A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
227 pág.
Auto Anônimo - Curso de Direito Administrativo

Pré-visualização | Página 10 de 50

Por outro lado, a supremacia do interesse público é expressão razoável 
da legitimidade. Resulta de um juízo que deduz as vantagens que compensam 
o sacrifício privado, individual e particular para que o mesmo sujeito goze de 
um benefício maior. 
 Outro aspecto a ser salientado é o caráter relativo desse princípio. Em 
face do princípio da legalidade (lato sensu) a supremacia do interesse público 
se apresenta como seu corolário, portanto, sua aplicação é devida somente 
naquelas hipóteses em que não haja reserva constitucional da matéria. 
O legislador constituinte, inspirado por esse princípio, norteia a sua 
produção normativa. Ao estabelecer regras que prestigiam direitos individuais 
fundamentais, subtrai do Poder Público a capacidade de fazer sobrepor o 
interesse público ao particular. Assim, a supremacia do interesse público não 
pode ser invocada nas hipóteses tuteladas pela Carta Magna gravadas com o 
dogma de cláusulas pétreas. 
Tal proteção se justifica em face da condição humana que requer, 
concomitantemente, prestígio a duas dimensões para o reconhecimento do 
indivíduo como ser social, uma de índole particular e outra de índole 
coletiva/comunutária. A supervalorização do princípio em epígrafe não pode 
fazer sucumbir, evidentemente, o elemento humano que lhe dá suporte, 
fundamento e legitimidade. Daí sua aplicação ser de caráter relativo e pautada 
na observância do princípio da razoabilidade. 
 
3.2.Indisponibilidade do Interesse Público. 
 
A indisponibilidade do interesse público representa outro princípio 
jurídico-administrativo geralmente aceito. Seu conteúdo se associa 
intimamente com a noção da finalidade pública da administração, constituindo-
se numa clara limitação das faculdades e poderes reconhecidos ao 
administrador. 
 Administrar é zelar e cuidar dos bens postos sob a tutela e competência 
de alguém; é prover e fomentar as diligências necessárias para o cumprimento 
das obrigações correspondentes ao trato da coisa a ser administrada (coisa 
pública). 
 Ao realizar as atividades administrativas o administrador exercita todas 
as faculdades de que necessita para o implemento de seu mister. Todavia, a 
coisa administrada não pertence ao administrador, não constitui objeto de seu 
2.Princípios Jurídicos Administrativos. 
 
 32 
 
Te
xto
 e 
es
tru
tur
a d
os
 co
me
ntá
rio
s r
eg
ist
ra
do
s n
a F
BN
 s
ob
 o 
nú
me
ro
 21
0.7
95
-L3
66
-F
L4
55
 
patrimônio pessoal. Sendo assim, o administrador não goza da faculdade 
máxima do domínio (propriedade), ou seja, o poder de dispor do bem segundo 
o interesse do titular do bem. Tal prerrogativa permanece na esfera da 
coletividade. 
 A indisponibilidade do interesse público subtrai do administrador as 
capacidades próprias de quem titulariza o domínio. Assim, um dos corolários 
mais expressivos dessa limitação encontra-se na inarredabilidade, na 
indeclinabilidade, na inadmissibilidade de o administrador deliberadamente 
negar-se em cuidar daquilo que constitui sua razão e finalidade. 
 Não gozar da livre disposição do bem que administra significa não ter a 
capacidade para desfazer-se do bem, de não poder furtar-se de sua atribuição 
na guarda e conservação do bem, de não poder transmitir a terceiros a 
incumbência de zelar, tratar e vigiar. 
 Nas palavras de Celso Antônio Bandeira de Mello a “indisponibilidade do 
interesse público significa que sendo interesses qualificados como próprios da 
coletividade – internos ao setor público – não se encontram à livre disposição 
de quem quer que seja, por inapropriáveis.” 
 O ilustre autor e professor corrobora o raciocínio acima descrito dizendo 
que na relação jurídico-administrativa “não há apenas um poder em relação a 
um objeto, mas, sobretudo, um dever, cingido o administrador ao cumprimento 
da finalidade, que lhe serve de parâmetro.” 
 Da indisponibilidade do interesse público resultam a inalienabilidade e a 
impenhorabilidade dos bens públicos, o recurso de ofício em uma série de 
processos administrativos e judiciais, a prerrogativa de avocação de 
competência, o não repasse da titularidade dos direitos concernentes à própria 
prestação dos serviços públicos delegados (serviços autorizatários, 
permissionários e concessionários), a previsão de infrações administrativas e 
criminais que inadmitem a condescendência para com o infrator, a 
compulsoriedade da apuração da prática de infração disciplinar mediante 
sindicância sumária ou PAD (processo administrativo disciplinar), o regime 
tributário da isonomia, et cetera.. 
 Conclui-se, assim, que se a finalidade da administração, 
consubstanciada no trato da coisa pública, ultrapassa a esfera de domínio do 
administrador público, este não recebe outorga para a livre disposição dos 
bens que administra. 
 
