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Andrea Boeira do Amaral - Privatização ou Estatização no Estado Democrático de Direito - Ano 2007

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no momento em que elas mais pre-
cisam, demonstrando seu caráter severo na fixação do regime disciplinar a que esta-
rão sujeitos os dirigentes das entidades de previdência complementar. Estes passa-
rão a responder civilmente pelos danos ou prejuízos que causarem, por ação ou 
omissão, às entidades de previdência privada, sem prejuízo da responsabilidade pe-
nal, se assim vier a ser constatado pelas autoridades competentes.36 
35 Estabelecidos pela Lei Complementar 109/01, no art. 7º. Os planos de benefícios atende-
rão a padrões mínimos fixados pelo órgão regulador e fiscalizador, com o objetivo de assegurar 
transparência, solvência, liquidez e equilíbrio econômico-financeiro e atuarial. (Grifo nosso).
Parágrafo único: O órgão regulador e fiscalizador normatizará planos de benefícios nas modalida-
des de benefício definido, contribuição definida e contribuição variável, bem como outras formas de 
planos de benefícios que reflitam a evolução técnica e possibilitem flexibilidade ao regime de previ-
dência complementar.
36 Art. 63. Os administradores de entidade, os procuradores com poderes de gestão, os mem-
bros de conselhos estatutários, o interventor e o liquidante responderão civilmente pelos danos ou 
prejuízos que causarem, por ação ou omissão, às entidades de previdência complementar.
36
Dessa forma, a previdência complementar constitui um segmento autônomo 
do regime geral de previdência social e, por isso, em casos de insuficiência financei-
ra, não poderá contar com recursos estatais. Por essa razão, o equilíbrio financeiro é 
elemento fundamental para essas entidades, que só podem contar com o auxílio dos 
patrocinadores e participantes. E o equilíbrio de suas finanças advém da existência 
de reservas monetárias ou de investimentos; do numerário ou das aplicações sufici-
entes para o adimplemento dos compromissos atuais e futuros, previstos nos Estatu-
tos. Também deve estar aliado ao equilíbrio atuarial, que pressupõe o equilíbrio da 
massa, a criação e manutenção de um sistema protetivo de seus contribuintes, que 
seja viável, levando em consideração as variáveis mais relevantes dos participantes 
assistidos, vislumbrando-se todas as condições, tanto atuais quanto futuras.
Nessa linha de raciocínio, percebe-se que a democracia configura-se como 
princípio norteador de toda a seguridade social. E, por isso, ainda hoje, no Brasil, 
mantém-se a figura do poder público como agente principal na coordenação das ati-
vidades de gestão, inclusive no que se refere ao sistema privado de proteção social. 
O que não exclui dos participantes da previdência complementar o dever de acom-
panhar as operações efetuadas pelas entidades de previdência, porque eles são os 
maiores interessados. Sendo assim, somente eles podem ter um controle mais dire-
to e eficaz sobre as entidades privadas.
Em linhas gerais, foi dessa forma que a previdência privada ganhou espaço 
e importância na sociedade brasileira e vem se fortalecendo cada vez mais em ra-
zão da forte influência dos debates políticos, da mídia, das experiências advindas de 
outros países e, muitas vezes, chega até a ser considerada para alguns como alter-
nativa para um regime mais homogêneo no futuro. 
Parágrafo único: São também responsáveis, na forma do caput, os administradores dos patrocina-
dores ou instituidores, os atuários, os auditores independentes, os avaliadores de gestão e outros 
profissionais que prestem serviços técnicos à entidade, diretamente ou por intermédio de pessoa 
jurídica contratada.
37
2 ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO E PREVIDÊNCIA SOCIAL
2.1 A contextualização do Estado Democrático de Direito
Com relação ao tema previdência social, também torna-se necessário desta-
car a presença constante do Estado, como agente ativo e indispensável à constru-
ção de uma sociedade livre, justa e solidária, que priorize a garantia do desenvolvi-
mento nacional e atue com o objetivo de erradicar a pobreza e as desigualdades so-
ciais. Por isso, são indispensáveis algumas considerações, ainda que breves, para 
melhor compreender a atuação do Estado Democrático de Direito na contemporanei-
dade. 
