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Andrea Boeira do Amaral - Privatização ou Estatização no Estado Democrático de Direito - Ano 2007

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(que afasta o trabalhador da atividade la-
boral), caberá à previdência a manutenção do segurado ou de sua família.”56
54 O art. 201 da Constituição Federal de 1988 trata da forma de organização da previdência 
social e dos casos que a mesma atenderá, da seguinte forma:
Art. 1º. A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e 
de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial, e aten-
derá, nos termos da lei, a: 
I – cobertura dos eventos de doença, invalidez, morte e idade avançada;
II – proteção à maternidade, especialmente à gestante;
III – proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário;
IV – salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda; 
V – pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou companheiro e dependentes, 
observado o disposto no § 2º.
55 TAVARES, Marcelo Leonardo. Direito previdenciário. 7. ed. rev. ampl. e atual. Rio de Ja-
neiro: Lumen Juris, 2005. p. 29. 
56 Idem.
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Assim, denota-se que a proteção social, mesmo sendo um dever do Estado, 
também conta com a participação de todos os trabalhadores, os quais devem estar 
empenhados na construção de uma sociedade que aplique os recursos econômicos 
de forma justa, coerente e, acima de tudo, de maneira que se possa preservar e pro-
teger o cidadão com dignidade. Com isso, torna-se necessária a implantação de pro-
jetos para enfrentar a pobreza, medidas de prevenção de riscos e doenças, planos 
previdenciários e assistenciais, bem como é imprescindível prestar assistência aos 
desamparados. Nesse contexto, a presença da justiça também serve como referen-
cial à proteção dos direitos dos cidadãos, com vistas a manter a ordem social.
Nessa linha, é fundamental ter-se em mente a idéia de seguridade social, 
conforme bem menciona Balera: “Do ponto de vista especificamente jurídico, pode-
se dizer que o sistema de seguridade social é instrumento de realização de justiça 
social, protegendo assim os trabalhadores, seus primitivos destinatários, quanto to-
dos os necessitados.”57 Portanto, a seguridade social, por meio da previdência, atua 
como um sistema de seguro social, com a possibilidade de ser complementada tam-
bém por programas assistenciais que servem para amparar as classes assalariadas 
e outros grupos em emergência, decorrentes da cessação do salário ou de necessi-
dades especiais.
A seguridade social é financiada por toda a sociedade, de forma direta e in-
direta, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos estados, do 
Distrito Federal, dos municípios e das contribuições sociais, conforme dispõe o art. 
195 da CF/88. Dessa forma, as contribuições sociais constituem a única fonte de 
custeio da seguridade social, contando com recursos advindos de dotações orça-
mentárias de todos os entes federativos. Como bem-explica Leite, a proteção social 
consiste no conjunto de medidas que, tendo à frente a previdência social, permite à 
sociedade atender a certas necessidades essenciais dos indivíduos que a compõem 
isto é, de cada um de nós.58 
Seguindo o entendimento do mesmo autor, em face da complexidade para 
definir as necessidades de caráter social, pode-se dizer que elas são mais ligadas 
às condições de vida, aos recursos de que cada pessoa precisa para conseguir um 
padrão existencial que a sociedade considere aceitável, no sentido de ter pelo me-
nos um padrão mínimo de vida. Admite-se que esse mínimo varia grandemente de 
57 BALERA, Wagner. Sistema de seguridade social. São Paulo: LTr., 2006. p. 15.
58 LEITE, op. cit., 1978, p. 21.
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país para país, de região para região, de uma classe para outra, por vezes dentro de 
uma mesma classe e até, não raro, de pessoa para pessoa.59
Dado o exposto, no regime geral de previdência social, mesmo que exista a 
possibilidade de os segurados se filiarem à previdência privada, cabe destacar que a 
base de todo o sistema ainda permanece sendo gerida e administrada pelo setor pú-
blico. E, seguindo a análise de Coimbra, não é outra a função do poder estatal, se-
não a de assegurar o bem comum da sociedade a que serve.60
2.3 O princípio da solidariedade
Os princípios jurídicos fundamentais encontram-se esculpidos na Constitui-
ção Federal de 1988 e, por isso, devem ser protegidos e cumpridos em sua amplitu-
de, com o objetivo de fortalecer, cada vez mais, o sistema jurídico. Segundo ensina-
mentos de Ataliba: 
“Os princípios são as linhas-mestras, os grandes nortes, as diretrizes mag-
nas do sistema jurídico. Apontam os rumos a serem seguidos por toda a so-
ciedade e obrigatoriamente perseguidos pelos órgãos do governo (poderes 
constituídos). Eles expressam a substância última do querer popular, seus 
objetivos e desígnios, as linhas-mestras da legislação, da administração e 
da jurisdição. Por estas não podem ser contrariados; têm que ser prestigia-
dos até as últimas conseqüências.”61 
Com relação à seguridade social, temos os princípios constitucionais elenca-
dos nos incisos do art. 194 da vigente Constituição Federal,62 e, ainda, temos os 
59 Ibidem, p. 17.
60 COIMBRA, op. cit., p. 8. 
61 ATALIBA, Geraldo. República e Constituição. 2. ed. atual. por Rosalea Miranda Folgosi. 
São Paulo: Malheiros, 1998. p. 34.
62 Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos 
Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdên-
cia e à assistência social.
Parágrafo único. Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade social, com 
base nos seguintes objetivos: 
I – universalidade da cobertura e do atendimento;
II – uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais;
III – seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços;
IV – irredutibilidade do valor dos benefícios;
V – eqüidade na forma de participação no custeio;
VI – diversidade da base de financiamento;
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princípios doutrinários,63 seguindo a classificação de Horvath Júnior. Neste tópico 
será feita uma análise apenas do princípio da solidariedade, em virtude da amplitude 
dessa temática. 
A solidariedade é tida como uma característica essencial à seguridade soci-
al, no sentido da cooperação e da ajuda mútua, que já se manifestavam desde os 
primórdios da civilização, quando eram praticadas entre tribos e famílias. Para Marti-
nez: “A solidariedade social é projeção de amor individual, exercitado entre parentes 
e estendido ao grupo social. O instinto animal de preservação da espécie, sofistica-
do e desenvolvido no seio da família, encontra na organização social ambas possibi-
lidades de manifestação.”64 
No mesmo sentido, destacam-se as idéias do padre Ávila que, em sua obra, 
buscou definir a palavra solidariedade. Mas não como forma de mero conforto moral. 
Para ele, o conceito ideal seria obtido da seguinte forma:
“Solidariedade exprime a condição concreta de seres na qual a perfeição de 
um é função do aperfeiçoamento dos outros; na qual cada um realiza a per-
feição de seu próprio ser, precisamente na medida em que participa da pro-
moção dos outros; na qual, inversamente, cada um se diminui, se empobre-
ce em teor humano, na exata medida em que, isolado em seu egoísmo, se 
desvincula da obra de promover aos demais.”65 
Ainda hoje, a solidariedade constitui a mais pura e verdadeira expressão de 
ajuda, que já existiu na humanidade. O princípio da solidariedade é originário da as-
sistência social, pois foi praticamente a partir dela que se conduziu ao início de qua-
se todas as técnicas de proteção até hoje existentes, seguida da obrigatoriedade de 
sua consolidação. Todavia, a solidariedade segue os ideais ditados, por meio