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Augusto Grieco - Formação Jurisprudencia Administrativa do Direito Previdenciário - Os Enunciados do Conselho de Recursos da Previdência Social - Ano 2007

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País. 
Para mensurar o grau de desenvolvimento de um país, os arautos da mudança
recorrem à utilização de critérios quantitativos sobretudo relacionados a percentuais de
crescimento da economia. Como munição argumentativa, procedem a comparações com
outros Estados denominados emergentes2 revelando uma diferença significativa entre o
percentual de crescimento do Brasil e desses países. O passo seguinte desse discurso é atribuir
aos direitos sociais a responsabilidade pelos reduzidos índices de desenvolvimento da
economia brasileira. A solução apontada é a redução dos direitos trabalhistas, flexibilização
das relações de trabalho, precarização do trabalho humano, reformas da previdência, em
resumo, a diminuição da proteção social conferida por parte do Estado. É a época da
reengenharia da forma de organização do trabalho aliada ao Estado de dimensões mínimas
(conhecido como Estado Mínimo). Especificamente no setor público, esse movimento
impulsionou reformas do Estado em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil durante o
Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso que procurou instalar uma Administração
Pública Gerencial3.
Contudo, há outras vozes importantes que ressaltam que a aferição do grau de
desenvolvimento de um Estado não deve se limitar a uma análise estritamente quantitativa.
Defendem que o desenvolvimento deve ser analisado também sob o seu aspecto qualitativo.
Destarte, desenvolvimento econômico, sob a ótica exclusivista do crescimento econômico,
sem desenvolvimento social, revela-se como uma quimera restrita a poucos em detrimento do
bem-estar da maioria. Seria um afronta direta ao texto da Constituição da República violando
normas de elevada carga axiológica tais como as inseridas nos artigos 1º e 3º, que prescrevem
os fundamentos e objetivos de nosso Estado Democrático.
 
informações. (A época das perplexidades: mundialização, globalização e planetarização, Petrópolis: Editora
Vozes, 1997, p. 133).
2 Em especial, a China, a Índia e o México.
3 Esse processo teve como figura de ponta Luiz Carlos Bresser Pereira que foi Ministro da Administração Pública
e Reforma do Estado. Destaca que a administração pública gerencial é orientada para o cidadão e para a
obtenção de resultados; pressupõe que os políticos e os funcionários públicos são merecedores de grau limitado
de confiança; como estratégia, serve-se da descentralização e do incentivo à criatividade e à inovação; e utiliza o
contrato de gestão como instrumento de controle dos gestores públicos. (PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Gestão
do Setor Público: estratégia e estrutura para um novo Estado. In: PERERIA, Luiz Carlos Bresser & SPINK, Peter
(Org.) Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001. pp. 21-
38. p. 28)
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Feitas essas considerações, mormente para assentar o ambiente atual de inserção
do Brasil, inicia-se o estudo da jurisdição administrativa e de sua formação jurisprudencial
pelo enquadramento da questão social dentro do Estado Democrático de Direito. As críticas
vertidas pelos defensores do “neoliberalismo” e as opções apresentadas para uma
reformulação de nosso Estado Social devem ser confrontadas com o modelo de Welfare State4
inaugurado pela Constituição da República de 1988, a Carta Cidadã gerada pelo processo de
redemocratização brasileira.
Essa confrontação com as opções feitas pela Assembléia Nacional Constituinte
que elaborou a Constituição vigente impõe-se pela necessária compatibilidade vertical das
normas produzidas dentro do devido processo legislativo com o texto constitucional. Ou seja,
toda e qualquer norma derivada deve encontrar seu fundamento de validade na Constituição
da República sob pena de padecer do vício de inconstitucionalidade. A questão de se analisar
as propostas de reformulação do Estado Social, propugnada por alguns setores da sociedade,
com o Texto Maior encontra suporte na teoria da “vedação ao retrocesso social” tão bem
explorada por J. J. Gomes Canotilho5.
Logicamente não se está falando em um engessamento do Estado que o impeça de
se adequar às conjunturas, tanto externa como interna, que lhe impõem adequações
necessárias de modo a permitir a continuidade do pleno atendimento dos interesses públicos
prescritos na Constituição da República. Desta forma, temos outro princípio importante que
deve ser considerado, qual seja, o da “reserva do possível”, explorado com maestria por Ana
Paula de Barcellos6.
Esse embate entre os dois princípios apontados, vedação ao retrocesso e reserva
do possível, nos leva a afirmar que as mudanças adaptadoras que devem ser introduzidas em
nosso Estado Social não podem desvirtuar a vertente traçada pelo Constituinte Originária.
Melhor dizendo, não podem desfigurar o Estado Social e Democrático de Direito construído e
lastreado no Sistema de Seguridade Social.
 
4 Estado do Bem-estar Social.
5 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Almedina, 2003. pp 338-
340. 
6 BARCELLOS, Ana Paula de. A Eficácia Jurídica dos Princípios Constitucionais. Rio de Janeiro: Renovar, 2002.
pp. 236-246
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A “proibição ao retrocesso social” nada pode fazer contra as
recessões e crises económicas (reversibilidade fáctica), mas o
princípio em análise limita a reversibilidade dos direitos adquiridos
(ex: segurança social, subsídio de desemprego, prestações de saúde),
em clara violação do princípio da proteção da confiança e da
segurança dos cidadãos no âmbito económico, social e cultural, e do
núcleo essencial da existência mínima inerente ao respeito pela
dignidade da pessoa humana.7 (destaques no original)
Em épocas de mudanças, como as que vivenciamos atualmente, uma análise
histórica, mesmo que singela, torna-se essencial para se entender as reais dimensões dos
processos de transformação de forma a visualizarmos, para o futuro, as conseqüências das
opções feitas no presente.
Pois bem, a opção metodológica de sistematizar a questão social dentro da
evolução dos modelos de organização estatal se justifica diante da real vinculação entre os
sistemas de proteção social e as concepções adotadas pelo Estado. 
Falar em Estado, com o sentido que se pretende seja apreendido no texto, é
identificá-lo com um ente de características bem definidas a partir de um determinado
momento histórico. O Estado, com os contornos que apresenta na atualidade, tem formação
recente na História se comparado aos primeiros agrupamentos sociais (como por exemplo, as
cidades-estado da Grécia Antiga, ou até mesmo os impérios regionais, como é o caso do
Império Romano). O marco histórico da formação do que se convencionou denominar Estado
Moderno é a Paz de Vestefália, que pôs fim à Guerra dos Trinta Anos, em 1648, e segundo a
doutrina internacionalista, a partir da qual se impôs a personalidade do Estado soberano8.
Com o conceito de soberania, construído inicialmente por Jean Bodin em sua obra
Les six livres de la République (Os Seis Livros da República – 1576), esfacela-se a estrutura
feudal de poder difuso, concentrando na mão do soberano e, por via de conseqüência, do
Estado Nacional, o poder de ditar a vida da sociedade. Estabelece-se vínculo direto entre o
indivíduo e o Estado, reforçando a noção de nacionalidade, de pertinência a determinada
comunidade organizada.
 
7 CANOTILHO, op. cit., p. 339.
8 MELLO, Celso D. de Albuquerque. Curso de Direito Internacional Público. 1º vol. Rio de Janeiro: Renovar,
1997. p. 337.
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Enquanto a guerra exerceu grande pressão para a construção do Estado Nação,
permitindo