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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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159 JACOBY FERNANDES, Jorge Ulisses. Tomada de Constas Especial. Processo e Procedimento nos Tribunais
de Contas e na Administração Pública. 3 ed., rev., atual. e ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2005. p. 33.
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como facilita a ocorrência de atuações administrativas arbitrárias e subjetivas, diz Odete
Medauar160.
No mesmo sentido são as palavras de José dos Santos Carvalho Filho:
Evidentemente, essa ausência de unicidade acabou permitindo
que cada órgão, ou pessoa administrativa, adotasse seus próprios
procedimentos, via de regra dotados de trâmites diversificados em
relação a órgãos e pessoas similares. Tal pluralismo normativo tem
sido, sem dúvida, nocivo tanto para os integrantes da esfera federal
quanto para os administrados em geral. Para aqueles, porque, sem
diploma regulador uno, sempre se defrontaram com a existência de
regras especiais para processos que, embora com fins idênticos,
adotavam, em órgãos diversos, procedimentos diferentes, sem contar,
é claro, com aqueles procedimentos originados de forma totalmente
assistemática ao sabor das terminações de autoridade com funções
diretivas.161
Em relação ao administrado, a crítica do professor carioca ainda é mais veemente,
senão vejamos:
Para os administrados, a inconveniência não foi menor.
Sempre envolvidos por inúmeros órgãos públicos e pessoas
administrativas, os administrados sempre tiveram que resignar-se com
as informações que lhes eram transmitidas pelos servidores
administrativos. Evidentemente, enfrentaram, em muitas ocasiões,
condutas ilegais e arbitrárias e, não só por não conhecerem as regras
que vigoravam para os processos, mas também porque, em alguns
casos, sequer existiam essas regras, todo o poder de decisão sempre se
concentrou no Poder Público, sem que os administrados pudessem
armar-se de qualquer instrumento para coibir ilegalidades e exigir
procedimentos isentos, imparciais e lógicos, visando a prestar
melhores informações àqueles que precisassem recorrer aos serviços
administrativos.162
Desta feita, salutar a promulgação da Lei nº 9.784/99163, que pode ser considerada
como uma forma de codificação do processo administrativo. Codificação porque operou a
reunião, em um só texto de lei, de modo ordenado, preceitos referentes ao processo
administrativo, com nítido sentido de norma de caráter geral. Afirmamos que a Lei nº
 
160 MEDAUAR, op. cit., p. 202.
161 CARVALHO FILHO, Processo Administrativo Federal, p. 34.
162 Ibid., pp. 34-35.
163 Sérgio Ferraz e Adilson Abreu Dallari fazem, em coro, crítica contundente à demora em se editar a Lei
9.784/99, in verbis: “é quase um escândalo (com vênias pela utilização da palavra, de sabor bem pouco jurídico)
que date de 1999 a primeira lei federal geral de processo administrativo. Inteiramente inaceitável, doutrinária ou
legalmente, esse triste panorama.” (FERRAZ, Sérgio & DALLARI, Adilson Abreu. Processo Administrativo. 1 ed.
2 tir. São Paulo: Malheiros, 2002. p. 21)
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9.784/99 é lei geral do processo administrativo. Conduto, ainda de alcance restrito pois
limitada ao âmbito federal.
Trata-se de uma lei federal especial164, já que seu destinatário próximo é a
Administração Pública Federal direta e indireta. Em outras palavras, propõe-se a regular o
processo administrativo no âmbito da União.
O governo federal, em boa hora, fez editar a Lei nº 9.784, de
29/1/1999, estabelecendo as regras para o processo administrativo e
instituindo um sistema normativo que tem por fim obter uniformidade
nos diversos expedientes que tramitam nos órgãos administrativos. A
lei, todavia, tem caráter tipicamente federal, ou seja, destina-se a
incidir apenas sobre a Administração federal. Dentro desta, a
disciplina é aplicável no âmbito da Administração direta e indireta e
também aos órgãos administrativos dos Poderes Legislativos e
Judiciário da União. Embora destinada somente ao governo federal, já
é um início de uniformidade normativa, o que muito facilita os
administrados. Estados e Municípios deveriam trilhar o mesmo
caminho, instituindo, pelas respectivas leis, sistema uniforme de
processo administrativo em suas repartições.165 (grifo no original)
A Lei nº 9.784/99 estabelece normas gerais sobre o processo administrativo no
âmbito da Administração Federal direta e indireta, visando, em especial, à proteção dos
direitos dos administrados e ao melhor cumprimento dos fins da Administração.
É de se observar que esse diploma legal procurou dar autonomia ao processo
administrativo, criando uma verdadeira norma geral abrangendo os mais diversos tópicos da
processualidade administrativa como, por exemplo, direitos e deveres dos administrados,
competência, impedimentos e suspeição, forma, tempo e lugar dos atos do processo,
comunicação dos atos, instrução, dever de decidir, motivação, recursos, prazos, entre outros
aspectos.
Ademais, os preceitos desta lei também se aplicam aos órgãos dos Poderes
Legislativos e Judiciário da União, quando no desempenho de função administrativa (art. 1º, §
1º). 
 
