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AJUFE - Os Magistrados Federais e a Reforma da Previdência

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a realização da cursos de capacitação dos servidores do INSS, seja
no tocante ao aprofundamento de questões gerenciais, como no esclarecimento das posições
adotadas pelo Poder Judiciário no tocante aos benefícios, bem como para possibilitar um melhor
atendimento aos segurados da Previdência Social.
Ampliação das possibilidades de recebimento dos benefícios da Previdência Social, seja
através de criação de unidades volantes da Caixa Econômica Federal, seja através da realização
de convênios com lotéricas ou correios, de modo que o beneficiário não precisa efetuar longos
deslocamentos para receber seus benefícios.
Deve ser efetuado um amplo cadastro do patrimônio imobiliário do INSS, a fim de identificar
a forma de utilização e eventualmente a possibilidade de alienação dos imóveis que não possuem
qualquer possibilidade de utilização por parte da autarquia e, nos casos de locação, para o
ajuizamento das necessárias medidas para a atualização do valor de locação.
Penso que é possível que os Conselhos de Recursos da Previdência sejam objeto de estudos,
com vistas a sua reformulação ou extinção.
Isso porque quando há o indeferimento de algum benefício em primeiro grau, possui o
segurado a possibilidade de recorrer ao Conselho. No entanto, a remessa do processo ao Conselho
pressupõe toda uma preparação, notificação/intimação para resposta, colheita de novos documentos,
pareceres e ao final o julgamento.
Esse julgamento muitas vezes demora muito tempo, muitas vezes mais de ano, quando o
índice de reforma da decisão é muito baixo, menos de 20% dos casos. Mas, de qualquer forma foi
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gasto muito tempo e recursos do INSS (com o envolvimento de uma gama de funcionários) para a
preparação necessária para o julgamento dos recursos, quando, estatisticamente, o índice de reforma
é baixo.
 Por outro lado, não há necessidade de esgotamento da via administrativa para o
ajuizamento da ação judicial, como está sendo reiteradamente decidido pelo Tribunais pátrios e
com a adoção dos Juizados Especiais Federais, o julgamento é célere e poderá ser realizado em
muito menos tempo que o reexame da decisão administrativa de primeiro grau pelo próprio INSS.
Desta forma, em caso de extinção dos CRPS, haverá a possibilidade de um grande número
de funcionários, muito bem treinados, vir a integrar a administração previdenciária no tocante a
concessão de benefícios, qualificando e expandindo suas experiências para um gama enorme de
funcionários.
Por fim, é importante que se tenha em mente que o fundamental, quando se trata de
Previdência Social, que se alterem os paradigmas até hoje vigentes, como se a organização e
gestão previdenciárias dissessem respeito única e exclusivamente ao Poder Executivo.
Acredito que a Previdência Social é muito mais que apenas um seguro, na realidade ela é
fruto e expressão das lutas dos trabalhadores, tendo sido construída paulatinamente ao longo do
desenvolvimento da sociedade. Desta forma é que deve ser entendida, ou seja, como patrimônio
de todos os brasileiros e, portanto, tudo que se refere à Previdência deve ser assim tratado, ou
seja, qualquer debate sobre a reforma da Previdência Social que se trave deve partir da consideração
da necessidade de preservação desse patrimônio, a expansão da seguridade e a maior integração
social possível.
