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Andrea Boeira do Amaral - Privatização ou Estatização no Estado Democrático de Direito - Ano 2007

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por Bis-
marck acabaram tornando obrigatória a afiliação das sociedades seguradoras ou en-
tidades de socorros mútuos pelos trabalhadores que recebessem até 2.000 marcos 
anuais. A reforma teve o objetivo político de impedir movimentos socialistas fortaleci-
dos com a crise industrial. Visou a obter o apoio popular e evitar tensões sociais.16 
Foi a partir daí, segundo a maioria dos autores, que a previdência social teve seu iní-
cio oficial e expandiu-se rapidamente.
Para Leite e Velloso:
“[...] a previdência social regular, estável e sólida só pôde existir quando o 
desenvolvimento industrial, a concentração nas cidades, a elevação do nível 
econômico, a melhoria do padrão de vida, em suma, permitiram que signifi-
cativas parcelas da sociedade levassem suas preocupações até um pouco 
além da simples luta pelo pão de cada dia.”17 
A partir de 1883, impulsionada pelas idéias de Bismarck, a previdência 
social passou a evoluir cada vez mais; também foi diretamente influenciada 
15 Ibidem, p. 5-6.
16 MARTINS, op. cit., p. 30.
17 LEITE, Celso Barroso; VELLOSO, Luiz Paranhos. Previdência social. Rio de Janeiro: J. 
Zahar, 1963. p. 36.
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pelos acontecimentos da época. Sendo assim, é necessário fazer uma breve 
referência à encíclica de 1891, Rerum Novarum, de Leão XIII e a Quadragésimo 
Anno, de 1931, de Pio XIII, as quais, a partir da autoridade da Igreja, muito 
colaboraram nas conquistas sociais alcançadas ao longo do tempo, ao tratarem 
de assuntos relacionados à defesa das questões sociais e do nascente Direito 
do Trabalho. Mais uma vez, aparece a Igreja preocupada com a defesa dos 
poderes públicos responsáveis pelo bem comum, mesmo que fosse com certo 
caráter filosófico. Na encíclica Rerum Novarum, uma das mais populares e 
importantes, que versa sobre a questão operária e social, já se fazia presente a 
figura protetiva do Estado.18
Feitas essas considerações, pode-se dizer que a fase inicial mais marcante 
da evolução previdenciária é aquela que compreende o período de 1883 até 1918 e 
teve maior ênfase nos países europeus. Seguindo essas influências, as 
Constituições dos países também começaram a dar importância e abordar os 
direitos sociais, trabalhistas, econômicos e previdenciários. 
A primeira Constituição que incluiu as normas previdenciárias em seu texto 
foi a do México, em 1917, por meio de ações embasadas nos ideais de justiça social 
e dentro do seguinte contexto:
“Apasionados debates; cálidas voces de juristas y hombres de bien; 
proposiciones y contraproposiciones buscando fórmulas eficientes para 
obtener un mejoramiento social; redacciones claras y precisas encaminadas 
a asegurar derechos individuales y colectivos, cuando no responsabilidades 
de funcionarios públicos; buena voluntad de todos; espíritu constructivo y 
nacionalista sin olvidar en ningún instante los grandes ideales humanistas 
de México... Y al final de un trabajo ciertamente difícil, el 31 de enero de 
1917, los Constituyentes firman la Carta Magna más avanzada de su 
tiempo, la que posee más garantías sociales, la más revolucionaria y al 
mismo tiempo de más puro contenido democrático. Con el propósito 
de anular las diferencias de grupo; con la finalidad de llevar al ánimo 
de los Constituyentes la idea básica de que por encima de las pugnas 
18 “O concurso do Estado. Contudo, não há dúvida de que, para conseguir o objetivo deseja-
do, não é demais recorrer aos meios humanos. Assim, todos aqueles a quem a questão diz respei-
to, devem visar ao mesmo fim e trabalhar harmoniosamente cada um em sua área. Nisto se revela 
como uma imagem da Providência governando o mundo: porque nós vemos de ordinário que os fa-
tos e os acontecimentos que dependem de causas diferentes são a resultante da sua ação comum. 
