes-Brero, 2019). Sakaguti (2010), num estudo feito com pais de estudantes com AH/SD, evidenciou dificuldades da escola em relação ao sistema de avaliação e ao atendimento das diferentes necessidades desse alunado. Em relação ao atendimento na sala de recursos e sala comum, a autora ressalta que, assim como não há uma definição apenas para a inteligência, também não há um modelo único de proposta educacional. Dentre as propostas de atendimento educacional para os alunos com altas habilidades/superdotação, existem diferentes possibilidades, como o enriquecimento intra e extracurricular, a suplementação, a adaptação, a flexibilização e a compactação curricular, a aceleração, as monitorias, tutorias e mentorias. É relevante destacar, nesse contexto, que as instituições de ensino superior se constituem em importantes meios de contribuição através da realização de parcerias com as instituições escolares. (Costa, 2018, p. 130-131) Dentre as propostas de AEE destinadas a estudantes com AH/SD, destacamos o enriquecimento curricular e a aceleração escolar. O primeiro consiste na organização de práticas pedagógicas exploratórias suplementares ao currículo, que objetivam o aprofundamento e a expansão nas diversas áreas do conhecimento mediante o desenvolvimento de projetos de trabalho com temáticas diversificadas, como artes, esporte, ciências e outras. Tais estratégias podem ser 10 efetivadas pela articulação dos serviços realizados nas escolas, na comunidade, nas instituições de educação superior, na prática da pesquisa e no desenvolvimento de produtos. (Brasil, 2020, p. 10-11) O enriquecimento pode ser intracurricular ou extracurricular. O primeiro é uma proposta de atividade dentro da sala de aula ou em outros espaços e pode ser estendido também aos demais estudantes da turma que se sintam motivados e interessados. Segundo Freitas e Pérez (2012), são exemplos de estratégia intracurricular: tarefas adicionais, projetos individuais, monitorias, tutorias e mentorias. Já o enriquecimento extracurricular pode ser organizado nas salas de recursos multifuncionais. Sugerimos o modelo triádico de enriquecimento elaborado pelos renomados professores Joseph Renzulli e Sally Reis. Caracteriza-se por três tipos de atividades de enriquecimento: o tipo I tem por finalidade apresentar o aluno a diversas áreas do conhecimento a fim de perceber seu interesse maior; o tipo II consiste em estimular os alunos à aplicação de conhecimentos aprendidos; e o tipo III objetiva a investigação de problemas para a construção de novos conhecimentos. (Costa, 2018, p. 143) Além do enriquecimento, temos também a aceleração de estudos que, conforme a LDB n. 9.394/1996, art. 24, se refere à possibilidade de avançar no curso a fim de concluir a escolarização em menor tempo. Além dessa forma de aceleração, há outras, como pontua Costa: aceleração em apenas um tema ou assunto, que trata da progressão do aluno em um determinado conteúdo no qual tenha apresentado grande domínio e proficiência (o aluno continua estudando o currículo regular nas demais áreas); compactação curricular, que prevê a adaptação do currículo no sentido de eliminar excessos do currículo regular e possibilita ao aluno cumprir em menor tempo uma etapa escolar; entrada precoce na escola ou na universidade; participação em séries concorrentes (ou dupla aceleração), que é quando o aluno frequenta mais de uma série durante o ano escolar. (2018, p.135, grifo nosso) Destacamos que a aceleração deve ser feita com muito critério e cautela, sendo uma decisão harmoniosa da escola, da família e principalmente do próprio aluno, para que não prejudique sua trajetória escolar. 11 TEMA 5 – FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL INCLUSIVA Em conformidade com as diretrizes operacionais do AEE, o professor deve ter “formação inicial que o habilite para o exercício da docência e formação específica na educação especial, inicial ou continuada” (Brasil, 2009, p. 3). A LDB n. 9.394/1996 (com alterações da Lei n. 12.796/2013) e o Plano Nacional de Educação (PNE) – que determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional no período de 2014 a 2024 –, em sua Meta 4, preveem que o AEE para estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação preferencie a rede regular de ensino e garanta o sistema educacional inclusivo. Sobre a formação de professores da educação especial, Vilaronga e Mendes (2014, p. 141) sinalizam que precisaria estar prevista nas políticas municipais, estaduais e federais de educação a capacitação de professores especializados em educação especial, que atuariam em consonância com os professores das salas regulares. […] O discurso da obrigatoriedade da matrícula e o enfraquecimento da prática pedagógica desse professor que não encontra espaços efetivos de troca e de formação faz com que a política real da inclusão se torne cada vez mais distante e utópica nas escolas públicas do país. De acordo com Vilaronga e Mendes (2014), a organização do trabalho pedagógico, numa abordagem de ensino colaborativo (ou coensino), é voltada para todos os alunos por uma parceria entre os professores especializados e os da sala de aula comum, desde a discussão dos conteúdos contemplados no currículo, as adaptações/flexibilizações, as formas de avaliação, entre outras questões relacionadas aos procedimentos para o plano educacional individualizado de alunos com deficiência. O envolvimento com a proposta de ensino colaborativo (ou coensino) é