Por isso, deve se caminhar para uma gestão quatripartite da Previdência Social, com a
participação efetiva de todos os atores sociais envolvidos nesse debate, buscando-se que a gestão
seja efetivamente compartilhada entre os contribuintes (trabalhadores e empregadores), os maiores
interessados no presente (os aposentados e pensionistas) e o Poder Executivo. Assim, essa gestão
quatripartite, rompendo o monopólio hoje existente na gestão, que é exclusiva do Poder Executivo,
a ser feita pelos representantes dos empregados, dos empregadores, dos aposentados e
pensionistas e do Poder Executivo é a [única maneira de se buscar valores que são fundamentais
na gestão da coisa pública, que é a transparência, democracia e eficiência. Somente uma gestão
da Previdência Social estabelecida nesses moldes, ou seja, realmente democrática e comprometida
com a existência efetiva de uma seguridade social ampla e não puramente econômica poderá
fazer surgir e se solidificar uma “consciência previdenciária”, no sentido de que a Previdência Social
é de todos e não de ninguém, de modo que a sociedade como um todo possa combater efetivamente
os desperdícios, as fraudes, as exonerações tributárias injustificadas (renúncias fiscais) e propiciar
a segurança de que a seguridade social subsistirá, pois ela é necessária para a existência de
qualquer projeto de nação.
REFORMA DO REGIME PÚBLICO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL
O Regime Público da Previdência Social (RPPS) organiza tanto a previdência dos atuais
servidores públicos como a dos atuais servidores inativos (aposentados) e pensionistas, cujos
benefícios estejam sendo pagos por algum ente estatal. Mas é importante observar que os servidores
públicos atualmente estão divididos em três categorias: os empregados públicos, os servidores
temporários e os servidores de cargo efetivo. Embora todos sejam servidores públicos, apenas os
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servidores de cargo efetivo é que estão atingidos pelo Regime Público da Previdência Social (também
tidos como Regimes Próprios da Previdência Social) e englobam os servidores públicos da União,
dos Estados e dos municípios, cabendo aqui uma advertência: caso os Estados e municípios não
instituírem RPPS’s, todos os seus servidores, mesmo que de cargo efetivo, são enquadrados no
RGPS.
É o debate desse regime o que mais suscita críticas, paixões, incompreensões e
desinformação, pois a discussão é efetuada a partir de dogmas, noções de senso comum e desapego
à história.
Com efeito, a mídia, quase sempre abastecida por noções de senso comum, afirma que os
servidores públicos são privilegiados, pois seus benefícios são bem diversos do RGPS, atingindo
valores mais altos e que são esses os causadores do déficit público que impede o crescimento do
Brasil. Discutir tais afirmações ou rebater tais argumentos é tarefa difícil e muitas vezes inglória,
mas necessária para qualquer proposta séria para que se tenha de um regime de Previdência
Social para os servidores públicos. Para isso, é necessário que se faça uma pequena retrospectiva
histórica e para isso mais uma vez me valho do trabalho de Maria Lúcia Lopes da Silva17 , que
assim escreveu:
 “Desde o Brasil colônia, o cargo público foi tratado como propriedade dos detentores de
mandatos executivos, de forma que o preenchimento dos cargos no Serviço Público ocorria de acordo
com a vontade do soberano ou por acertos políticos entre as oligarquias dominantes. A maioria da
população sempre esteve excluída da participação na gestão pública e dos seus benefícios. A relação
entre o Estado e seus servidores foi marcada pela conveniência pessoal e pela submissão. As
primeiras iniciativas para profissionalizar e significar a função pública, ocorreu no Governo Vargas.
Naquela época, graças a ação organizada do setor, em articulação com os demais trabalhadores,
foi instituído o concurso público e assegurada uma melhor remuneração. Na Constituição de 1934,
foi incluído pela primeira vez um capítulo sobre os servidores públicos, instituindo-se o concurso
público, o plano de carreira, a aposentadoria integral e o direito à organização em associação. Em
1939 surge o primeiro Estatuto dos Funcionários Públicos Civis da União que incorporou o Plano de
Cargos e Carreira da Lei 284/36. A partir de então, passaram a coexistir dois regimes de trabalho:
Extranumerários (contratados) e Estatutários. (...) O segundo Estatuto foi promulgado em 1952,
abrindo a possibilidade de um Plano de Cargos e Carreira, que só foi sancionado no Governo Juscelino,
em 1960. No regime militar foram adotadas medidas no sentido de ajustar a Administração Pública
aos interesses