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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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só podem ser exigidas após decorridos noventa dias 
da data da publicação da lei que as houver instituído ou modificado, não se 
aplicando o disposto no artigo 150, III, alínea “b” da Constituição Federal. 
 
 
108 Wagner Balera, Curso de direito previdenciário: homenagem a Moacyr Velloso Cardoso de 
Oliveira, p. 38. 
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Wagner Balera observa que “considerada a magnitude do sistema de 
seguridade social que o constituinte pretende ver implantado no Brasil, é certo 
que a criação, majoração e extensão dos benefícios e serviços configurarão, 
em breve, uma exigência social e política da sociedade”.109
 
O legislador constitucional, compreendendo as limitações dos recursos, 
houve por bem cuidar de um campo futuro de incidência das contribuições 
previdenciárias e buscou regular o modo pelo qual poderiam surgir as novas 
fontes de custeio. Assim, lei pode instituir outras fontes destinadas a garantir a 
manutenção ou expansão da seguridade social, obedecido ao disposto no 
artigo 154, inciso I da Constituição Federal. 
 
O Supremo Tribunal Federal decidiu que a remissão feita pelo artigo 
195, parágrafo 4º da Constituição Federal ao seu artigo 154, inciso I implica 
na necessidade de lei complementar para a criação de novas contribuições 
sociais (STF – ADIn n. 1.102-2, rel. Min. Corrêa, DJU de 17.11.96, Seção I, 
p. 39.205). 
 
A contribuição da União estabelecida nos artigos 16 e 19 da Lei n. 
8.212/1991 é constituída de recursos adicionais do orçamento fiscal, fixados 
obrigatoriamente na lei orçamentária anual. Além das receitas oriundas das 
contribuições sociais, a União destina parte do seu orçamento fiscal para a 
instituição de ações de seguridade social principalmente destinadas às áreas 
de saúde e assistência social. 
 
 
109 Wagner Balera, Curso de direito previdenciário: homenagem a Moacyr Velloso Cardoso de 
Oliveira, p. 64. 
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No que se refere às ações de previdência social, a União somente 
destina recursos adicionais se houver déficit, ou seja, se as despesas com a 
previdência social superarem as receitas oriundas das contribuições das 
empresas sobre a folha de salários e demais rendimentos do trabalho e das 
contribuições dos trabalhadores (art. 167, inc. XI da CF/1988). 
 
Como já afirmamos anteriormente, o custeio da previdência social 
brasileira é tríplice. As empresas contribuem sobre a remuneração paga ou 
creditada aos segurados a seu serviço e os trabalhadores sobre o salário-de-
contribuição ou sobre a receita bruta proveniente da comercialização da 
produção rural (segurado especial), nos termos do inciso XI do artigo 167 da 
Constituição Federal. Caso essas contribuições não sejam suficientes para 
fazer face aos encargos previdenciários, a União cobre o respectivo déficit. 
Em síntese, as empresas, os trabalhadores e a União são responsáveis pelo 
custeio da previdência social. 
 
As receitas de outras fontes destinadas à seguridade social são descritas 
no artigo 27 da Lei n. 8.212/1991: 
 
“Artigo 27 - Constituem outras receitas da seguridade social: 
I - multas, atualização e juros moratórios; 
II - remuneração recebida por serviços de arrecadação, fiscalização e cobrança 
prestados a terceiros; 
III - receitas provenientes de prestação de outros serviços e de fornecimento ou 
arrendamento de bens; 
IV - demais receitas patrimoniais, industriais e financeiras; 
V - doações, legados, subvenções e outras receitas eventuais; 
VI - 50% dos valores obtidos e aplicados na forma do parágrafo único do artigo 243 
da Constituição Federal; 
VII - 40% do resultado dos leilões dos bens aprendidos pela Receita Federal; 
VIII - outras receitas previstas em legislação específica.” 
 
