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Arthur Bragança de Vasconcellos Weintraub - Previdência Privada - Ano 2005

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a miséria dos idosos.
A Constituição de 1988, art. I o, III, dispõe que a dignidade da 
pessoa humana é um dos fundamentos de nosso Estado Democráti­
co de Direito. Se o Estado não estiver propiciando uma vida digna 
aos idosos brasileiros, o “contrato social” estará inadimplido. Destar­
te, deve o Estado promover a justiça social, com a sustação dos privi­
légios e distorções atualmente existentes no sistema previdenciário 
brasileiro.
Contudo, sobre reforma previdenciária e questão contributiva, 
Sergio Pinto M artins29 faz as seguintes ponderações: “Não há dúvi­
das de que se não fosse feita uma reforma da Previdência Social che­
garíamos ao ponto de que dois ativos estriam sustentando um inativo, 
o que evidentemente iria inviabilizar o sistema em pouco tempo”.
O referido autor30 ainda expõe de forma clara a situação da Pre­
vidência Social: “H á vários fatores a destacar que implicam a neces­
sidade de reforma. A expectativa de vida média do brasileiro cresceu 
até por volta de 65 anos, quando por volta de 1960 era de 45/50 anos. 
Aumentou o número de aposentados, que ficam percebendo benefí­
cios por muito mais tempo, em razão de que a medicina permite que 
o homem viva por mais anos. As mulheres não têm mais vários fi­
lhos, que num primeiro momento iam trabalhar e contribuíam para
o sistema. O desemprego importa que o trabalhador nada recolha 
para o sistema; porém, dele usufrui sob a forma de seguro-desempre- 
go e sistema de saúde, implicando gastos para o regime”.
Revista de Previdência Social. São Paulo: Ltr, 1999, p. 1224/1229.
10 Revista de Previdência Social. São Paulo: Ltr, 1999, p. 1224/1229.
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I Jiante da inviabilidade do regime de repartição simples, histo­
ricamente adotado pelos países em geral, a única alternativa presente 
atualmente é o regime de capitalização da Previdência Privada (cada 
um contribui para sua própria aposentadoria, e não para a geração 
anterior). A capitalização na Previdência Privada não é ideal, mas é a 
alternativa viável frente ao regime de repartição simples, podendo os 
dois regimes coexistirem num regime híbrido.
5 . S e g u r id a d e s o c ia l e d ir e it o s f u n d a m e n t a is
A análise da Seguridade Social dentro da questão de direitos 
fundamentais é importante para também enquadrar a Previdência 
Privada no contexto de direitos fundamentais, haja vista que a Previ­
dência Privada está inserida no sistema de Seguridade Social.
O ser humano se depara com o dilema de envelhecer, se não 
com uma melhor qualidade de vida, mantendo seu padrão de sobre­
vivência. Principalmente após a Segunda Guerra M undial, houve 
fenômenos médicos e nutricionais que acarretaram alterações demo­
gráficas globais: as pessoas estão vivendo mais e tendo menos filhos.
Para Norberto Bobbio, a busca de uma melhor qualidade de 
vida é uma das tendências mais marcantes do mundo atual31.
Norberto Bobbio assevera que vivenciamos a chamada “era dos 
direitos”32, ressaltando a relevância dos direitos fundamentais. O ca­
ráter fundamental da Seguridade Social se revela na proteção da dig­
nidade da pessoa humana, na proteção social, enfim.
Em verdade, a Seguridade Social resvala as quatro gerações de 
direitos fundamentais, pendente mais para os de segunda geração, 
como explanado a seguir:
31 BOBBIO. Norberto. A era dos direitos. 8a Ediçao., Rio de Janeiro: Editora Campus, 
1992. Pág. 67.
32 BOBBIO. Norberto. A era dos direitos. 8a Edição., Rio de Janeiro: Editora Campus, 
1992. Pág. 67.
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1) Direitos Fundamentais de Primeira ( leraçao: são aqueles re­
lacionados à vida, à liberdade e à propriedade. Surgem no século 
XV111, com as Declarações de Direitos (Declaração de Virgínia de 
1776 e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789). 