A idéia de democracia surgiu na Grécia, e era considerada como forma de 
governo para Aristóteles, em sua tradicional classificação das formas de governo. 
Consistia no governo do povo pelo povo. Manifestava-se pelo regime político, no 
qual o poder estava nos indivíduos e deveria ser por eles exercido, ou através de 
seus representantes eleitos. Essas idéias eram defendidas pelos publicistas roma-
nos e teólogos. Também corroboravam esse mesmo entendimento os pensadores 
políticos Montesquieu e Rousseau.
Tendo em vista essa breve introdução a respeito da democracia, passar-se-
á a analisar em linhas gerais o século XIX. Foi nessa época que surgiu o marxismo, 
a partir do socialismo científico, e as idéias filosóficas anteriores passaram a integrar 
a superestrutura ideológica da sociedade de classes.
Segundo Althusser, essa tradição marxista concebia o Estado como um apa-
relho repressivo, uma espécie de “máquina” de repressão que permitia às classes 
dominantes (classe burguesa e classe dos grandes latifundiários) assegurarem sua 
dominação sobre a classe operária, para submetê-la ao processo de extorsão da 
mais-valia (exploração capitalista).37
Mas, a partir da metade do século XIX, independentemente da forma de Es-
tado e da forma de governo, já se notava a presença do Estado de Direito que, na 
definição de Bobbio, tratava-se de:
37 ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológi-
cos de Estado . 6. ed. Trad. de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro; introdu-
ção crítica de José Augusto Guilhon Albuquerque. 6. ed. Ro de Janeiro: Graal, 1992. p. 62. 
38
“[...] um Estado em que os poderes públicos são regulados por normas ge-
rais (as leis fundamentais ou constitucionais) e devem ser exercidos no âm-
bito das leis que os regulam, salvo o direito do cidadão recorrer a um juiz in-
dependente para fazer com que seja reconhecido e refutado o abuso ou ex-
cesso de poder.”38 
Assim, pouco a pouco, refletia-se uma espécie de confiança que ia sendo 
depositada nos governantes, como executores das normas constitucionais, basea-
dos na busca de uma igualdade formal, submetidos à proteção da lei e do Estado 
que ainda mantinha seu status quo. 
Ainda naquela época, houve um aumento considerável das demandas soci-
ais por parte das classes trabalhadoras, o que acabou impulsionando o Estado a 
adotar políticas de intervenção. Com isso, surgiu a necessidade de implantar o Esta-
do de Direito Social, com a incumbência de implementar uma abundante legislação 
social, notadamente no que se refere à proteção do trabalhador, à infância, à velhi-
ce, aos enfermos e aos desamparados. Buscou-se dividir os bens sociais, fomentar 
políticas de assistência à pobreza e implantar critérios que fossem mais distributivos.
Tudo isso, foi fruto de diversas reivindicações de igualdade, e foi, então, por 
meio dessas conquistas sociais, que surgiu o Estado Democrático de Direito, unindo 
os ideais de democracia ao poder do Estado, como forma de reconhecimento da dig-
nidade da pessoa humana e dos direitos de cidadania, ocorrendo uma maior aproxi-
mação entre o poder público e a sociedade, com vistas a garantir o pleno acesso às 
condições mínimas de vida ao cidadão. 
Conforme destaca Comparato, até mesmo na Declaração Universal dos Di-
reitos Humanos de 1948 já ocorria: “[...] a afirmação da democracia como único regi-
me político compatível com o pleno respeito aos direitos humanos (arts. XXI39 e 
38 BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. Trad. de Marco Aurélio Nogueira. 3. ed. São 
Paulo: Brasiliense, 1990. p.18.
39 Art.