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Apesar do sistema protetivo elaborado pelo constituinte exigir recursos 
financeiros de grande monta e cujo valor real somente pode ser calculado 
através de cálculos atuariais apropriados110, deve-se buscar uma solução 
dentro do financiamento indireto, tópico inserido na norma constitucional que 
o Estado não cumpre adequadamente. 
 
Como observa Silvania Conceição Tognetti, o sistema de financiamento 
é misto, parte dos recursos advindo dos orçamentos da União, Estados, 
Distrito Federal e Municípios, e a outra parte de contribuições arrecadadas 
com destinação exclusiva para o financiamento da seguridade social.111
 
Observando-se a evolução da seguridade social, seu financiamento 
pode se dar pela instituição de fontes de custeio próprias, pelo repasse de 
verbas provenientes da arrecadação de impostos ou por um sistema misto.112
 
À medida que o sistema de seguridade social foi-se ampliando para 
alcançar situações que não podiam ser previstas por regras atuariais, cresceu a 
participação das receitas de impostos no seu financiamento, ficando cada vez 
mais caracterizado ser o sistema misto. 
 
O financiamento do sistema é marcado por participação mais intensa do 
Estado, através das receitas gerais dos impostos, além do estabelecimento de 
contribuições de valor fixo ou escalonadas, em função dos rendimentos de 
cada pessoa. Abandonou-se, em certa medida, a técnica de contribuições 
sobre salários (insuficientes para manter um sistema de proteção tão amplo), 
 
110 Wagner Balera, Curso de direito previdenciário: homenagem a Moacyr Velloso Cardoso de 
Oliveira, p. 64-65. 
111 Silvania Conceição Tognetti, Contribuições para o financiamento da seguridade social, p. 19-
20. 
112 Ibidem, p. 19. 
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passando-se do regime de capitalização para o de distribuição ou repartição. 
Com isso, as quotizações sociais se aproximaram mais das imposições 
tributárias.113
 
Observa-se, no final do século XX, uma retração da seguridade social, 
decorrente da crise econômica surgida na década de 1970 e conseqüência da 
mudança na concepção do Estado. Fala-se em crise do Estado Providência ou 
Estado do Bem-estar Social, para a qual, além da crise econômica e das idéias 
neoliberais, também influíram a mudança do perfil da população (crescimento 
demográfico, aumento da expectativa de vida) e o alto grau de proteção dos 
sistemas (gigantismo da seguridade social). Assim, atualmente, cada país 
tenta solucionar o problema do financiamento da seguridade social repesando 
tanto as prestações sociais quanto as fontes de financiamento.114
 
Apenas em alguns países, como nos escandinavos, predomina o 
financiamento por transferências dos recursos provenientes de impostos, 
através de transferências orçamentárias.115
 
Qualquer que seja a forma pela qual se estruture o custeio das prestações 
previdenciárias, seja escolhida a fórmula das contribuições, seja eleita a de 
imposição tributária pura e simples, não se pode desconhecer os preceitos legais 
aplicáveis em uma ou em outra das fórmulas e que estabelecem a relação 
jurídica de custeio. Obrigacional por índole, a lei estabelece a compulsoriedade 
dos recolhimentos e determina a parte orçamentária do Estado, criando a relação 
obrigacional da sociedade e do Estado.116
 
 
113 Ilídio das Neves, Direito da segurança social..., p. 155-158. 
114 Ricardo Lobo Torres, Tratado de direito constitucional financeiro e tributário: o orçamento na 
Constituição, v. 5, p. 75-84. 
115 Ibidem, p. 84. 
116 José dos Reis Feijó Coimbra, Direito previdenciário brasileiro, p. 236. 
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Na fase de elaboração do orçamento da seguridade social, o poder 
competente já terá, na lei de diretrizes orçamentárias (art. 195, § 2º c.c. o art. 
165, § 5º da CF), fixado as metas e prioridades a serem implementadas pelo 
sistema de proteção social.