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Antonio Lopes Neto - Direito Administrativo

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e, em
conseqüência seja confirmada integralmente a decisão pro-
ferida pelo Magistrado de Primeiro grau.
Concluindo o estudo do presente tópico sobre ação de
cobrança trazemos parecer de nossa autoria emitido na Ape-
lação Cível n. 65.764-3, da Comarca de Congonhas - MG:
Na Comarca de Congonhas, neste Estado, o Sr.
J.F.M., antes qualificado, ajuizou a presente ação contra a
Fazenda Municipal da referida cidade, buscando o recebi-
mento da quantia de Cr$ 21.191.400,00 por serviços pres-
tados ao Poder Público local, através de "táxi" que lhe
pertence, no período de outubro a dezembro de 1992,
"... para transportar pessoas doentes a hospitais de Belo
Horizonte, Barbacena, Conselheiro Lafayete e Ouro
Branco, por solicitação do serviço de assistência social do
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Município - o Servac - sem, contudo, receber o corres-
pondente pagamento, a despeito de todos os esforços em-
preendidos neste sentido.
Alega que rodava, em média, 70 quilômetros diários e,
além disso, permanecia à disposição dos passageiros cerca
de quatro a cinco horas por dia, gastando, em vão, seu tempo
e dinheiro para prestar esses serviços ao Município ... .
Após regular tramitação do processo, foi proferida
decisão de mérito, cuja conclusão está assim vazada:
"... Pelo exposto, julgo a ação procedente e, em conseqü-
ência, condeno a Fazenda requerida a pagar ao autor a
importância cobrada na inicial, acrescida dos respectivos
juros, de 0,5% ao mês, e correção monetária, a contar da
data da citação até a do efetivo pagamento, bem como das
custas processuais e honorários advocatícios que arbitro
em 20% sobre o montante final da dívida, a se apurar em
execução.
Publique-se, registre-se e intimem-se ambas as partes nas
pessoas de seus respectivos patronos e também a Promo-
toria de Justiça.
Feitas as intimações necessárias e fluído o prazo para
interposição de recurso voluntário, com ou sem este, su-
bam os autos ao egrégio Tribunal de Justiça do Estado,
para o qual recorro de ofício, em obediência ao art. 475,
II, do Código de Processo Civil ..."
A Municipalidade e o Ministério Público, inconfor-
mados com a decisão monocrática, recorreram.
Consta da peça recursal do Ministério Público:
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" ... Não compactuamos do entendimento sustentado pelo
emitente julgador monocrático, no sentido de total
irresponsabilidade do autor em relação às irregularidades
administrativas constatadas nos autos, mesmo porque,
conforme disposição legal, ninguém se escusa de cumprir
a lei alegando desconhecimento, mormente em situações
tais envolvendo transações de cunho nitidamente
obrigacional, onde as partes interessadas têm pleno co-
nhecimento dos rituais a serem observados, mas relutam
em adotá-los por motivações escusas.
Embora, sabidamente, atos interna corporis, se mostram
como atos públicos por excelência, ante o interesse públi-
co manifestado na norma, cujo desrespeito atinge toda a
sociedade, como destinatária principal da verba pública
mal gerida ..."
"... Não pode o autor invocar a ignorância da lei, para fins
de eximir-se de responsabilidade e auferir somente vanta-
gens, mesmo porque, consoante o art. 3° da Lei de Introdu-
ção ao Código Civil `ninguém se escusa de cumprir a lei
alegando que não a conhece', muito menos compete ao
magistrado invocar tal postulação para fins de fundamentar
o decisório, em frontal contradição aos termos legais..."
"... Ante o exposto, requer e espera o Ministério Público,
seja reformada, in totum, a r. decisão a quo, dando-se
integral provimento ao apelo manejado, reconhecendo-se
a ilegitimidade da parte figurante no polo passivo da ação
e, no mérito, acaso ultrapassada a preliminar invocada,
seja julgado parcialmente provido o pedido, reconhecen-
do-se, tão-somente, as viagens comprovadas através de
testemunhas, ante a carência probatória carreada aos
autos, bem como, adotando-se as medidas pertinentes
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postuladas pelo parquet, quanto às irregularidades admi-
nistrativas noticiadas nos autos...".
