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Francesco Carnelutti - As Misérias do Processo Penal

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aspecto, o duelo entre defensor e acusador parece o choque de
duas pedras, do qual sai faisca. As razões, já havíamos dito, estão
para a razão como as cores para a luz; as arengas do defensor
e do acusador assemelham-se a uma girândola de cores; mas
girando velozmente se fundem na luz. De qualquer maneira a
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vantagem que o juiz tira não é somente do intelecto. A verdade
é que o contraditório o ajuda justamente porque é um escândalo:
o escândalo da parcialidade, o escândalo da discórdia, o escân-
dalo da Torre de Babel. A repugnância à parcialidade se converte
para o juiz na necessidade de superá-la, ou seja, de superar-se;
está nesta necessidade a salvação do juízo.
 Eis que esta tentativa de análise do processo penal no
seu momento mais tecnicamente delicado permite, talvez, esco-
lher um resultado, que tem de per si uma certa importância para
a civilização. Poder-se-ia falar, neste ponto, de reabilitação dos
advogados. A do advogado é quiçá uma das figuras mais discu-
tidas no quadro social; talvez a mais tormentosa. Não foi nunca,
entre outros, mesmo nos momeàtos convulsionados da história,
proposta supressão dos médicos ou dos engenheiros, mas dos
advogados sim. Alguma vez, por fim, se conseguiu suprimi-los;
depois foram imediatamente ressurgidos. No fundo o protesto
contra os advogados é o protesto contra a parcialídade do ho-
mem. A ver-se bem, eles são os cireneus da sociedade: carregam
a cruz por um outro, e esta é a nobreza deles. Se me pedissem
para a Ordem dos Advogados um lema, proporia o virgiliano “sic
vos non vobis”. Somos aradores do campo da justiça e não
recolhemos os frutos.
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VI
 4 tarefa do processo penal está no saber se o
acusado é inocente ou culpado. Isto quer dizer, antes de tudo, se
aconteceu ou não aconteceu um determinado fato: um homem
foi ou não foi assassinado, uma mulher foi ou não foi violentada,
um documento foi ou não foi falsificado, uma jóia foi ou não foi
levada embora?
 Necessitaria saber o que é um fato, antes de tudo. São
palavras que se usam pela intuição; que se compreendem apro-
ximadamente; mas precisa refletir-se sobre. Um fato é um pedaço
de história; e a história é a estrada que percorrem, do nascimento
à morte, os homens e a humanidade. Um pedaço de estrada,
portanto. Mas da estrada que se fez, não da estrada que se pode
fazer. Saber se um fato aconteceu ou não quer dizer, portanto,
voltar atrás. Este voltar atrás é aquilo que se chama fazer a
história.
 Não é mistério que no processo, e não só no processo
penal, se faz a história. Digo: não é um mistério para os juristas,
os quais aqui têm há tempo voltado a atenção; mas, pode sur-
preender o homem comum, ao qual é dirigido o meu discurso.
Isto acontece porque nós estamos acostumados a considerar a
história dos povos, que é a grande história; mas há também a
pequena história, a história dos indivíduos; aliás não haveria aque-
la sem esta, como não haveria a corda sem os fios, que estão
torcidos entre si. Quando se fala de história, o pensamento per-
corre as dificuldades que se apresentam para reconstituir o pas-
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 sado; mas são, tendo em conta a medida, as mesmas dificuldades
 que se devem superar no processo.
 Com isto de pior: o delito é um pedaço de estrada,
cujos rastros quem a percorreu procura destruir. Acontece o con-
trário daquilo que ocorre, normalmente, para o contrato: quando
um compra, tanto mais se a coisa tem um valor relevante, con-
serva ao máximo, mediante um documento, a prova de ter com-
prado; quando rouba, destrói, quanto melhor pode, as provas de
ter roubado.
