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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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Remígio Todeschini evidencia a vontade do legislador constituinte, 
relatando que o diário da Assembléia Nacional Constituinte demonstra a 
preocupação geral de todos os constituintes em ter proposta única da gestão, 
quando houve fusão de propostas no artigo 227, item VII, com a seguinte 
redação inicial: “caráter democrático e descentralizado da gestão 
administrativa, com a participação de trabalhadores, empresários, aposentados 
e da comunidade.”121
 
No segundo turno, com nova redação, o termo comunidade foi 
exemplificado em representações de trabalhadores, empresários e 
aposentados. 
 
Quando foi votada a proposta sobre o capítulo da seguridade social, o 
deputado Jorge Uequed, do PMDB do Rio Grande do Sul, assim se expressou 
quanto à gestão da seguridade social: “A administração da seguridade social 
será feita não apenas pelo governo, mas também pelos trabalhadores, 
empresários, aposentados e pela comunidade, na área da saúde.” 
 
No primeiro turno, o mesmo deputado assim se expressava quando à 
gestão tripartite da previdência: 
 
“É bom salientar que os trabalhadores, os únicos que pagam corretamente a 
previdência social neste país, não têm o direito de participar da gestão dos recursos 
que colocam nessa atividade. 
O trabalhador não pode, Sr. Presidente, sequer sonegar, porque já recebe o seu 
salário descontada a previdência social. Os empresários, alguns pagam, outros 
sonegam e alguns recolhem a parcela dos empregados e não a recolhem à 
previdência social. 
É indispensável essa administração tripartite e paritária da previdência, para evitar 
não apenas a má utilização dos recursos, mas também que sejam utilizados recursos 
da previdência social em outros campos que não aqueles definidos pela ação da sua 
fundação e da sua organização. Estabelecer-se uma administração tripartite quer 
dizer não mais serão usados recursos da previdência social em nível nacional, 
 
121 Remígio Todeschini, Gestão da previdência pública e fundos de pensão, p. 67-74. 
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regional ou municipal, nas campanhas eleitorais; não se fará mais da previdência 
um cabide de empregos para utilização de interesses de grupos que dominem; que, 
de ora em diante, após a promulgação da nova Carta, lá estarão os representantes 
dos trabalhadores em nível nacional, regional e municipal, para fiscalizar, 
denunciar e não permitir esta utilização.”122
 
Realmente houve, durante todo o processo da constituinte, tentativas de 
emendas que visavam à redução da participação da comunidade na gestão da 
previdência, o que, para Anníbal Fernandes, “seria reduzir ainda mais o 
espaço dos trabalhadores e das empresas na administração da previdência 
social.”123
 
No primeiro artigo da nossa Constituição, o princípio fundamental, a 
norma-princípio, estabelece a participação popular direta: “Todo poder emana 
do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos 
termos desta Constituição.” 
 
Tal princípio é de aplicabilidade imediata, e não é princípio indicador, 
como são os dos fins do Estado, inscrito no artigo 3º, inciso III, e o da 
erradicação da pobreza. A participação popular reforça o Estado democrático 
e não deve limitar-se às instituições representativas. 
 
Segundo José Afonso da Silva, o Estado democrático visa “realizar o 
princípio democrático como garantia geral dos direitos fundamentais da 
pessoa humana”124, entre os quais temos os direitos sociais da seguridade 
social. Tal concepção supera o conceito da democracia liberal, que estabelece 
a norma jurídica como algo abstrato e geral. O Estado Democrático de Direito 
significa fazer com que a comunidade de fato esteja inserida em todos os 
 
122 Diário da Assembléia Nacional Constituinte, sábado, 23 maio 1987, p. 2.162-2.163. 
123 Anníbal Fernandes, Poder econômico versus previdência social: a previdência na crise mundial, 
p. 314. 
124 José Afonso da Silva, Curso de direito constitucional positivo, p. 121. 
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mecanismos de controle e decisão, para que de fato o direito seja aplicado 
universalmente na vida cotidiana de todos e não seja uma mera ficção. 
 
Necessário destacar a lição cristalina da caracterização do Estado 
Democrático de Direito de José Afonso da Silva: 
 
“A democracia que o Estado Democrático de Direito realiza há de ser um processo 
de convivência social numa sociedade livre, justa e solidária (art. 3, I), em que o 
poder emana do povo, e deve ser exercido em proveito do povo, diretamente ou por 
representantes eleitos (art. 1º, parágrafo único); participativa, porque envolve a 
participação crescente do povo no processo decisório e na formação dos atos do 
governo; pluralista, porque respeita a pluralidade de idéias, culturas e etnias e 
pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e a 
possibilidade de convivência de formas de organização e interesses diferentes da 
sociedade; há de ser um processo de liberação da pessoa humana das formas de 
opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos 
individuais, políticos e sociais, mas especialmente da vigência de condições 
econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício.”125
 
A democracia participativa direta está inscrita em diversos artigos da 
Constituição federal e tem aplicabilidade imediata. O artigo 10 da 
Constituição, inserido no Capítulo II, Dos Direitos Sociais, assegura a 
participação dos trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos 
públicos em que seus interesses profissionais ou previdenciários sejam objeto 
de discussão e deliberação. 
 
Wagner Balera ensina que esse direito não está sendo aplicado, portanto 
a Constituição é ferida quando os trabalhadores e empregadores não têm 
assento no Conselho Monetário Nacional, órgão atualmente sob a égide 
monocrática do Ministro da Fazenda, subordinando-se aos ditames do Fundo 
 
125 José Afonso da Silva, Curso de direito constitucional positivo, p. 121. 
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Monetário Internacional. Ferido também é o princípio fundamental da 
soberania nacional inscrito no artigo 1º, I da Constituição de 1988.126
 
Com todo esse arcabouço constitucional de participação direta, pode-se 
de fato realizar o Estado Democrático de Direito, em busca da equalização 
das condições dos socialmente desiguais, tendo em vista a construção de uma 
sociedade livre, justa e solidária, conforme os princípios ora elencados. Como 
processo dialético, e através da participação direta, é que se busca o 
aperfeiçoamento e a universalização dos direitos. 
 
4.1 Financiamento indireto da saúde 
 
O financiamento indireto da saúde viveu momentos históricos 
importantes que refletem a luta da nação no sentido de consolidar a reforma 
econômica, social e política do sistema de saúde. 
 
4.1.1 Retrospecto histórico 
 
4.1.1.1 Período de 1974 a 1979 
 
Trata-se de uma fase em que ocorreram mudanças 
conceituais importantes no âmbito da discussão das políticas sociais e de 
saúde no Brasil, assim como reorientação política e institucional do Estado 
brasileiro. 
 
Consolidou-se o movimento brasileiro de reforma 
sanitária: o diagnóstico realizado no país evidenciou as grandes desigualdades 
 
126 Wagner Balera, Sistema de seguridade social, p. 23. 
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sociais e de saúde, o que resultou em uma agenda de propostas para a 
reversão do quadro social apresentado e, em especial, das condições de saúde. 
 
As discussões giravam em torno dos problemas e 
necessidades de saúde da população e seus determinantes, de propostas 
políticas e de reordenação do sistema, além de debates