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DIREITO DO TRABALHO I - Márcio Túlio Viana - 70 Anos de CLT - 2013

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eram os coronéis, JUDQGHV�ID]HQGHLURV�TXH�FKHÀDYDP�D�SROtWLFD�QR�LQWHULRU�H�
às vezes estendiam seu poder até o governo federal.
Mas o maior projeto, talvez, foi o projeto trabalhista. O trabalhismo. Era 
XP�SURMHWR�DUWLFXODGR�FRP�R�RXWUR��$ÀQDO��SDUD�KDYHU�LQG~VWULD��HUD�SUHFLVR�
também valorizar os trabalhadores. Não todos, é claro. Os perigosos deviam 
VHU�SUHVRV�RX�H[SXOVRV��
2� WUDEDOKLVPR� GH�*HW~OLR� WLQKD� YiULDV� UDt]HV�� 9DPRV� ÀFDU� DSHQDV� QR�
panorama geral.
Bem no início do século passado, as ideias mais fortes, como vimos, eram 
as liberais. O Estado evitava intervir nos contratos, inclusive no contrato de 
trabalho, a não ser para garantir as liberdades. 
&RP� D� ,� *XHUUD� 0XQGLDO�� DV� FRLVDV� FRPHoDUDP� D� PXGDU�� 2� SUySULR�
PRYLPHQWR� RSHUiULR� WLQKD� VH� WRUQDGR� PDLV� IRUWH�� $ÀQDO�� PLOK}HV� GH�
trabalhadores tinham morrido, e era preciso evitar que isso acontecesse 
de novo. E a questão social costuma estar na raiz de todas as guerras. Foi 
WDPEpP�SRU�LVVR�TXH�QDVFHX�D�2,7�87 
2XWUR�VLQDO�GH�PXGDQoD�IRUDP�DV�&RQVWLWXLo}HV�GR�0p[LFR��������H�GD�
$OHPDQKD���������(ODV�JDUDQWLUDP�DRV�WUDEDOKDGRUHV�XPD�VpULH�GH�GLUHLWRV�
²�RV�FKDPDGRV�´GLUHLWRV�VRFLDLVµ�RX�GH�´VHJXQGD�GLPHQVmRµ��$QWHV��Vy�UDUDV�
vezes, aqui e ali, um ou outro direito aparecia nas constituições.88
87 E foi ainda mais por isso que a OIT se fez ainda maior a partir da II Guerra 
0XQGLDO��TXDQGR�ÀFRX�PDLV�FODUD�D�UHODomR�HQWUH�D�JXHUUD�H�D�SREUH]D�
88 Segundo Magda Barros Biavaschi, a Constituição do Império, no Brasil, foi a 
primeira a fazer isso.
 anos de CLT Uma história de trabalhadores 
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Enquanto os direitos mais antigos, de um modo geral, protegiam a 
liberdade das pessoas, esses novos direitos queriam garantir a igualdade 
entre elas. Não uma igualdade total, absoluta, em tudo. Nem uma igualdade 
apenas na teoria. Como seria ela, então?
O ponto de partida era outro. Percebia-se que o próprio sistema capitalista 
KDYLD�PXOWLSOLFDGR� DV� GHVLJXDOGDGHV� HQWUH� DV� SHVVRDV��$JRUD��PDLV� GR� TXH�
nunca, havia os que tinham e os que não tinham os meios de produzir. Era 
preciso considerar esse fato.
e�YHUGDGH�TXH�WDPEpP�DQWHV�KDYLD�JUDQGH�SREUH]D��0DV��R�WUDEDOKDGRU��
TXDVH�VHPSUH��DLQGD�WLQKD�RV�PHLRV�GH�SURGX]LU��PHVPR�QmR�WHQGR��HP�JHUDO��
OLEHUGDGH�SDUD�FRQWUDWDU��-i�DJRUD�� FRPR�GLVVH�0DU[��HOH�HVWDYD� OLYUH��PDV�
livre de tudo – até dos meios de produzir.89 Nesse sentido, a situação tinha 
até piorado.
