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Andrea Boeira do Amaral - Privatização ou Estatização no Estado Democrático de Direito - Ano 2007

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desfavorecidas como a indigência 
ou até mesmo quando não pudesse trabalhar. Esse plano merece destaque porque, 
ainda hoje, serve como marco de toda a estrutura da seguridade social moderna, 
pela participação universal dos trabalhadores, e da cobrança compulsória de contri-
buições para financiar a seguridade, ao unir os três ramos da seguridade, nas áreas 
da saúde, previdência social e assistência social. Portanto, são advindas dessa fase 
também as origens da previdência social no Brasil, que serão objeto de estudo do 
próximo item. 
Também existiram outros documentos relevantes para a previdência social 
em nível mundial e brasileiro. Cabe aqui destacar alguns, mesmo que de forma su-
cinta: a Constituição da França de 1848 (previu a proteção aos necessitados em seu 
art. 13); a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; a Carta do Atlântico 
(assinada em 14 de agosto de 1941, dispõe sobre o tema seguridade social); a De-
claração de Santiago do Chile (de 16 de dezembro de 1942, que resultou na Primei-
ra Conferência Interamericana de Seguridade Social); a Declaração de Filadélfia (de 
10 de maio 1944); a Carta das Nações Unidas (de 26 de junho de 1945) e a Declara-
ção Universal dos Direitos do Homem de 1948, que, em seu art. 25, elencou no rol 
de seus direitos fundamentais a proteção previdenciária, ao determinar:
“1. Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e 
à sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habita-
ção, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segu-
rança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros 
casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu 
controle.
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. 
Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mes-
ma proteção social.”21
21 DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM. 3. ed. Porto Alegre: Sulinas, 1971. p. 99. 
v. 6.
24
Em linhas gerais, foi assim que surgiu a política de bem-estar social em nível 
mundial, devido à necessidade de intervenção do Estado na busca de melhores con-
dições de vida à classe dos trabalhadores, mediante uma legislação que possa fazer 
a redistribuição da renda para as camadas sociais menos favorecidas, por intermé-
dio da previdência social. De forma resumida, pode-se dizer que o Plano Beveridge, 
por seu modelo de seguridade social e de suas diretrizes básicas, acabou sendo 
adotado pela maior parte dos Estados que priorizam a proteção social do trabalha-
dor, aliada às formas de assistência social que são prestadas aos desamparados. 
1.3 A trajetória histórica da previdência social no Brasil
Assim como em outros países, a previdência social brasileira também sofreu 
diversas mudanças, sendo necessário traçar aqui uma exposição cronológica de 
seus acontecimentos mais relevantes, com o objetivo de demonstrar as formas de 
sua consolidação e também a grande importância que essa instituição assumiu pe-
rante a sociedade. Existe entre os historiadores algumas divergências com relação 
ao marco histórico de origem da previdência social, como poder-se-á constatar nos 
parágrafos seguintes.
A seguridade social no Brasil teve início com a organização privada, mas 
lentamente o Estado acabou se apropriando do sistema, por meio de suas políticas 
intervencionistas. As primeiras entidades que atuaram nas questões relativas à se-
guridade social foram as Santas Casas de Misericórdia como, por exemplo, a Santa 
Casa de Santos, que em 1543 já prestava serviços assistenciais. Ainda como regis-
tro histórico e legal antigo, tem-se o Montepio de Beneficência dos Órfãos e Viúvas 
dos Oficiais da Marinha, de 1795.
Mesmo na Constituição Política do Império do Brasil de 1824, a previdência 
social ainda estava embasada num regime de mutualidade, sendo que a única dis-
posição relativa à seguridade social constava no art. 179, XXXVI, e disciplinava a 
constituição de socorros públicos, como forma de ajuda aos cidadãos brasileiros 
mais necessitados. Nessa linha, o Ato Adicional de 1834, em seu art. 10 deixava a 
cargo das Assembléias Legislativas a competência para legislar sobre as casas de 
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socorros públicos, os conventos e outras associações políticas ou religiosas, que fo-
ram instituídas pela Lei 16, de 12 de agosto de 1834. 
Uma das leis previdenciárias que também pode ser considerada como uma 
das mais antigas foi o Montepio de Economia dos Servidores do Estado (Mongeral), 
criado em 10 de janeiro de 1835. O Mongeral foi a primeira entidade privada mutua-
lista a funcionar no País. Várias pessoas se associavam e repartiam os encargos 
com o grupo na cobertura dos riscos. Assim, conforme Pinheiro, pode-se dizer que 
além das Santas Casas e Sociedades Beneficentes, as diversas formas de montepi-
os caracterizaram as primeiras manifestações de previdência social.22
Portanto, naquela época ainda não havia dispositivos eficazes de proteção 
social a todos os cidadãos, pois o atendimento acabava sendo limitado somente 
àqueles casos de calamidade pública, decorrentes de infortúnios sociais. Tudo isso 
porque o Brasil até 1888 contava com uma economia baseada na agricultura, pelo 
trabalho escravo e, por isso, ainda não se legislava “[...] sobre o seguro social, tal 
como ocorria em outros países, onde os progressos industriais e as conseqüentes 
concentrações operárias já estavam a exigir a intervenção do Estado no sentido de 
implantar medidas de amparo ao trabalhador”.23 Mas, mesmo após a decretação da 
Lei Áurea, que libertou os escravos, e com a Proclamação da República em 1889, 
ainda eram percebidas as influências da época da escravidão, em questões relacio-
nadas aos aspectos econômicos e estatais, pois ainda não havia nenhum tipo de le-
gislação específica a respeito de questões trabalhistas nem mesmo previdenciárias.
Também na Constituição de 1891, não foram abordadas questões trabalhis-
tas nem previdenciárias. Mas, mesmo assim, essa Constituição mereceu destaque 
porque adotou, pela primeira vez, ainda que de forma tímida, em seu art. 75, o termo 
aposentadoria, que só poderia ser concedida aos funcionários públicos nos casos de 
invalidez e a serviço da Nação. Naquela época, o benefício simplesmente era conce-
dido de forma gratuita, pois ainda não havia nenhum tipo de fonte contributiva oficial 
institucionalizada.
Foi somente a partir da Primeira Guerra Mundial que teve início o período 
mais marcante de toda a história previdenciária do Brasil. Em 1919, surgiu a primeira 
lei sobre proteção do trabalhador contra acidentes do trabalho, instituindo o seguro 
22 PINHEIRO, Waldomiro Vanelli. A reforma da previdência. Frederico Westphalen: URI, 
1999. p. 24.
23 SÜSSEKIND, Arnaldo. Previdência social brasileira. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1955. 
p. 59.
26
obrigatório de acidente de trabalho, através da Lei 3.724, de 15 de janeiro de 1919, 
a qual incluiu também uma indenização a ser paga, obrigatoriamente, pelos empre-
gadores aos seus empregados acidentados.
Mas, a doutrina majoritária prefere considerar como marco inicial da previ-
dência social no Brasil a publicação do Decreto-lei 4.682, de 24 de janeiro de 1923, 
mais conhecido como Lei Eloy Chaves, como sendo a primeira norma a instituir no 
Brasil a previdência social, com a criação das Caixas de Aposentadoria e Pensão 
(CAPs) para os empregados de empresas ferroviárias e iniciou com: 
“[...] a Caixa de Aposentadoria e Pensões dos empregados da Great Wes-
tern of Brasil Co. (instalada em 20-3-1923). A iniciativa deveu-se sobretudo 
ao espírito evoluído do industrial Francisco Pais Leme de MONLEVADE, 
que levou o então deputado Eloy Chaves a apresentar