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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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A lei orçamentária, da qual é parte integrante o orçamento da 
seguridade social117, deve ser examinada minuciosamente, com base em 
levantamentos estatísticos, demográficos e atuariais, conforme preceitua o 
artigo 96 da Lei n. 8.212/91: 
 
“Artigo 96 - O Poder Executivo enviará ao Congresso Nacional, anualmente, 
acompanhando a proposta orçamentária da Seguridade Social, projeções atuariais 
relativas à Seguridade Social, abrangendo um horizonte temporal de, no mínimo, 20 
anos, considerando hipóteses alternativas quanto às variáveis demográficas, 
econômicas e institucionais relevantes.” 
 
As receitas provenientes de contribuições orçamentárias se originariam 
dos recursos adicionais do orçamento fiscal e, através da lei orçamentária 
anual, se destinariam recursos provenientes da arrecadação de outros tributos 
para a saúde, previdência e assistência social. 
 
O problema que ousamos enfrentar inicia-se no fato de que o 
constituinte infelizmente não fixou o percentual mínimo com que cada ente da 
federação deveria contribuir, que tecnicamente deveria ser regulado por lei 
complementar. Em conseqüência, os entes federativos não cumprem sua 
obrigação orçamentária, fato esse injustificável para os integrantes da 
federação brasileira, já que não há qualquer fator de discrímen aceitável. 
 
 
117 Wagner Balera, Curso de direito previdenciário: homenagem a Moacyr Velloso Cardoso de 
Oliveira, p. 39. 
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Cada pessoa política deveria definir no seu orçamento o valor destinado 
ao financiamento indireto da seguridade social, cumprir a determinação 
constitucional, garantindo a eficácia da ordem social e do seguro social 
instituído no plano de beneficio da seguridade social. 
 
O artigo 193 do Decreto n. 3.048/99, que regulamenta a forma pela qual 
a seguridade social é financiada, estabelece: 
 
“Artigo 193 - A seguridade social é financiada por toda a sociedade, de forma 
direta e indireta, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos 
Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de contribuições sociais.” 
 
No âmbito federal, o orçamento da seguridade social é composto pelas 
receitas provenientes: 
 
I - da União; 
II - das contribuições sociais; e 
III - de outras fontes. 
 
As receitas provenientes de contribuições da União advêm de recursos 
adicionais do Orçamento Fiscal, fixados obrigatoriamente na Lei 
Orçamentária Anual. Ou seja, além das contribuições sociais, cuja receita está 
vinculada diretamente ao financiamento da seguridade social, a União pode, 
através da lei orçamentária anual, destinar recursos provenientes da 
arrecadação de outros tributos para a saúde, previdência e assistência 
social.118
 
 
118 Ítalo Eduardo Romano; Jeane Tavares Aragão Eduardo; Amauri Santos Teixeira, Direito 
previdenciário: custeio, p. 20. 
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Vale ressaltar que a Lei n. 8.212, que cuida do custeio da seguridade 
social, seguindo o padrão clássico que regeu o tema do financiamento, ao 
tratar da chamada contribuição da União, no parágrafo único do artigo 16, 
prevê que a União será responsável pela cobertura das eventuais 
insuficiências financeiras da seguridade social, quando decorrentes do 
pagamento de benefícios de prestação continuada da previdência social, na 
forma da lei orçamentária anual.119
 
Observe-se, desse enfoque, uma total irregularidade, uma vez que a 
União só responde se e somente se o sistema tiver insuficiências financeiras; 
se o sistema se mantiver equilibrado do ponto de vista financeiro, a 
contribuição da União não será necessária. 
 
Data vênia, a União deveria contribuir com um percentual fixo, mesmo 
porque ela é a grande responsável pelo déficit que o sistema enfrenta no 
momento. 
 
A Lei n. 8.212 é inócua em relação à contribuição da União, pois 
definiu tecnicamente uma alíquota zero. Ora, a União só contribuiria se 
faltasse dinheiro no caixa para o pagamento de benefícios, mas isso é 
inaceitável, pois a mesma lei, em seu artigo 17, dispõe que “para os 
pagamentos dos encargos previdenciários da União poderão contribuir os 
recursos da seguridade social referidos na alínea ‘d’ do parágrafo único do 
artigo 11 desta lei, na forma da lei orçamentária anual, assegurada destinação 
de recursos para as ações desta lei de saúde e assistência social”. 
 
 
119 Ilídio das Neves, Direito da segurança social..., p. 67. 
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Isso é muito grave, pois significa que, além da União não contribuir, 
ainda pode receber recursos do sistema para o pagamento de seus encargos 
previdenciários. Essa não era a vontade do legislador constituinte, pois o 
mandamento constitucional é claro e eficaz no sentido de haver parcela do 
orçamento da União para o financiamento da seguridade social. 
 
O problema do financiamento dos entes federativos também existe em 
nível estadual e municipal, em relação aos seus regimes previdenciários 
próprios. 
 
Notamos que, após a reforma constitucional para a formação desses 
regimes, é indispensável a existência de lei própria ou de previsão no regime 
jurídico dos servidores do ente federativo, se existente, de sistema de 
previdência. Neste devem estar contidas disposições concernentes ao custeio, 
à enumeração dos segurados e de seus dependentes, à rede de benefícios e aos 
serviços. 
 
Na realidade, é indispensável que haja efetivamente um regime próprio, 
e não, como vem ocorrendo com alguns Estados e Municípios, meras 
concessões de benefícios, tais como pensões ou complementações, sem 
qualquer contribuição por parte do servidor, quando teríamos uma 
liberalidade com dinheiro público, o que, é claro, é grave, já que “se faz favor 
com o chapéu dos outros”. Aliás, o constituinte derivado, no intuito de dar 
cabo a essa lamentável situação, em bom momento, criou a Emenda 
Constitucional n. 20/98, que alterou a redação do artigo 40, caput da 
Constituição Federal, deixando claro que tais regimes devem possuir “caráter 
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contributivo, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e 
atuarial”.120
 
O nosso inconformismo é claro neste trabalho, em relação às 
responsabilidades financeiras que a União assumiu com dependentes dos seus 
servidores já falecidos, que devem ser custeados pelo Tesouro Nacional, e não 
pelo caixa da seguridade social, fato esse inadmissível e que deve ser cobrado 
pela sociedade como imoral e até como desvio de finalidade do custeio. 
 
Outro questionamento que atinge o custeio é o artigo 90 da Lei n. 8.212 
que, por sua vez, refere-se à dívida da União para com o sistema de 
seguridade social, estabelecendo que “o Conselho Nacional de Seguridade 
Social, dentro de 180 (cento e oitenta) dias da sua instalação, adotará 
providências necessárias ao levantamento das dívidas da União para com a 
seguridade social”. 
 
Esse prazo já expirou e, pior ainda, o órgão competente para a apuração 
da dívida foi extinto pela Medida Provisória n. 2.143-36/2001, num manifesto 
de ato de inconstitucionalidade. 
 
Não podemos aceitar esse posicionamento. Devemos cobrar 
veementemente dos entes da federação a parcela de financiamento e, da 
União, além da parcela, apurar o valor real da dívida e cobrá-la de forma 
eficaz. Observamos que o objetivo específico deste trabalho é buscar soluções 
para o problema do financiamento indireto da seguridade social e fazer valer a 
vontade do legislador constituinte. 
 
 
120 Marcos Orione Gonçalves Correia; Érica Paula Barcha Correia, Curso de direito da seguridade 
social, p. 68. 
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