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Christiano Ferreira - Mudança de Regime Previdenciário de Repartição para Regime Misto - Uma Perspectiva para o Brasil - Ano 2012

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serão calculados de 
acordo com o novo sistema, devido às regras de transição. Nos próximos 50 anos, o sistema 
de pensões por capitalização vai se tornar mais importante do que sua taxa de contribuição 
sugere, dado o pressuposto de uma taxa de mercado de retorno real de 3%. Com esta hipótese, 
por 2050 cerca de 13% da receita pública em relação as prestações previdenciária será 
financiado pelo sistema de capitalização. (European Commission, 2007). 
Conforme Ferreira (2007), alguns países simplesmente optam pela junção de um sistema 
básico de proteção mínima e pela complementação através de um sistema de capitalização 
(contribuição definida). Para Ferreira (2007, p.142) “Variantes desse modelo podem não ter o 
pilar básico financiado por contribuição, mas sim por impostos gerais, com ausência de foco 
no idoso (mas sim, nos pobres).” A Austrália optou por um sistema de contribuição definida 
privado, em contra partida países como Cingapura definem sua gestão como pública. 
 
A eficiência do sistema privado australiano é comprometida pela presença de um 
programa de renda mínima excessivamente abrangente, e por falhas no desenho 
regulatório da indústria de fundos. O caso do Reino Unido é o mais interessante, por 
reunir aspectos de reforma paramétrica de seu sistema de repartição inicialmente 
desequilibrado, ao mesmo tempo em que combina elementos importantes de 
privatização. Para reduzir as resistências políticas dos grupos mais afetados, os 
reformadores diluíram ao longo do tempo o custo de transição para um sistema 
equilibrado. O planejamento das etapas foi essencial no modelo inglês. O anúncio de 
mudanças futuras, feito com suficiente antecedência (cerca de dez anos), foi um 
elemento-chave para a redução de oposição às mudanças. (FERREIRA, 2007, 
p.142). 
 
Na Alemanha a aposentadoria é paga a partir da idade de 65 anos (sem distinção entre 
homens e mulher), e a partir de 63 anos com 35 anos de contribuição. Existe adicionalmente a 
85 
 
 
figura da aposentadoria parcial para indivíduos com renda abaixo de um limite pré-fixado, 
instituída em 1992, e que paga benefício pleno para trabalhadores com mais de 60 anos. O 
efeito sobre a precocidade da saída da força de trabalho é imediato. O benefício por viuvez é 
extremamente tolerante. A esposa (o) do segurado que falecer quando recebendo 
aposentadoria terá direito à pensão sem qualquer condicionalidade extra. Além disso, caso o 
segurado morra antes de ser elegível para o benefício, a esposa (ou esposo) terá direito ao 
benefício desde que o falecido tenha contribuído por pelo menos cinco anos. (FERREIRA, 
2007). 
O sistema de previdência dos Estados Unidos pode ser definido como de repartição, 
sendo: 
 
[...] um clássico pay-as-you-go, pagando benefícios definidos com função do salário 
de contribuição e do número de contribuições, com um pilar redistributivo, sem 
vínculo com contribuição (Old Age Assistance), que em média representa apenas 
20% do salário médio da economia, e que é focado no idoso pobre. A riqueza 
previdenciária é apenas 7,3 vezes o salário médio da economia, sendo, portanto, uma 
das menores da OCDE, e o mesmo pode ser dito da taxa de reposição de apenas 51% 
do salário médio. Em função do porte relativamente menor do programa 
previdenciário americano, os problemas fiscais resultantes do impacto demográfico 
do baby boom são bem menores do que os de Japão, França e Alemanha. O sistema 
paga somente 4,4% do PIB de benefícios estritamente previdenciários (comparado 
com o dobro no Japão, e o triplo na Alemanha e na França). (FERREIRA, 2007, 
p.162). 
 