Tais direitos afloram como resposta aos excessos do Poder Estatal, 
sendo liberdades públicas, ou direitos humanos individuais, consti­
tuindo verdadeira prerrogativa dos indivíduos em face do Estado. A 
vida, a liberdade e a propriedade são a quintessência dos elementos 
basilares do Estado Democrático de Direito. A Seguridade Social 
está pautada no trinômio vida-liberdade-propriedade.
2) Direitos Fundamentais de Segunda Geração: abarcam os cha­
mados direitos econômico-sociais, enquadrando-se especificamente 
a Seguridade Social. Surgiram diante do impacto da Revolução In ­
dustrial e dos problemas sociais oriundos desta época. Somente a 
consagração de liberdade e igualdade perante o Estado não gerava 
efetivamente sua fruição. Por isto, principalmente após a I a Guerra 
Mundial, as Cartas Constitucionais passaram a conferir tais direitos. 
Não bastava mais a mera garantia da vida, da liberdade e da proprie­
dade, sendo necessária uma postura mais abrangente do Estado na 
assunção de riscos sociais em nome dos indivíduos. Observou-se uma 
liberdade por intermédio do próprio Estado, manifestando-se no sen­
tido protetivo do homem enquanto ser que vive em coletividade, vi­
sando dar guarida aos chamados direitos humanos sociais.
3) Direitos Fundamentais de Terceira Geração: definidos como 
os direitos de titularidade de toda a população, de forma coletiva, 
interessando a todos, e de forma particular, a cada um, a exemplo do 
desenvolvimento econômico, qualidade de vida e meio ambiente. O b­
jetiva-se a defesa dos direitos da coletividade, de forma difusa. A 
proteção abarcada pela Seguridade Social envolve certamente a qua­
lidade de vida de maneira difusa.
4) Na evolução dos direitos fundamentais, existe a tendência ao 
reconhecimento dos chamados Direitos Fundamentais de Quarta Ge­
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ração, resultado da globalização dos direitos fundamentais, no senti­
do tle uma universalização no plano institucional, que correspondem 
à última fase de institucionalização do Estado Social, sendo com­
posta pelos direitos à democracia e à informação (que devem tan- 
genciar a Seguridade Social). Sem democracia e informação, o acesso 
das pessoas à malha de proteção social, que permeia a Seguridade 
Social, fica obnubilado. Sem democracia, a Seguridade Social se trans­
forma em benevolência do tirano ou da oligarquia. Sem informação, 
a população desconhece seus direitos fundamentais.
A segurança social surge de um aprimoramento da própria civi­
lização, uma evolução da postura estatal sobre a população. Não mais 
fica o indivíduo lançado à sua sorte, firmando o contrato social.
O contrato social ilustra bem o dever estatal em garantir a segu­
rança social. Jean Jacques Rousseau não inventou a idéia de contrato 
social (Montesquieu, Hobbes e Locke mencionam em suas obras 
elementos do contrato social), mas foi soberbo ao sublinhar a abdi­
cação da liberdade natural pela liberdade civil/civilizada.
A abdicação da liberdade natural transmite ao Estado poderes 
que devem representar vantagens na liberdade civil. A segurança so­
cial é uma delas.
Em sua obra, Rousseau33 faz a analogia de viver sob a égide do 
Estado e viver sob o teto da casa do pai. Para o pensador suíço, a 
família seria o primeiro modelo de sociedade política, sendo o equi­
valente ao governante familiar o pai, e os filhos figurando como povo. 
As vantagens e confortos de viver sob o teto familiar trazem as limi­
tações das liberdades dos filhos, que devem se submeter às condições 
impostas pelo progenitor. O povo também se depara com perda de 
liberdades naturais diante do poder estatal, mas as vantagens da vida 
social justificariam o sacrifício.
33 ROUSSEAU, Jean Jaques. The social contract. Translated by G. D. H. Cole. New York: 
Prometheus Books, 1988, p. 15.
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6 . C o n t e x t o h is t ó r ic o d a p r e v id ê n c ia p r iv a d a n o 
B r a s il
A fundação do Montepio dos Oficiais da M arinha da Corte, 
em 23 de setembro de 1795, caracteriza um primeiro marco inicial 
histórico de instituição voltada à complementação da renda de tra­
balhadores