Sustenta o Município de Congonhas:
"... Se o próprio magistrado afirma na r. sentença que
houve irregularidades, como pode o apelante arcar com
despesas irregulares, e diz ainda que o fato só pode ser
debitado à autoridade administrativa que contratou ou
autorizou sua contratação ao arrepio da lei, mais caracteri-
zado ficou que se o apelado tem algum crédito a receber
deverá o este ser pago por quem o contratou, ou seja,
deverá responder pelo erro a autoridade administrativa
que procedeu em desobediência à lei. Aplicando-se, inclu-
sive, a Súmula 12 do egrégio Tribunal de Contas do Esta-
do de Minas Gerais, que diz:
`As despesas públicas realizadas sem observância do em-
penho prévio são irregulares, de responsabilidade pessoal
do ordenador, salvo se o legislador as considerar de inte-
resse público e autorizar a competente regularização...'
Logo, doutos magistrados, sustentando o apelante todos
os seus argumentos de defesa, de fls. 14 a 17, assim como
fundamento está ele nos novos argumentos acima expos-
tos, pede e espera que seja reformada a r. decisão de
primeiro grau, a fim de que seja a ação julgada improce-
dente, ou carecedor do pedido o Apelado, pelas prelimina-
res como pelas razões de mérito, de defesa como deste
recurso e que seja ele condenado ante o princípio da
sucumbência..."
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Como percebemos, em tempestivos recursos (fls. 35173
e 71/75), alegam os recorrentes a impossibilidade da sobre-
vivência da decisão a quo, por ser contrária à legislação em
vigor e não encontrar lastro na prova produzida.
Concessa venia, não podemos aceitar a solução apon-
tada pelos recorrentes. Nessa linha de fundamentação, me-
recem transcrição os seguintes trechos do decisório de Pri-
meira Instância:
"... não me parece a resistência oposta pela Fazenda
requerida ao pagamento da dívida que aqui se cobra. Por-
quanto, a meu sentir, não pode ser penalizado o prestador
de serviços pelos erros que comete a Administração Pú-
blica.
No caso aqui sob exame, se irregularidades houve na
contratação dos serviços - e a mim me parece que real-
mente houve -, esse fato só pode ser debitado à autoridade
administrativa que contratou ou autorizou sua contratação
em desobediência à legislação atinente à matéria e não ao
prestador, que, na maioria das vezes, nem tem conheci-
mento da complicada liturgia que envolve os contratos
celebrados com a Administração Pública.
É, deveras, censurável o ato do administrador público que
contrata serviços à míngua de dotação orçamentária, de
autorização legislativa, de empenho prévio ou sem o in-
dispensável procedimento licitatório, mas por esse erro só
deve responder a autoridade que haja procedido em deso-
bediência à lei e não a pessoa, ou a empresa contratada,
que não tem sobre si o dever nem a responsabilidade de
zelar pela lisura dos atos da Administração Pública.
No caso aqui sob exame, comprovou o autor, por docu-
mentos hábeis, que efetivamente prestou os serviços a ele
contratados pelo Município em benefício do Servasc, as-
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sistindo-Ihe, portanto, o direito de receber o correspon-
dente pagamento, ainda que a Administração anterior
os tenha contratado de forma irregular, já que não foi ele,
o autor, quem deu causa a essa irregularidade..."
A sentença de primeiro grau acolheu, corretamente, o
pedido contido na peça exordial. No nosso sentir, o julgador
aplicou o direito à espécie, dando à demanda solução justa e
que reflete o contido no art. 5° da Lei de Introdução ao
vigente Código Civil: "... Na aplicação da lei, o juiz atende-
rá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem
comum."
O autor que, de boa-fé, prestou serviços ao Poder Públi-
co, não pode e nem deve ser penalizado com o não-recebimen-
to das quantias reclamadas. Se a contratação foi irregular e/ou
ilegal, cabe a interposição de ação popular e/ou civil pública
contra o responsável pelas despesas tidas como indevidas;