Apontam-se algumas características que fazem do sistema norte americano de 
benefício definido, uma melhor opção em função dos regimes de Japão e Alemanha. O regime 
é parcialmente capitalizado, para Ferreira (2007, p.163) “tendo sido acumulado um fundo 
lastreado por títulos públicos (trust fund) cujo rendimento financia parcialmente os benefícios 
atuais.” Os Estados Unidos apresentam ainda, segundo Ferreira (2007, p.163) “uma forte rede 
de incentivos fiscais à poupança previdenciária”. O autor argumenta que a experiência 
americana poderá servir de exemplo para as reformas a serem implementadas futuramente no 
Brasil. 
 
Nos Estados Unidos, por exemplo, parte relevante da riqueza dos trabalhadores mais 
velhos nos Estados Unidos é garantida por um fluxo de pensões esperado do sistema 
de seguridade social. Este fluxo representava mais de 60% do rendimento de tais 
trabalhadores em 1992 (Mckee 2006). Já no Brasil, os dados da Pesquisa Nacional 
por Amostra de Domicílios – PNAD de 2005 indicam que os rendimentos da 
aposentaria, pensão e outras fontes correspondem a 70% da renda dos idosos entre 
60 e 64 anos de idade que residem no meio urbano. Com efeito, a forte dependência 
de rendas não oriundas do trabalho aliada à ausência de impedimentos legais às 
atividades laborais dos aposentados, assim como, às crescentes demandas sociais e 
custo de vida podem acirrar a competição entre idosos e jovens no mercado de 
trabalho. (QUEIROZ e RAMALHO, 2009, p.2). 
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Hoffmann (2008) afirma que “o Brasil tem uma população jovem, que uma pequena 
parcela da população é considerada idosa e que, em termos proporcionais, os países ricos têm 
entre duas e três vezes mais idosos que o Brasil.” Em consideração, “é o Brasil que gasta 
mais, 10,7% do seu PIB comparado com uma média de 8,5% de gastos nos países – em geral 
ricos – que compões a OCDE.” Existe péssima distribuição referente aos benefícios 
previdenciários, “Segundo o Banco Mundial, os 20% de brasileiros mais ricos embolsam 61% 
do dinheiro público pago em aposentadorias e pensões. Nos EUA, os 20% mais ricos recebem 
26%. Enquanto isso os 40% mais pobres no Brasil recebem 9%; nos EUA 29%.” 
(HOFFMANN, 2008, p.172) 
 
A sobrevivência de sistemas de repartição dependerá de algumas medidas 
fundamentais. Sem exceção, todos os países analisados aqui tomaram medidas nos 
últimos anos que reduzem o desequilíbrio atuarial da previdência. A opção 
predominante é pelo corte do valor presente das despesas previdenciárias através da 
combinação de: a) aumento da idade de elegibilidade para aposentadoria (como em 
Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha); b) indexação dos benefícios previdenciários 
pela inflação, e não pela massa salarial (como feito por França e Inglaterra); c) 
eliminação da diferença na idade mínima entre homens e mulheres, como em todos 
os países da OCDE, com a exceção de Polônia e Suíça; e d) utilização da inteira vida 
útil do trabalhador como base de cálculo do benefício, e não dos últimos anos da 
vida laboral, como em quase todos os países da OCDE. (FERREIRA, 2007, p. 180). 
 
Para Müller (2003), a dificuldade de encenar reformas previdenciárias estruturais em 
países com sistemas maduros de pensão decorre do poder de grupos de interesse, com 
participações no sistema atual. O autor ressalta, no entanto, que muitos países da América 
Latina e Europa Oriental conseguiram reformar seus sistemas de pensões radicalmente. Esta 
investigação mostra dados para quatro casos em particular (Argentina, Bolívia, Hungria e 
Polónia). Para identificar as variáveis que foram importante no desencadeamento das 
reformas. A partir da literatura da economia política, Müller (2003), identifica cinco 
características prováveis: liderança política, o papel das instituições financeiras internacionais, 
a crise do sistema de pensões, inteligentes projetos de reforma, e o poder dos defensores da 
reforma. Ressalta-se a importância de acelerar a agenda europeia de reformas. Ao avaliar-se a 
reforma chilena na América Latina, visualiza-se relações de política interna como processo 
decisivo