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Jorge Bernardi - Processo Legislativo Brasileiro - Pesquisável - Ano 2009

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a questão do estilo a ser utilizado pelo legisla­
dor é fundamental para que, no momento da interpretação da nor­
ma, não seja distorcido o seu verdadeiro significado.
Para Farhat (1996, p. 943), a técnica legislativa é composta dc 
‘normas e princípios, escritos e não escritos, os quais, do ponto de 
vista constitucional e jurídico, regem o modo de escrever os textos 
legais, a bem dc sua compreensão c aplicabilidade”.
A lei deve, ao expressar uma ideia, tanto quanto possível, conter 
termos consagrados pela técnica legislativa e já interpretados de 
maneira clara pelos tribunais. Não há o que sc inventar; deve-se 
objetivar, no máximo, aperfeiçoar o referido conceito, modernizá- 
lo. Qualquer excesso pode trazer mais prejuízos do que benefícios 
para a interpretação da norma.
A questão do estilo na redação da norma é ponto fundamental. 
Quanto mais apurado este é, melhor é a lei. Aliás, o termo est i ­
lo vem do latim s t i l u s , que era uma espécie de estilete, com 
ponta de metal ou osso, utilizado pelos romanos para escrever em 
tábuas.
Os estilos literários, na divisão quantitativa clássica, conforme 
explica José de Queiroz Campos (1972, p. 15-16), citando Eduardo 
Pinheiro, são: “a) o ático, que equilibra a forma c o fundo com o 
emprego correto das palavras para expressar o pensamento; b) o 
asiático, que utiliza hipérboles, que ofuscam a clareza do pensa­
mento; c) o lacônico, excessivamente conciso; e) o ródio, que utiliza 
figuras de retórica, prejudicando a clareza”.
Na classificação qualitativa, o mesmo autor citado, ao referir-se 
à natureza, à disposição e à beleza das palavras, classifica os es­
tilos em: “a) tênue ou sutil, cujas palavras expressam ideias com 
correção e vocabulário apropriado; b) temperado ou médio, mais 
apurado c mais rico que o tênue, sem imagens mais impetuosas; c) 
nobre ou sublime, explora a riqueza da linguagem para manifestar
o mais elevado pensamento” (Campos, 1972, p. 15-16).
Campos conclui, portanto, que a lei deve primar pelo equilíbrio 
entre a forma e o fundo, valendo-se do emprego exalo das palavras; 
a redação da lei deve também ser sutil para que não lhe falte cla­
reza c muito menos precisão. Todo esse esforço deve scr emprega­
do para que toda e qualquer ambigüidade ou redundância sejam 
dirimidas, possibilitando, assim, uma interpretação adequada do 
conteúdo da lei.
Sobre o vocabulário que deve ser utilizado na elaboração da lei, 
Meehan (1976, p. 84-85) acentua que devem ser utilizadas apenas 
palavras próprias do idioma, devendo ser expressas de acordo com 
as regras ortográficas da gramática correspondente. O autor ainda 
acrescenta que:
A utilização de palavras de outros idiomas não é admis­
sível, mesmo quando não existirem termos com igual 
significado no idioma nacional, pois um instrumento de 
regulação estatal como este, dada sua hierarquia e in­
discutível papel educativo que deve preencher; não pode 
ser expresso contrariando as exigências cujo a matéria 
importa para o legislador um “dever" moral e cívico.
E, complementando a ideia da boa redação de lei, Mayr Godoy 
(1990, p. 104) aponta qualidades consideradas fundamentais pela 
autora para que a lei tenha uma boa forma e técnica, quais sejam: 
simplicidade, clareza, precisão, concisão, correção, coerência, pu­
reza, eufonia, propriedade, ordem e unidade. A autora acrescenta 
que 6ia redação não fica, como se poderia restringir, à correção do 
texto sob o aspecto da boa gramática, indo bem além, abrangendo, 
ainda, a análise jurídica a experimentação jurídica, a construção 
jurídica e a lógica legislativa”.
A própria LC n° 95/1998, como veremos adiante, estabelece al­
gumas regras que deverão ser observadas na elaboração das leis, 
tais como a clareza, a precisão e a ordem lógica.
