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Antonio Lopes Neto - Direito Administrativo

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não cabe a um simples motorista de praça perquirir quando
de sua contratação, se esta encontra-se nos moldes regula-
mentares; a responsabilidade, nessa circunstância, há de ser
debitada, exclusivamente, ao administrador, por razões ób-
vias.
Defendemos a posição que o Juiz de Direito de
Congonhas, ao julgar a matéria em análise, arrimou-se na
situação concreta apresentada nos autos, com suporte nas
provas demonstradas pelo suplicante, ora recorrido.
Deixar ao "bel-prazer" da Administração Pública a
contratação irregular de serviços, para depois negar-lhe
administrativamente o seu efetivo pagamento, subtraindo
do prestador de serviço o direito ao recebimento, concessa
venia, não seria uma atitude sensata. O correto, o razoável,
no caso em debate, é a quitação da dívida e, a posteriori, o
imediato acionamento em busca do ressarcimento aos co-
100
fres públicos, se for o caso; a responsabilidade pela contra-
tação é fato relevante e não pode ser desprezada; a
penalização do agente e/ou servidor público diretamente
responsável pelo ato administrativo referido deve ser perse-
guida à luz da legislação em vigor.
Com o intuito de ilustrar este modesto pronunciamen-
to, trazemos à colação a sempre lúcida manifestação do
eminente Ministro do STJ, Sálvio de Figueiredo:
"O Estado Democrático de Direito não se contenta mais
com uma ação passiva. O Judiciário não mais é visto
como mero Poder eqüidistante, mas como efetivo parti-
cipante dos destinos da Nação e responsável pelo bem
comum. Os direitos fundamentais sociais, ao contrário
dos direitos fundamentais clássicos, exigem a atuação do
Estado, proibindo-lhe a omissão. Essa nova postura repu-
dia as normas constitucionais como meros preceitos pro-
gramáticos, vendo-as sempre dotadas de eficácia em te-
mas como dignidade humana, redução das desigualdades
sociais, erradicação da miséria e da marginalização, valo-
rização do trabalho e da livre iniciativa, defesa do meio
ambiente e construção de uma sociedade mais livre, justa
e solidária.
Foi-se o tempo do Judiciário dependente, encastelado e
inerte. O povo, espoliado e desencantado, está a nele
confiar e a reclamar sua efetiva atuação através dessa
garantia democrática que é processo, instrumento da juris-
dição" (Correio Braziliense. Caderno de Direito e Justiça,
24 de fevereiro de 1992).
Tal linha de fundamentação harmoniza-se com o ma-
gistério sempre autorizado do eminente Desembargador
Roney Oliveira:
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"Pelo rito sumaríssimo, moveu a apelada, em desfavor da
Fazenda Pública do Município de Congonhas, ação de
cobrança, referente ao fornecimento de areia, acobertado
por três notas fiscais.
A sentença julgou procedente a súplica, vindo os autos a
este Tribunal por força do reexame necessário e do apelo
voluntário da Fazenda, que pede a reforma da decisão,
porque nulo o ato administrativo, já que constitui burla,
sujeita a enquadramento por crime de responsabilidade,
nos termos do art. 1° do Decreto-Lei n. 201/67, a lei-
empenho a posteriori.
Ao fornecedor de bens e serviços, basta que prove o seu
crédito junto à Fazenda, para fazer jus ao respectivo valor,
cobrado pelas vias ordinárias.
No caso, a venda de areia efetuada pela apelada à Munici-
palidade restou comprovada pela emissão das respectivas
notas fiscais, acobertadas pelo recibo de entrega da mer-
cadoria.
Se a emissão dos documentos fiscais ou do empenho se
deu após o negócio, má-fé não houve, por ser essa uma
praxe muito comum nas pequenas cidades, onde o fornece-
dor age de acordo com o comando da Municipalidade
adquirente, atendendo às suas conveniências contábeis e/ou
burocráticas.
Via de regra, o pequeno e leigo comerciante desconhece
os meandros da contabilidade pública, não sendo razoável
que se lhe exija conhecimento técnico específico que lhe
permita saber, de antemão, se a emissão, a posteriori, de
notas fiscais ou empenhos pode ou não ensejar a respon-
sabilidade criminais dos Prefeitos.
