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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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anos e passou por vários governos. Foi uma conquista extremamente 
importante para garantir recursos federais, estaduais e municipais para o 
atendimento da saúde e resultou da luta daqueles que tinham interesse em 
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defender a saúde do povo brasileiro, tornando possível a criação de 
vinculação orçamentária, através da alteração constitucional. 
 
A vinculação de receita na Constituição, destinada à saúde 
é luta antiga de todos os médicos e de todas as entidades médicas. Já na 
Constituinte de 1988, quando da criação do SUS, o deputado federal Eduardo 
Jorge tentou, sem sucesso, essa vinculação orçamentária. 
 
Durante anos, as verbas para a saúde foram insuficientes. 
Infelizmente, não foi possível sensibilizar os governantes. A partir da criação 
do SUS, a batalha se intensificou, tomando a forma de uma luta organizada e 
suprapartidária. Nesses mais de dez anos, o SUS se expandiu em quantidade e 
qualidade, mas administrando uma miséria orçamentária. 
 
Em 1993, o deputado federal Eduardo Jorge, (escolhido 
pela Sociedade de Medicina e Cirurgia como o médico deputado federal do 
ano 2000), apresentou o PEC n. 169, visando destinar recursos específicos 
para a saúde. 
 
O projeto teve como relator o combativo deputado 
Darcísio Perondi do Rio Grande do Sul (escolhido pela Sociedade de 
Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro como médico deputado federal do ano 
de 2002). 
 
Apesar do esforço e da tenacidade do autor da emenda e do 
seu relator, infelizmente, ela foi sendo procrastinada, até o arquivamento. Em 
1995 o deputado Carlos Mosconi, de Minas Gerais (escolhido pela Sociedade 
de Medicina e Cirurgia como o médico deputado federal do ano de 1998) 
apresentou outra emenda, que tomou o número 82. 
 
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Essa emenda tinha algumas nuanças que a distinguiam da 
outra, mas com a mesma finalidade. O relator dessa emenda foi o deputado 
Ursicino Queiroz, da Bahia (escolhido pela Sociedade de Medicina e Cirurgia 
como médico deputado federal do ano de 1999). Após longos anos de batalha 
e recebendo o apoio dos médicos, das entidades médicas e conseguindo 
sensibilizar a maioria da Câmara dos Deputados, ela foi aprovada. Na 
realidade, houve um acordo suprapartidário para a aprovação. 
 
O primeiro turno ocorreu no dia 27.10.1999, com 405 
votos a favor, e o segundo turno em 10.11.1999, com 416 votos a favor. A 
seguir, a emenda foi remetida para o Senado Federal. Depois de sete meses, e 
muita pressão de setores da saúde, finalmente a matéria entrou em discussão, 
no dia 21.6.2000, sendo aprovada em sessão do dia 29, com o apoio de 62 
votos a favor e apenas 3 contra. Em 13.8.2000, a emenda foi promulgada. 
 
Na Comissão de Seguridade Social da Câmara, papel de 
destaque tiveram os deputados José linhares (CE), Alceu Collares (RS) e 
Jandira Feghali (RJ), mostrando o caráter suprapartidário da Emenda. 
 
Houve ainda, durante todo o transcurso do processo, os 
apoios do Conselho Nacional de Saúde, do CONASEMS e, em especial, dos 
Ministros da Saúde Jamil Haddad, Adib Jatene e José Serra. 
 
No Senado, foi muito importante o trabalho do relator 
senador Antônio Carlos Valladares e também a participação nos bastidores do 
Ministro da Saúde José Serra. Apesar de todos os esforços, os valores ficaram 
abaixo da expectativa, mas o mais importante foi garantir, na Constituição, a 
vinculação de recursos para a saúde e a certeza de que o SUS passaria a ter 
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recursos garantidos pela Constituição, provenientes dos tributos arrecadados e 
de repasses dos governos estaduais e municipais. 
 