Ora, se as pessoas eram desiguais no plano econômico, o que se poderia 
fazer para reduzir essas desigualdades? Criar outras! Só que no plano jurídico, 
QR�PXQGR�GR�'LUHLWR��&RPR�HVFUHYHX�FHUWD�YH]�XP�JUDQGH�KRPHP��´HQWUH�R�
forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o servidor, é a liberdade 
que escraviza, é a lei que liberta”. 90
E o Direito do Trabalho nasceu com essa lógica91, com esse espírito. E 
nasceu, em boa parte, dentro daquelas constituições, pois elas aumentaram, 
reforçaram e deram um sentido, uma lógica, às poucas proteções que havia.
Mesmo assim, foi preciso uma grande crise para que as ideias liberais 
SHUGHVVHP�IRUoD��(VVD�FULVH�HVWRXURX�HP�������QRV�(VWDGRV�8QLGRV��H�IRL�VH�
espalhando por boa parte do mundo. Entre outras coisas, havia produção 
demais e consumo de menos. Daí o desemprego, as greves, empresas 
quebrando.
8P�JUDQGH�HFRQRPLVWD�²�.H\QHV�²�PRVWURX�TXH�R�(VWDGR�WHULD�GH�VHU�
GLIHUHQWH�� 7HULD� GH� LQWHUYLU� SDUD� DXPHQWDU� R� FRQVXPR�� 8P� GRV� PRGRV� GH�
89 MARX, Karl. Trabalho Assalariado e Capital. São João del Rei: Estudos 
Vermelhos, 2009.
90 Lacordaire, Jean-Baptiste-Henri Dominique. Conférences de Notre Dame de Paris. 
Paris: Garnier, p. 248
91 Como ensina um grande jurista, Maurício Godinho Delgado, o Direito do Trabalho 
tem sido o instrumento mais importante que temos para distribuir renda, reduzindo as 
desigualdades. Delgado, Maurício Godinho. Curso de Direito do Trabalho. S Paulo: LTr, 
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Márcio Túlio Viana
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intervir acabou sendo justamente o Direito do Trabalho, que se tornou maior, 
mais sólido, mais presente.
Em alguns países, as normas de proteção vieram a partir da lei. Em 
outros, mediante os contratos coletivos. Tanto num caso como no outro, a 
condição de vida foi melhorando – quanto mais direitos, mais dinheiros havia 
para comprar. 
*UDoDV� D� LVVR� H� D� RXWURV� PRWLYRV�� D� PiTXLQD� GD� LQG~VWULD� YROWRX� D�
funcionar. E de um modo ainda melhor e maior, inventando e produzindo 
produtos que surpreenderam o mundo – o automóvel, a geladeira, a TV... 
8PD�SDUFHOD�GDV�SUySULDV�HOLWHV�FRPSUHHQGHX�TXH�FULDU�GLUHLWRV�DVVLP��
sociais 92,�HUD�XP�PRGR�GH�YHQFHU�H�HYLWDU�DV�FULVHV��8P�GRV�H[HPSORV�PDLV�
FRQKHFLGRV�IRL�+HQU\�)RUG��GRV�DXWRPyYHLV�)RUG��TXH�GHFLGLX�²�VHP�TXDOTXHU�
JUHYH�²�DXPHQWDU�EDVWDQWH�R�VDOiULR�GH�VHXV�HPSUHJDGRV�
“Quero que eles comprem o próprio carro que fabricam!” – ele teria dito, 
embora nem todos acreditem nisso. 
Nos países fortes, com grandes indústrias – os países centrais – houve 
XPD� HVSpFLH� GH� DFRUGR�� R� ´SDFWR� IRUGLVWDµ��(UD� XP�DFRUGR� QmR� HVFULWR�� QmR�
IDODGR��PDV�UHDO��QR�SODQR�GD�YLGD��(OH�UHXQLD�WUrV�SHUVRQDJHQV��R�(VWDGR��R�
sindicato e a empresa.