 As provas servem, exatamente, para voltar atrás, ou
seja, para fazer, ou melhor, para reconstruir a história. Como
faz quem, tendo caminhado através dos campos, tem que per-
correr em retrocesso o mesmo caminho? Segue os rastros de sua
passagem. Vem em mente o cão policial, o qual vai farejando
aqui e ali, para seguir com o faro o caminho do malfeitor per-
seguido. O trabalho do historiador é este. Um trabalho de aten-
ção e paciência, sobretudo, para o qual colaboram a policia, o
ministério público, o juiz instrutor, os juizes de audiência, os
defensores, os peritos. Prescindindo das crônicas dos jornais, os
livros policiais e o cinema têm, não tanto informado, como in-
flamado o público sobre este trabalho. A utilidade desta literatura,
sob o aspecto da civilização, está no ter difundido a impressão,
para não dizer a experiência, da dificuldade da procura, por causa
da falibilidade das provas. O risco é errar o caminho. E o dano
é grave, quando se erra a estrada, também se a história é feita
só nos livros. Porque, se bem que os historiadores não se dão
conta e os filósofos ou, ao menos, alguns filósofos, contestam,
não se retoma à via percorrida senão para encontrar as vias a
percorrer; seja como for, é tanto mais notório quando o passado
se reconstrói para se decidir o destino de um homem.
 Mas há também o reverso da medalha; e qual reversol
A culpa não é toda da literatura policial; entenda-se. Esta, aliás,
pode ser um sintoma antes que a causa de um fenômeno deri-
vante de causas mais profundas. Quiçá esta se deveria procurar
naquela tendência ao divertimento, a qual tem tanto lugar na crise
da civilização, que estamos atravessando. Em uma palavra, é a
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história mesma, que advém do meio de diversão. A crónica judi-
ciária e a literatura policial servem, do mesmo modo, de diversão
para a cinzenta vida cotidiana. Assim a descoberta do delito, de
dolorosa necessidade social, se tomou uma espécie de esporte;
as pessoas se apaixonam como na caça ao tesouro; jornalistas
profissionais, jornalistas diletantes, jornalistas improvisados não
tanto colaboram quanto fazem concorrência aos oficiais de policia
e aos juizes instrutores; e, o que é pior, ai fazem o trabalho deles.
Cada delito desencadeia uma onda de procura, de conjunturas,
de informações, de indiscrições. Policiais e magistrados de vigi-
lantes se tomam vigiados pela equipe de voluntários prontos a
apontar cada movimento, a interpretar cada gesto, a publicar
cada palavra deles. As testemunhas são encurraladas como a
lebre de cão de caça; depois, muitas vezes sondadas, sugestiona-
das, assalariadas. Os advogados são perseguidos pelos fotógrafos
e pelos entrevistadores. E muitas vezes, infelizmente, nem os
magistrados logram opor a este frenesi a resistência, que reque-
reria o exercício de seu mister austero.
 Esta degeneração do processo penal é um dos sintomas
mais graves da civilização em crise. É até dificil representar todos
os danos devidos à falta daquele recolhimento que a nenhum
outro dever é necessário quanto aquele que deve ser demonstra-
do. Não o mais grave, mas certamente o mais visível é aquele
que resguarda o respeito ao acusado. A Constituição italiana
proclamou solenemente a necessidade de tal respeito declarando
que o acusado não deve ser considerado culpado até que não
seja condenado com uma sentença definitiva. Esta é, porém, uma
daquelas normas, as quais servem somente a demonstrar a boa
fé daqueles que a elaboraram; ou, em outras palavras, a incrível
capacidade de iludir-se da qual são dotadas as revoluções. lnfe-
lizmente a justiça humana é feita assim, que nem tanto faz sofrer
os homens porque são culpados quanto para saber se são culpa-
dos ou inocentes. Esta é, infelizmente, uma necessidade à qual
o processo não se pode furtar, nem mesmo se o seu mecanismo
fosse humanamente perfeito. Santo Agostinho escreveu a este
pmopósito uma de suas páginas imortais; a tortura, nas formas
mais cruéis, está abolida, ao menos sobre o papel; mas o pro-
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 cesso por si mesmo