Ora, que parte de ação e de remédio temos nós o direito de esperar do Estado? Antes de tudo, de-
vemos dizer que por estado entendemos, aqui, não um governo estabelecido num determinado 
povo em particular, mas todo governo que corresponde aos preceitos da razão natural e aos ensi-
namentos divinos, ensinamentos que nós mesmos expusemos, especialmente na nossa carta encí-
clica sobre a constituição cristã das sociedades (Immortale Dei ).” Texto extraído da obra: Rerum 
Novarum. Carta Encíclica de sua Santidade o Papa Leão XIII sobre a condição dos operários. 14. 
ed. Trad. de Manuel Alves da Silva. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 33. v. 6.
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políticas y sociales, hay un valor superior, que es el de la Patria, los 
representantes del pueblo mexicano, imbuidos del mismo fervor que anima 
al Primer Jefe del Ejército Constitucionalista, don Venustiano Carranza, 
firman y rubrican en una bandera nacional, que en último análisis, es el 
símbolo que a todos ampara, protege y defiende.”19 (Grifo nosso).
Portanto, foi dessa forma que os anseios e as ideologias do povo, no 
passado, se fizeram presentes, agora com um valor superior e devidamente 
regulamentado pela implementação de normas que passaram a direcionar a conduta 
a ser seguida por todos. Também há de se considerar que esses preceitos 
inovadores, para a época, foram os mais avançados do mundo. 
Mais tarde, em 1919, surgiu a inovadora Constituição alemã de Weimar, 
reafirmando os deveres do Estado, ao determinar que cabe a ele o encargo de 
prover a subsistência de seus cidadãos, caso não possa lhes proporcionar a 
oportunidade de ganhar a vida mediante um trabalho produtivo. Como bem-explica 
Russomano, coube à Constituição de Weimar: “[...] o mérito de situar os problemas 
sociais em nível constitucional. Seu exemplo foi seguido por todos os povos e, a 
partir de 1919, nenhum Estado deixou de sentir, na elaboração de seu direito 
interno, forte influência da Constituição de Weimar.”20
Em 1919, também foi criada a Organização Internacional do Trabalho (OIT) 
com vistas a solucionar o problema da necessidade de implantar um programa sobre 
previdência social, o qual foi aprovado em 1921. Mas há de se destacar que ainda 
continuaram sendo elaboradas convenções para instituir programas de seguridade 
social nos países. Toda essa expansão previdenciária e sua repercussão acabaram 
sendo implantadas em nível mundial, da América Latina até a Austrália, Nova 
Zelândia e, até mesmo, em alguns países asiáticos.
Nos Estados Unidos, durante o governo de Franklin Roosevelt, foi instituído 
o New Deal, por meio da doutrina do Welfare State – Estado do bem-estar social –, 
para tentar resolver a crise econômica e social. Também merece destaque a Lei de 
Seguridade Social dos Estados Unidos da América – Social Security Act, de 1935, a 
qual implantou pela primeira vez o termo seguridade, como forma de ajuda aos 
idosos e aos desempregados, estimulando o consumo e criando o auxílio-
desemprego. Mas, mesmo assim, não se pode esquecer que até 1950 muitos 
19 AMEZQUITA, Jose Alvarez et al. História de la salubridad y de la asistencia en México. 
Secretaría de Salubridad y Asistencia: México, 1960. p. 61-62. t. II.
20 RUSSOMANO, op. cit., p. 19. 
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acabaram sendo excluídos dessa proteção. Foi o que ocorreu, por exemplo, com os 
camponeses, os empregados domésticos e os trabalhadores autônomos.
Já em 1942, instaurou-se na Inglaterra o Plano Beveridge, elaborado por 
uma comissão dirigida por Willian Beveridge, Doutor pela Universidade de Oxford e 
Diretor da London School of Economics. Foi encarregado da reconstrução social in-
glesa em face da guerra ocorrida na Europa. O Plano Beveridge foi considerado o 
marco do estudo da evolução histórica da seguridade social no mundo, pois garantia 
proteção ao indivíduo que ficasse em situações