Os recursos do SUS passaram de R$ 19 bilhões para 22,5 
bilhões. A Emenda Constitucional da Saúde garantiu, para 2001, 5% do 
Orçamento Federal e, a partir daí, o mesmo percentual da variação do Produto 
Interno Bruto (PIB), acrescido da inflação. 
 
Os Estados deveriam investir 7% da arrecadação, com 
aumentos sucessivos, até atingir 12% da receita. Já os municípios começaram 
com a obrigação de destinar 7% e chegarão a investir 15%. Os recursos para a 
saúde aumentaram, porém deve-se atentar para os desvios de verbas, os 
grandes ralos por onde escapam o dinheiro devem ser consertados para que o 
SUS comece a ter condições de funcionamento. 
 
A exposição de motivos da Emenda Constitucional n. 
29/2000 demonstra que a história do financiamento federal da saúde se 
caracterizou sempre por apresentar um quadro de instabilidade dos montantes 
destinados ao setor. As fontes de financiamento do setor − recursos ordinários 
da União, contribuição social sobre o lucro líquido das empresas, contribuição 
sobre o faturamento das empresas, contribuição provisória sobre a 
movimentação financeira, receita proveniente dos fundos de desvinculação 
fiscal e outros recursos e fontes − não foram suficientes para solucionar o 
problema. 
 
O financiamento precisava ser definido por emenda à 
Constituição que estabeleceria os percentuais de recursos específicos para o 
setor. 
 
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A proposta visava garantir a continuidade do 
financiamento do setor de saúde, sem desvios ou reduções drástica no aporte 
de recursos, por decisões arbitrárias e infundadas, de forma a garantir a 
cobertura das necessidades de financiamento. Assim, o Ministério da Saúde 
ficaria menos vulnerável a essas decisões e o setor ficaria menos 
desprotegido. 
 
O debate sobre a necessidade de vinculação de recursos 
orçamentários para saúde ganhou um defensor, o então ministro José Serra, 
que na época afirmou ser favorável à vinculação de recursos para a saúde 
porque o orçamento da saúde sempre estava vulnerável a cortes, o que 
funcionaria como obrigação para os governantes. Segundo ele, se não 
houvesse todas as vinculações orçamentárias constitucionais, as pessoas 
humildes ficariam cada vez mais vulneráveis à falta de assistência, a exemplo 
da médica, como ocorreu quando do colapso inflacionário da década de 90. 
 
O terceiro fator citado pelos autores da emenda sobre as 
limitações da vinculação é que ela, na prática, transforma em teto o volume de 
recursos previsto para ser o piso do setor, engessa o orçamento e elimina a 
prejudicial flexibilidade das decisões dos governantes. 
 
Os pontos positivos da vinculação seriam, em primeiro 
lugar, a elaboração de orçamentos vinculados da assistência, previdência e 
saúde, dentro do orçamento da seguridade social; em segundo lugar, a 
vinculação desses recursos, entre as três esferas de governo, favorece a 
descentralização; em terceiro, maiores serão os recursos para o setor da saúde, 
tão necessários atualmente, dado o quadro de deterioração em que se 
encontra. 
 
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Dado o quadro de mudanças tributárias, o setor da saúde 
passou a vincular seus recursos, no intuito de possibilitar alguma garantia de 
financiamento. A emenda constitucional asseguraria os recursos mínimos para 
o financiamento da saúde. A PEC n. 82-C foi aprovada e deu origem à 
Emenda Constitucional n. 29. 
 
A Emenda foi promulgada em 13 de setembro de 2000, 
alterou os artigos 34, 35, 156, 160, 167 e 198 da Constituição Federal e 
acrescentou o artigo 77 ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. 
 
Os critérios estabelecidos na Emenda eram auto-aplicáveis 
e suas exigências e efeitos foram imediatos sobre os Estado e Municípios, não 
necessitando nenhum instrumento legal para o seu cumprimento. Além de 
definir os limites mínimos de aplicação na área da saúde pública, estabelece 
regras de adequação para o período de 2000 a 2004. A complexidade da 
emenda está nos cálculos dos limites de investimento, nos critérios de 
fiscalização, avaliação e controle das despesas com saúde e nas normas de 
cálculo