3.3.Auto-executoriedade. 
 
Princípio que reconhece a função administrativa como atividade estatal 
autônoma. De fato, se a condução dos negócios e interesses da Administração 
Pública deve obediência ao princípio da legalidade, não há razão jurídica para 
submeter-se a ação administrativa a uma prévia avaliação de um órgão 
jurisdicional ou legislativo. 
2.Princípios Jurídicos Administrativos. 
 
 33 
 
Te
xto
 e 
es
tru
tur
a d
os
 co
me
ntá
rio
s r
eg
ist
ra
do
s n
a F
BN
 s
ob
 o 
nú
me
ro
 21
0.7
95
-L3
66
-F
L4
55
 
 A auto-executoriedade dispensa a Administração (observe-se que não 
estamos falando do Poder Executivo, mas sim de toda máquina administrativa 
pública, não importando em que estrutura ela se encontre incrustada) de 
depender da anuência de uma organização não-administrativa para a 
implementação de suas atribuições. 
 A auto-executoriedade é atributo inato à atividade administrativa, alçado 
à categoria de princípio em função da sua envergadura. Cristalina é a lição de 
Hely Lopes Meirelles ao escrever que “realmente, não poderia a Administração 
bem desempenhar sua missão de autodefesa dos interesses sociais se, a todo 
momento, encontrando natural resistência do particular, tivesse que recorrer ao 
Judiciário para remover a oposição individual à atuação pública.” 
 Por outro lado, o reconhecimento da auto-executoriedade é condição 
necessária para que a Administração possa agir de tal modo a cumprir com o 
seu dever de eficiência. A dinâmica dos eventos e fatos administrativos exige 
que a Administração disponha de uma capacidade de pronto atendimento. 
O agir diligente, respeitados os termos legais e regulamentares, diante 
de ocorrências que solicitam providências administrativas incontinenti atende a 
dois propósitos jurídico, pois em relação ao administrador traduz-se como 
dever e para o usuário e cliente do serviço público como direito. Mais uma 
razão para fundamentar a relevância jurídica do princípio da auto-
executoriedade. 
Abordando o tema por um outro ângulo, sabe-se que o Estado detém a 
tutela das três funções máximas derivadas da soberania, ou seja, a função 
normativo-legislativa, jurisdicional e administrativa. 
A função normativo-legislativa se caracteriza pela capacidade de instituir 
o direito a ser observado por todos, apresentando para a comunidade as 
normas gerais e abstratas que regram o comportamento social. Portanto, o 
Estado quando realiza essa função provê de forma mediata uma das 
necessidades básicas da vida gregária, pois a efetivação das regras depende 
da ocorrência de casos concretos que reclamem a incidência da norma para a 
disciplina jurídica do evento. 
A função jurisdicional, por seu turno, também representa uma forma de 
prestação de serviço em plano mediato, pois que é deferido às partes 
resolverem seus conflitos por intermédio de diálogo, acordos, pactos, etc. A ida 
ao órgão jurisdicional representa uma alternativa