164 Embora editada pelo Congresso nacional, a lei nº 9.784/99 tem caráter federal e não nacional, ou seja, é
aplicável apenas na tramitação de processos no âmbito da Administração Pública Federal.
165 CARVALHO FILHO, Manual de Direito Administrativo, p. 734.
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Conforme disposto em seu art. 1º, esse diploma legal estabelece normas básicas,
que devem ser seguidas pela Administração Federal. Na verdade, a Lei nº 9.784/99 revela em
suas disposições, um procedimento comum, já que houve ressalva em relação aos processos
específicos166.
Nesse sentido, verifica-se que seu art. 69 dispõe expressamente que os processos
administrativos específicos continuarão a reger-se por lei própria, aplicando-lhes apenas
subsidiariamente os preceitos da Lei nº 9.784/99.
De tal modo, os processos administrativos nominados conservarão as suas
estruturas procedimentais, servindo-se da Lei nº 9.784/99 de forma subsidiária.
Vale transcrever mais uma vez os ensinamentos de José dos Santos Carvalho
Filho pela precisão que lhe é peculiar, in verbis:
(...) as normas da Lei nº 9.784/99 têm caráter genérico e
subsidiário, ou seja, aplicam-se apenas nos casos em que não haja lei
específica regulando o respectivo processo administrativo ou, quando
haja, é aplicável para complementar as regras especiais. A lei
específica, por conseguinte, continuará sendo lex specialis e
prevalecerá sobre a lei geral.167 (grifos no original)
Verifica-se compatibilidade entre o disposto em seu art. 69 e a norma de
interpretação contida no art. 2º, § 2º, da Lei de Introdução ao Código Civil, segundo a qual lei
nova que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já existentes, não revoga nem
modifica a lei anterior. 
Desta feita, em princípio, haverá coexistência da lei nova geral com os diversos
diplomas legais reguladores de processos administrativos específicos. Entretanto, deve-se
entender que, havendo incompatibilidade entre o disposto em leis procedimentais específicas
em flagrante ofensa aos princípios que regulam o processo administrativo federal (art. 2º da
Lei nº 9.784/99), é possível o reconhecimento da revogação da lei especial pela geral. Esse
 
166 Grosso modo, processo específico é aquele que tem seu procedimento previsto em legislação especial
própria a qual, por via de conseqüência, configura-se como procedimento básico. Como exemplos de processos
específicos podem ser citados o processo disciplinar previsto na Lei nº 8.112/90 e o processo administrativo
fiscal regulado pelo Decreto nº 70.235/72. Com relação a esse último diploma legal (Decreto nº 70.235/72)
oportuno destacar que o mesmo foi recepcionado pela CRFB/88 com status de lei ordinária, tanto que as
alterações introduzidas