um desafio para a cultura escolar e deve também contemplar a equipe gestora e pedagógica, contando com o apoio da comunidade e dos gestores educacionais dos sistemas municipal e estadual para implementar essa proposta. Para garantir a inclusão escolar, Mendes (2006) defende a necessidade de ampliar investigações sobre as práticas colaborativas entre professores de 12 ambos os contextos – ensino regular e AEE –, sobretudo transformando a cultura escolar presente na formação de professores no sentido de prepará-los para a efetiva educação inclusiva com base em modelos colaborativos. A prática colaborativa entre os docentes da educação especial e ensino regular é uma das formas eficazes de trabalho integrado e em conjunto para beneficiar a aprendizagem dos alunos: O trabalho baseado no ensino colaborativo, também conhecido como coensino, entre professores de educação especial e da sala regular, faz parte da proposta de alguns países para a inclusão escolar de alunos com deficiência, sendo esta apontada como uma das mais relevantes. (Vilaronga; Mendes, 2014, p. 142) No cotidiano escolar, quando o professor da sala regular recebe estudantes da educação especial, geralmente passa por um “estágio de ansiedade e insegurança”, e o apoio do professor especialista “significa um encontro desses profissionais com conhecimentos e experiências diferentes que precisam ser mobilizadas para a superação de desafios que a prática pedagógica impõe”, afirma Rabelo (2012, p. 60). A autora complementa que as “práticas pedagógicasde cada um dos professores são aprimoradas com a experiência do ensino colaborativo” (p. 61). A pesquisa de Rabello mostra a concepção de professores em relação ao aluno com autismo, considerando-o como “da professora do AEE ou da professora do ensino comum, e não da escola”. Assim, a função do professor do ensino regular e da educação especial no contexto da inclusão é “multifacetada”, pois o fato de termos diretrizes que norteiem o funcionamento dos sistemas inclusivos e que determinem a formação de professores não significa que “as experiências de escolarização dos alunos com NEEs1 tenham sido únicas e de sucesso. Há um abismo entre o que asseguram as legislações e determinam as diretrizes […] e as condições reais de cada escola em todo o nosso país” (Rabello, 2012, p. 122). A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008) orienta os sistemas de ensino quanto ao AEE feito por profissionais com conhecimentos específicos das áreas da deficiência ou transtornos globais do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação, 1 NEEs: necessidades educacionais especiais. 13 conforme o público atendido, com o objetivo de complementar ou suplementar a aprendizagem escolar. NA PRÁTICA • Indicação de filme: Escritores da liberdade (Freedom writers, 2007): o Drama – 2h04min; o Direção: Richard LaGravenese; o Elenco: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn. O filme retrata uma jovem professora que chega à escola de um bairro pobre e violento. Descomprometimento com o ensino, tensão racial, vulnerabilidade social, exclusão escolar, espaço de convivência, métodos de ensino, enriquecimento curricular e acessibilidade ao currículo são temas que valem a pena analisar. FINALIZANDO A peculiaridade dos estudantes surdos demanda a implementação de uma proposta de educação bilíngue para o AEE, sendo Libras (primeira) e português (segunda) as línguas de instrução (Brasil, 2005). Essa perspectiva implica que, desde a educação infantil ao ensino superior, a proposta bilíngue seja uma realidade possível. Estudantes com deficiência visual necessitam de recursos e serviços para promover sua independência e autonomia. Citamos aqui as atividades de orientação e mobilidade, recursos ópticos e não ópticos, informática, braille e soroban. Além disso, as diretrizes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (Brasil, 2008) apontam que, dentre as atividades de AEE, deve-se disponibilizar programas de enriquecimento curricular, recursos e serviços de tecnologia assistiva, ensino de linguagens e códigos de comunicação alternativa, planos de ensino individualizados, de adaptação e produção de materiais, entre outros. O público-alvo da educação especial faz parte da coletividade da escola regular no contexto da inclusão. A garantia de acesso e permanência de todos os estudantes é o desafio da inclusão escolar. Portanto, a formação dos professores da educação especial deve primar pelo trabalho colaborativo entre os professores do ensino comum e especial, visando a inclusão efetiva de todos os estudantes. 14 REFERÊNCIAS ARANTES-BRERO, D. R. B. Enriquecimento escolar para estudantes com altas habilidades/superdotação em uma escola pública por meio da consultoria colaborativa. 131 f. Tese (Doutorado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Araraquara, 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: MEC, 2008. _____. Resolução CNE n. 4, de 2 de outubro de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 3 out. 2009. _____. Decreto n. 7.611, de 17 de novembro de 2011. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 nov. 2011. _____. Lei n. 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 28 dez. 2012. _____. Glossário da educação especial: censo escolar 2020. Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2020. Disponível em: . Acesso em: 13 jul. 2021. BRITO, M. C.; MISQUIATTI, A. R. N. 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