Consoante oportuna abordagem da Procuradora Aída Fer-
nandes Lisbôa (fls. 54), `o Poder Judiciário [...] não pode
anular um ato administrativo, dentro de uma ação de co-
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brança, sem qualquer provocação anterior dos interessa-
dos', mesmo porque não se pode impor à apelada `a obriga-
ção de fiscalizar o Poder Público', após cumprir o seu papel
na transação, fornecendo as mercadorias correspondentes.
A propósito, leciona Hely Lopes Meirelles (Direito ad-
ministrativo brasileiro. 2. ed., São Paulo: RT, p. 164):
`Os atos administrativos, qualquer que seja a sua catego-
ria ou espécie, são portadores da presunção de legitimida-
de, independentemente de norma legal que a estabeleça.
Essa presunção decorre do princípio da legalidade da
Administração que, nos Estados de Direito, informa toda
a atuação governamental. Além disso, a presunção de
legitimidade dos atos administrativos responde a exigên-
cias de celeridade e segurança da atividade do Poder Pú-
blico, que não poderia ficar na dependência da solução de
impugnação dos administrados, quanto à legitimidade de
seus atos, para, só após, dar-lhes execução.
A presunção de legitimidade autoriza a imediata execução
ou operatividade dos atos administrativos, mesmo que
argüidos de vícios ou defeitos que os levem à invalidade.
Enquanto, porém, não sobreviver o pronunciamento de
ineficácia, os atos administrativos são tidos por válidos e
operantes, quer para a Administração, quer para os parti-
culares sujeitos ou beneficiários de seus efeitos. Admite-
se, todavia, a sustação dos efeitos dos atos administrativos
através de recursos internos ou de mandado de segurança,
em que se conceda a suspensão liminar, até o pronuncia-
mento final de validade ou invalidade do ato impugnado.
Outra conseqüência da presunção de legitimidade é a
transferência do ônus da prova de invalidade do ato admi-
nistrativo para quem a invoca. Cuide-se de argüição de
nulidade do ato, de vício formal ou ideológico, a prova do
efeito apontado ficará sempre a cargo do impugnante'.
103
Confirmo, pelo exposto, no reexame necessário, o julgado
de primeiro grau, com o que resta prejudicado a apelo
voluntário, como já dito alhures.
Custas ex lege"' (Ap. Cív. n. 33.91315 - Comarca de
Congonhas - Apelantes: 1°) Juiz de Direito da Comarca
de Congonhas; 2a) Fazenda Pública do Município de
Congonhas - Apelada: H.F. Transporte e Fornecimento
Minerais Ltda. - Relator: Des. Roney Oliveira).
Quanto às provas, temos que o Sr. J.F.M., r. qualifica-
do, se desincumbiu de comprovar os fatos constitutivos do
seu direito, nos termos do art. 333, I, da Lei Adjetiva.
Desenvolvendo, pois, o mesmo raciocínio expendido na
decisão de primeiro grau, esta Procuradoria de Justiça é
pelo improvimento dos recursos apresentados pelo Ministé-
rio Público e pelo Município de Congonhas.
& 6 ANULAÇÃO E REVOGAÇÃO DO ATO ADMINISTRATIVO - SUMULA 473 DO
STF
O Ato Administrativo está sujeito à anulação e à
revogação.
Sobre tais enfoques, o Professor José dos Santos Car-
valho Filho esclarece:
"...A anulação da licitação é decretada quando existe no
procedimento vício de legalidade. Há vício quando
inobservado algum dos princípios ou alguma das normas
pertinentes à licitação; ou quando se escolhe proposta
desclassificável; ou não se concede direito de defesa aos
participantes, etc. Enfim, tudo quanto se configurar como
vício de legalidade provoca a anulação do procedimento.
104
A anulação pode ser decretada pela própria Administra-
ção (art. 49 do Estatuto). Sendo anulado o procedimento,
não há obrigação de indenizar por parte da Administra-
ção, salvo se o contratado já houver executado parte do
objeto até o momento da invalidação. Trata-se, pois, de
impedir enriquecimento sem causa por parte da Adminis-
tração.
É de tal gravidade o procedimento viciado que sua anu-
lação induz a do próprio contrato, o que significa dizer
que, mesmo que já celebrado o contrato, fica este com-