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Katia Cilene Balugar Firmino - Portabilidade da Previdência Complementar

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construído ao longo do tempo, apesar de o 
direito à cobertura do risco verificar-se tão-só com o engajamento ao sistema protetivo. 
O transcurso do tempo, como uma constante da relação jurídica em matéria de 
seguridade, inclusive de seguridade social, é característica que foi observada e constatada pela 
Doutrina.1 
No âmbito da previdência complementar, por igual, o fator tempo tem importância 
a determinar, por vezes, a existência ou não do direito ao benefício, tal qual ocorre no regime 
geral, considerando que ambos os regime protetivos inserem-se no sistema maior da seguridade 
social e, por isso, sujeitam-se aos princípios que regem essa matéria, guardadas as 
particularidades próprias do regime complementar, atinentes à sua natureza de seguro social 
voluntário e complementar ao seguro social público. 
No campo da previdência privada, fica em relevo que esse planejamento para o 
futuro, de forma calculada e previdente, é fomentado pelo Estado no indivíduo e que quanto 
 
1 FERREIRA, Sérgio de Andréa. Aspectos básicos do moderno direito das fundações de previdência suplementar. 
Revista de Direito Administrativo, Rio de janeiro, n.172, p. 20-36, abr./jun. 1988. 
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maior o sacrifício, melhores serão as condições de vida do participante-segurado quando ele 
deixar a atividade, ou mais eficaz será o amparo a seus dependentes no caso de sua morte. 
A facultatividade de adesão à previdência complementar põe em evidência não só 
a vontade como elemento primeiro à participação no sistema de proteção, mas também a vontade 
de suportar certo sacrifício pessoal, consubstanciado na quantidade e no montante das 
contribuições que alimentarão o plano durante o tempo estipulado. 
Contudo, o que dizer do abandono dessa segurança caso o participante deixe o 
plano antes de verificado o evento que lhe asseguraria o direito à prestação previdenciária? 
Existiria resposta, no ordenamento jurídico, à diminuição patrimonial do 
participante e ao acréscimo que restaria acumulado no fundo formado pelo grupo de seguro do 
qual participava ? 
Como incentivar o indivíduo a manter-se filiado a um plano de previdência 
complementar, com vistas a promover seguridade social e, como resultado, bem-estar social? 
É nessa ordem de idéias que se insere o tema deste estudo, atinente ao instituto da 
portabilidade, o qual responde ou tenta responder às situações em que o curso de formação do 
direito à fruição do benefício pleno encontra-se em risco de ser interrompido. 
Adianta-se que na iminência da interrupção do vínculo jurídico estabelecido entre 
o participante e a entidade de previdência privada, a opção pelo exercício da portabilidade opera 
um traslado dos valores vertidos ao plano previdenciário para outro plano, administrado por 
distinta entidade previdenciária, perante a qual o participante seguirá contribuindo até que reúna 
os requisitos necessários à obtenção do direito ao benefício contratado, de modo que ainda que 
desfeito o vínculo jurídico do participante com a entidade originária, mantém-se o engajamento 
ao regime complementar. 
Por meio da análise das proposições legais implementadas pelo Estado como 
política de seguro social privado, serão examinados os mais freqüentes questionamentos à prática 
do instituto da portabilidade, objetivando-se a apreensão de sua natureza jurídica e a forma como 
se encontra disciplinado no ordenamento jurídico. 
Desse modo, o principal conjunto normativo a ser analisado consiste nas 
disposições constitucionais contidas no título que trata da Ordem Social, centrando-se o exame, 
então, no art. 202 da Constituição Federal; em nível infraconstitucional, a investigação foca-se 
nos comandos da Lei Complementar n. 109/01, bem como nos atos normativos infralegais que a 
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regulamentam, especialmente na resolução do Conselho Gestor da Previdência Complementar 
(resolução CGPC n. 6/03). 
Em se tratando a portabilidade de instituto próprio da relação de previdência 
privada, como se verá, urge o estudo dessa relação jurídica, assim como do regime jurídico que 
a regulamenta, o que pode fornecer subsídios para, com maior segurança, desvendar a natureza 
do instituto em exame. 
Sob outro giro, sendo inerente ao plano previdenciário sua natureza de seguro 
lastreado pelas contribuições do grupo segurado, é necessário o estudo das bases técnicas 
indicativas do limite em que, feita a retirada por meio da portabilidade, tal não reflita em 
desequilíbrio financeiro do plano originário e, conseqüentemente, em prejuízo dos demais 
participantes. 
Sendo assim, empreendemos a seguir investigação nesses dois aspectos, como 
pressupostos lógicos à aferição da natureza jurídica da portabilidade, iniciando o estudo sob o 
aspecto jurídico da relação de previdência privada, passando a seguir à análise das bases técnicas 
dos planos, para então firmar conclusão sobre o instituto em exame. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1 O REGIME JURÍDICO DA RELAÇÃO DE PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR 
 
1.1 Importância do Tema à Compreensão do Instituto da Portabilidade 
 
O regime de previdência complementar brasileiro caracteriza-se como um regime 
privado, dependente da vontade do indivíduo quanto à adesão, assinalando-se que em decorrência 
dessa característica, em contraposição ao regime público de previdência social, os termos 
previdência privada e previdência complementar serão indistintamente utilizados, não obstante 
ter sido adotado este último pela Constituição Federal. 
No regime de previdência complementar a principal secção corresponde ao 
segmento das entidades abertas de previdência complementar e ao segmento das entidades 
fechadas de previdência complementar. No segmento das entidades fechadas, a adesão ao plano 
depende da existência dos vínculos de emprego e associativo. No segmento das entidades 
abertas, essa adesão independe da existência de vínculo empregatício ou associativo. 
Distinguindo um e outro desses segmentos, Jerônimo Jesus dos Santos observa: 
“São entidades constituídas unicamente sob a forma de sociedade anônima, 
ou ainda sociedade civil sem fins lucrativos (SFL) com o objetivo de instituir 
planos de pecúlio ou de renda, sendo, respectivamente, com ou sem fins 
lucrativos; exceção está lançada nesta LC 109, em seu art. 77. 
A chamada EAPC é a Entidade Aberta de Previdência complementar ou 
Sociedade Seguradora autorizada a instituir planos de previdência aberta 
complementar. 
As EAPC’s estão enquadradas na área de competência do Ministério da 
Fazenda (MF) e do CNSP, sendo fiscalizadas pela SUSEP. 
Frise-se, são consideradas abertas principalmente por serem acessíveis a toda 
e qualquer pessoa física que subscreve (contrate) um ou mais benefícios 
constantes de seus planos. 
[...] 
São entidades fechadas aquelas cujos planos são endereçados a um público 
específico, ou seja, aos empregados de uma empresa (caso a entidade tenha 
patrocinador), grupo de empresas ou aos associados de entidade de classe ou 
de representação (caso a entidade tenha “instituidor”). Tais entidades não 
possuem fins lucrativos, e organizam-se sob a forma de fundação ou de 
sociedade civil, sem fins lucrativos (SFL) 
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As EFPC’s, também conhecidas como Fundos de Pensão, objetivam a 
concessão de benefício previdenciário, de natureza suplementar ou 
complementar aos benefícios concedidos pela previdência social. 
Não custa repetir, as EFPC’s estão enquadradas na área de competência do 
Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) e do CGPC, sendo 
fiscalizadas pela SPC).”2
No direito pátrio, o seguro de previdência social do regime