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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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Conselho de Recursos da Previdência Social) e legislar (por intermédio dos
atos administrativos normativos que inovam no ordenamento jurídico, bem como a existência
da medida provisória antes de ser convertida em lei pelo Congresso Nacional).
Ao Poder Legislativo, como função principal típica, incumbe elaborar o direito
positivo e, como funções secundárias atípicas, julgar (como por exemplo, o julgamento das
maiores autoridades da República no caso dos crimes de responsabilidade) e administrar
(contratando pessoal, procedendo licitações, entre outras). 
Ao Poder Judiciário, por derradeiro, incumbe como função principal típica, a
aplicação da lei ao caso concreto solucionando os conflitos de interesses qualificados por
pretensões resistidas e, como funções secundárias atípicas legislar (elaboração dos regimentos
internos dos tribunais) e administrar (contratando pessoal, procedendo a licitações, etc.).
O quadro a seguir facilita a visualização dessa distribuição de funções típicas e
atípicas.
Função Típica ou 
Principal
Funções Atípicas ou
Secundárias
Poder Legislativo Criação do direito positivo –
legislar
Administrar e julgar
Poder Executivo Administração da coisa
pública – administrar
Legislar e julgar
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Poder Judiciário Exercício da jurisdição –
julgar
Administrar e legislar
Concluindo esse tópico, é possível reconhecer que não há propriamente uma
divisão estanque dos Poderes do Estado. A organização dos poderes em nosso
constitucionalismo revela, na verdade, uma distribuição de funções que não são conferidas de
forma exclusiva a cada um dos ditos Poderes.
Poderíamos fazer o seguinte questionamento: a qual dos Poderes é atribuída a
função de prover a proteção social prevista pelo Sistema de Seguridade Social estruturado na
Constituição da República? Pensando na divisão funcional acima exposta, a resposta
certamente seria o Poder Executivo já que a este cabe aplicar a lei ao caso concreto de forma a
atender diretamente as necessidades sociais. Entretanto, quem deve garantir a dignidade da
pessoa humana provendo a devida proteção nas hipóteses constitucionalmente prescritas é a
República Federativa do Brasil, ou seja, o Estado na sua integralidade. 
E como o Poder Político é uno e indivisível e, como visto, cabe ao Estado
assegurar aos indivíduos proteção quando atingidos pelas contingências sociais previstas, não
se revela precisa a limitação do dever de prestar seguridade social apenas aos órgãos do Poder
Executivo, sendo certo que a todos os Poderes é imputada essa missão maior. Logicamente,
dentro da forma de atuação específica peculiar a cada uma das funções. 
Como ao Poder Executivo cabe a satisfação constante e quotidiana das
necessidades coletivas, o que se alcança pela prestação de bens e serviços, natural que a ele se
vincule de forma imediata e concreta a entrega da proteção social a quem dela necessitar.
Nesse sentido são as palavras de Charles Debbasch e Frédéric Colin para quem a
Administração Pública se constitui pela estruturação dos serviços públicos cuja boa marcha
permite a realização dos objetivos definidos pelo poder político.
L´administration publique est l´appareil de gestion des
affaires publiques. Elle est constituée par l´ensemble dês services
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publics dont la bonne marche permet la réalisation des objectifs
définis par le pouvoir politique.93 
No próximo tópico, para encerrar essa segunda parte do trabalho proposto, serão
tecidas algumas considerações acerca da atividade executiva de “julgar” e se esta seria uma
função atípica ou típica, sob a ótica do Sistema de Seguridade Social introduzido pela
Constituição vigente.
2.2 Jurisdição Administrativa. Função Atípica ou Típica do Poder Executivo?
Assume-se, como premissa básica, a existência de uma jurisdição administrativa,
enquanto função do Estado em resolver eventuais conflitos de interesses gerados pela relação
jurídica existente entre a Administração Pública e o administrado (pessoa física ou jurídica).
A essa forma de solução de conflitos costuma-se denominar de contencioso administrativo,
sobretudo na literatura estrangeira94. 
Em nosso ordenamento jurídico, devemos ter certo cuidado ao nos referirmos ao
contencioso administrativo de forma a não confundirmos com a jurisdição dualista adotada
em diversos países europeus. Como bem explicam Claude Leclercq, Jean-Pierre Lukaszewicz
e André Chaminade, ao falarem da organização administrativa da França, especial atenção
deve ser conferida à jurisdição administrativa porque
l´ordre juridictionnel français est en effet constitué par deux
branches très différentes:l’ordre judiciaire, d’une part, l’ordre
admnistratif, d’autre part. (...) La juridiction administrative est un
organe éminent de contrôle de l`Administration.95 
Assim, as modalidades de controle jurisdicional dos atos administrativos
dependem da concepção geral que cada país adota em relação à Administração. Ao contrário
 
93 DEBBASCH, Charles & COLIN, Frédéric. Administration Publique. 6 ed. Paris: Econômica, 2005. p. 1. “A
Administração Pública é o aparelho de gestão dos negócios públicos. Ela é constituída pela estruturação de
serviços públicos cuja boa marcha permite a realização dos objetivos definidos pelo poder político.” (nossa
tradução) 
94 Chama-se a atenção para o fato de que o contencioso administrativo referido em diversas obras doutrinárias
estrangeiras, sobretudo as de origem européia continental, se refere a uma forma peculiar de alguns Estados de
organizarem a sua jurisdição. Via de regra, quando se fala em contencioso administrativo está se referindo à
jurisdição administrativa dentro de sistemas que adotam a dualidade de jurisdição, como é o caso dos
ordenamentos francês, belga, português, entre outros.
95 LECLERCQ, Claude, LUKASZEWICZ, Lean-Pierre & CHAMINADE, André. Travaux Diriges de Droit
Administratif. 5e ed. Paris: Litec, 2002. p. 147. “A ordem jurisdicional francesa é efetivamente constituída por dois
ramos bem diferentes: a ordem judiciária, de uma parte, e a ordem administrativa, de outra parte. (...) A jurisdição
administrativa é um órgão eminentemente de controle da administração.” (nossa tradução) 
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da França em que há duas ordens de jurisdição diversas, uma destinada para solucionar os
litígios administrativos96, em alguns países a Administração Pública não dispõe de
prerrogativas exorbitantes além do direito comum aplicado a seus administrados, não se
fazendo sentir a necessidade de um direito especial para regular as relações administrativas.
Os exemplos que podem ser citados são os casos dos Estados Unidos e da Inglaterra onde a
competência dos tribunais judiciais incide sobre o contencioso administrativo. 
Para o Direito Brasileiro, o contencioso administrativo refere-se ao processo
administrativo litigioso de que se vale a Administração Pública para solucionar as lides
administrativas. O exercício dessa atividade se dá na estrutura da própria Administração
Pública a quem incumbe dar a decisão final no âmbito administrativo. Deste modo, utiliza-se
a expressão “contencioso administrativo” de maneira imprópria. 
Como o Brasil adotou o sistema da unidade de jurisdição, toda e qualquer lesão ou
ameaça de lesão a direito do administrado pode ser levada ao conhecimento do Poder
Judiciário. Até mesmo as decisões definitivas prolatadas pela Administração Pública no
exercício da função administrativa em um processo contencioso não foge a essa regra
podendo ser submetidas ao controle jurisdicional. 
Portanto, a coisa julgada administrativa97 não afasta o controle jurisdicional do ato
administrativo (decisão de mérito em um processo administrativo). Tal controle se qualifica
como externo, pois é exercido por um Poder sobre o outro. Por essa razão,