6LPSOLÀFDQGR�� D� SDUWH� GR� (VWDGR� HUD� FULDU� HPSUHJRV� H� GLUHLWRV�� DOpP�
de continuar dando suporte à indústria – com pontes, estradas, barragens e 
PXLWR�PDLV��$�SDUWH�GR�VLQGLFDWR�HUD�DFHLWDU�R�VLVWHPD��OXWDQGR�dentro dele 
SRU�PHOKRUHV� FRQGLo}HV� GH� WUDEDOKR� H� GH� VDOiULR�� $� SDUWH� GD� HPSUHVD� HUD�
aceitar o sindicato, negociando com ele, embora resistindo o quanto quisesse 
ou pudesse. 
(VVH�DFRUGR�VH�OLJDYD�D�RXWUR�PRGR�GH�SURGX]LU��$�IiEULFD�HUD�FDGD�YH]�
maior, mais completa, produzindo tudo ou quase tudo de que precisava, sem 
depender de outra. O trabalho se tornava ainda mais dividido e produtivo. Os 
direitos dos trabalhadores cresciam, principalmente naqueles grandes países.
E como muita gente ainda fazia coisas em casa – desde pães ou linguiças 
até calças ou camisas –, a propaganda começou a mudar os costumes. Ela nos 
ensinou a comprar tudo, ou quase tudo, e a preferir as coisas que compramos, 
desprezando as que antes fazíamos. Para isso, o marketing inventou duas 
92 O Direito do Trabalho já foi chamado assim por grandes juristas, como o nosso 
Cesarino Junior. O Direito Previdenciário pode ser outro exemplo.
 anos de CLT Uma história de trabalhadores 
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HVWUDWpJLDV� LPSRUWDQWHV�� $� SULPHLUD� IRL� FULDU� GHVHMRV� DQWHV�PHVPR� TXH� RV�
SURGXWRV�IRVVHP�FULDGRV��$�VHJXQGD�IRL�QRV�ID]HU�VHPSUH�LQVDWLVIHLWRV�FRP�R�
que temos.93 
Com o tempo, uma coisa foi se ligando a outra, e assim aprendemos a 
valorizar as próprias pessoas pelo que elas têm, especialmente quando elas 
compram o que têm��$VVLP��QR�ÀQDO�GDV�FRQWDV��SRGHPRV�GL]HU�TXH�valemos o que 
compramos��2X��FRPR�GL]�XP�DXWRU��“a fonte de status não é mais a capacidade 
de confeccionar coisas, mas simplesmente a capacidade de comprá-las”.94 
8PD� SHVTXLVD95PRVWUD�� SRU� H[HPSOR�� TXH� VH� XP� KRPHP� FRP� URXSD�
FRPXP�FUX]DU�D�IDL[D�FRP�VLQDO�YHUPHOKR��SRXFRV�LUmR�VHJXL�OR��PDV�VH�YHVWLU�
um terno, terá muitos acompanhantes... 
e� FODUR� TXH� HVVDV� PXGDQoDV� QmR� IRUDP� DSHQDV� jogadas comerciais. 
+DYLD� PXLWD� JHQWH� ²� SROtWLFRV�� UHOLJLRVRV�� ÀOyVRIRV�� VRFLyORJRV�� MXULVWDV� H�
até empresários – preocupados sinceramente com as condições de vida dos 
trabalhadores. Mas o fator econômico foi sempre muito importante.
2�´SDFWR� IRUGLVWDµ� IXQFLRQRX�EHP�SRU�PDLV�GH�YLQWH�DQRV��PDV��QR�ÀP�
GRV�DQRV�����FRPHoRX�D�HQWUDU�HP�FULVH��7DO�FRPR�D�FULVH�GH�������HVWD�RXWUD�
LQÁXLX� QDV� HPSUHVDV�� QDV� OHLV�� QRV� WUDEDOKDGRUHV� H� DWp� HP� VXDV� IDPtOLDV��
Vamos falar sobre isso no capítulo “As pressões sobre a CLT”. 
-i�QR�%UDVLO��D�UHDOLGDGH�DWp�RV�DQRV����IRL�um pouco parecida... e também 
bastante diferente. Não seguimos a mesma receita do bolo. Mas