3.1 Alcance da técnica legislativa
As normas estabelecidas na LC ri° 95/1998 abrangem todos os atos 
normativos previstos 1 10 art. 59 da Carta Constitucional, bem como 
aos decretos e outros atos regulamentares que são expedidos por ór­
gãos do Poder Executivo. Portanto, essa norma se destina ao processo 
dc elaboração dc emendas à Constituição, assim como às leis comple- 
mentares, às leis ordinárias, às leis delegadas, às medidas provisórias, 
aos decretos legislativos, às resoluções e a outros atos normativos.
A LC n° 95/1998 é uma lei complementar que possui caráter 
nacional, possuindo arligos de abrangência geral que devem ser
obedecidos por todos os entes federados (União, estados. Distrito 
Federal c municípios). Há também tópicos dirigidos especialmente 
à legislação federal, portanto destinados exclusivamente à União, 
como o tópico que versa sobre a consolidação das leis federais texto
que está 1 1 0 art. 13, da LC n° 95/1998.
Essa lei complementar também estabelece critérios que devem 
ser observados quanto à numeração das normas. As emendas à 
Constituição Federal têm sua numeração iniciada com a promulga­
ção da Carta Magna. Nessa ordem também são incluídas as emen­
das às constituições estaduais e às leis orgânicas municipais, que 
terão sua numeração principiada 1 10 momento cm que cias forem 
promulgadas pelas respectivas assembleias legislativas ou câmaras 
municipais, da mesma forma que as leis, tenham elas a natureza 
que tiverem, sejam cias complemcntarcs, ordinárias ou delegadas, 
terão numeração seqüencial em continuidade às séries iniciadas 
em 1946. Ou seja, segue-se a ordem iniciada com a Constituição da 
redemocratização do referido ano. Mesmo porque as Constituições 
de 1967, 1969 e de 1988 não alteraram a numeração dessas leis, 
muitas das quais foram recepcionadas pela Constituição em vigor.
A mesma regra vale para as leis estaduais e municipais, seja 
qual for a natureza delas. No caso dos estados e dos municípios que 
se emanciparam após essa data, a numeração de suas respectivas 
leis tem seu início demarcado após a promulgação dc suas respec­
tivas constituições ou leis orgânicas municipais.
3.2 A estruturação das leis
Para que uma proposição possa tramitar em um dos respectivos 
órgãos legislativos, esta deve possuir uma estrutura com caracterís­
ticas próprias que a identifiquem como um projeto de lei. Não pode 
um texto cm forma dc redação ou dc poesia ser apresentado como
0 p
roc
ess
o 
leg
isla
tivo
 b
ras
ile
iro
100
unia lei ou como um projeto de lei. Existem princípios que devem 
ser observados para que a referida proposição tenha um formato, 
um estilo, que a caracterize como de uma lei.
As leis, portanto, deverão ser estruturadas em três partes básicas 
expostas nos incisos do art. 3° da LC n° 95/1998:
[...]
I - parte preliminar, compreendendo a epígrafe, a emen­
ta. o preâmbulo, o enunciado do objeto e a indicação do 
âmbito de aplicação das disposições normativas;
II - parte normativa, compreendendo o texto das normas 
de conteúdo substantivo relacionadas com a matéria re­
gulada;
III - parte final, compreendendo as disposições per­
tinentes às medidas necessárias à implementação das 
normas de conteúdo substantivo, às disposições transi­
tórias, se for o caso, a cláusula de vigência e a cláusula 
de revogação, quando couber.
Para Godoy (1990, p. 104) a redação legal não deve observar 
apenas o aspecto gramatical, a correção do texto, que, sem dúvida, 
é fundamental, mas ir além, ou seja, deve-se observar os aspectos 
jurídicos de construção e experimentação, bem como a lógica legis­
lativa. Segundo ele, “a redação legislativa tem sua fórmula articula­
da e sua fórmula esquemática, e ambas dando o visual estruturado 
que se consolidou em nosso direito”.
Epígrafe é o título, a parte inicial da lei, é o nome da norma. 
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