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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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que o sistema busque todas as iniciativas que 
marcham em favor da redução das desigualdades, a fim de tentar imprimir-
lhes coerência, respeitando a diversidade de objetivos e de estratégias de ação 
das pessoas e entidades que atuam no setor. No Brasil, as desigualdades 
sociais excluem dos bens sociais milhões e milhões de pessoas e criam 
imenso abismo entre brasileiros.136
 
Poucos ficaram cada vez mais ricos, enquanto muitos 
foram excluídos da vida social e reduzidos à miséria absoluta.137
 
Poderíamos neste ato relembrar o constitucionalismo 
social, pois é dever construir uma sociedade mais justa, através da correção 
dos excessos próprios do individualismo. 
 
Não podemos tolerar mais esse quadro de desigualdade e 
marginalização social, pois lutamos para que o constituinte de 1988 
promulgasse a ferramenta da assistência social, e agora necessitamos colocar 
essa ferramenta em prática, através da vinculação orçamentária, aplicando o 
financiamento indireto e exigindo dos entes federativos a responsabilidade 
social. 
 
Não podemos esquecer que a assistência é a garantia de 
proteção aos que necessitam de amparo do Estado para sobreviver. A rigor, 
 
136 Relatório do Banco Mundial afirma que o Brasil contava com 23 milhões de pobres em 1981 e 
que esse número ascendeu para 33 milhões em 1987 (BIRD, Informe sobre el desarrollo mundial, 
1990 – Pobreza. (Leonardo Guimarães Neto, O mercado de trabalho na década perdida, São 
Paulo, Revista da Fundação SEADE, v. 4, p. 6 apud Wagner Balera, Sistema de seguridade 
social, p. 105). 
137 O coeficiente de Gini, medida que, segundo o dicionário de economia, se emprega para o 
registro da concentração de renda, atingiu seu mais alto patamar em 1989: 0,652%. Isso significa 
que apenas 658 mil pessoas (1% da PEA) concentraram 15,9% da renda nacional do trabalho, 
enquanto 6,58milhões de trabalhadores (10% da PEA) ficaram com ínfimos 0,7% da mesma 
renda. (Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE). 
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enquanto a previdência cuida de amparar os trabalhadores e dependentes 
quando ocorre uma incapacidade para o trabalho, a assistência presta serviços 
aos carentes e necessitados. 
 
A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) considera 
carente aquele que têm renda familiar inferior a 25% do salário mínimo por 
pessoa. Para efeitos dessa lei, o vocábulo família pressupõe a convivência sob 
o mesmo teto, devendo ser compreendida como integrada pelo cônjuge, 
companheiro e companheira, filho não emancipado, de qualquer condição, 
menor de 18 anos, ou inválido, os pais e o irmão não emancipado, de qualquer 
condição, menor de 18 anos ou inválido, lembrando que o enteado equipara-
se a filho, nos termos do parágrafo 2º do artigo 16 da Lei n. 8.213/91. 
 
Essa área é muito importante, e inclui também o amparo 
aos idosos, considerados esses os que têm 65 anos ou mais. A partir da 
promulgação do Estatuto do Idoso, os carentes recebem o benefício de 
prestação continuada como um amparo assistencial, uma vez que sua 
concessão independe de ter o beneficiário contribuído ou não para a 
seguridade, apesar dos recursos para o pagamento serem da seguridade social. 
 
No sistema atual, ao Fundo Nacional de Assistência Social 
(FNAS) cabe o repasse dos recursos destinados à cobertura das despesas 
relativas à assistência social, mediante efetiva instituição e funcionamento do 
Conselho de Assistência Social. 
 
O repasse dos recursos do Fundo Nacional de Assistência 
Social aos Estados, Distrito Federal e Municípios é condicionado ao 
cumprimento da previsão do artigo 195, caput da Constituição Federal, ou 
seja, à comprovação orçamentária dos recursos próprios destinados à 
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assistência social, alocados em seus respectivos Fundos de Assistência Social, 
a partir do exercício de 1999. 
 
Cabe à União a responsabilidade pelos recursos destinados 
ao financiamento dos benefícios de prestação continuada, que poderão ser 
repassados diretamente pelo Ministério da Previdência e Assistência Social ao 
INSS, órgão responsável pela sua execução e manutenção, uma vez que não 
cabe à previdência, e muito menos à saúde, o financiamento das prestações 
assistenciais. É necessária uma vinculação orçamentária urgente para 
solucionar essa lacuna no financiamento da assistência social. 
 
A assistência social tem um papel primordial na sociedade 
brasileira, pois as prestações assistenciais são uma arma no combate à 
marginalização e desigualdade social, dividindo-se em benefícios de 
prestação continuada, benefícios eventuais, serviços sociais e projetos de 
enfrentamento da pobreza. 
 
Como já demonstramos, o benefício de prestação 
continuada garante à pessoa portadora de deficiência e ao idoso uma renda 
mensal de um salário mínimo, desde que ela comprove não possuir meios de 
prover a própria manutenção e nem tê-la provida por sua família. 
 
Os benefícios eventuais são aqueles que visam o 
pagamento de auxílio-natalidade ou auxílio-morte às famílias cuja renda 
mensal per capita seja inferior a ¼ do salário mínimo. 
 
A Lei n. 8.742/93 prevê que outros benefícios eventuais 
podem ser estabelecidos para atender à necessidade advinda da situação de 
vulnerabilidade temporária, com prioridade para a criança, a família, o idoso, 
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a pessoa portadora de deficiência, a gestante, a nutriz e nos casos de 
calamidade pública. 
 
Os benefícios de auxílio-natalidade e auxílio-funeral eram 
pagos pelo INSS. Com a promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social, 
a responsabilidade foi transferida aos Municípios, conforme previsão do 
artigo 15, inciso III da Lei 8.742/93. 
 
Nos termos do parágrafo 1º do artigo 40 da Lei Orgânica 
da Assistência Social, a transferência dos beneficiários do sistema 
previdenciário para a assistência social deve ser estabelecida, de forma que o 
atendimento da população não sofra solução de continuidade, porém inúmeros 
Municípios não implementaram o pagamento de auxílio-natalidade e auxílio-
funeral. 
 
Observamos a necessidade de se solucionarem 
definitivamente esses problemas, através de uma vinculação orçamentária. A 
Lei Orgânica da Assistência Social, no artigo 25 prescreve que os projetos de 
enfrentamento da pobreza compreendem a instituição de investimento 
econômico-social nos grupos populares, buscando subsidiar, financeira e 
tecnicamente, iniciativas que lhes garantam meios, capacidade produtiva e de 
gestão para a melhoria das condições gerais de subsistência, elevação do 
padrão de qualidade de vida, preservação do meio ambiente e sua organização 
social. 
 
Porém, sem uma contrapartida, esses projetos se tornam 
impossíveis, pois eles devem se assentar em diversos mecanismos de 
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articulação governamental, em sistema de cooperação entre organismos 
governamentais e não governamentais e da sociedade civil. 
 
É da competência da União, em âmbito nacional, e dos 
Estados, em âmbito regional ou local, apoiar técnica e financeiramente os 
serviços, os programas e os projetos de enfrentamento da pobreza. 
 
Aos Municípios, por sua vez, compete executar os projetos 
e enfrentamento da pobreza, incluindo toda a sociedade brasileira. O artigo 79 
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias prevê, no âmbito do 
Poder Executivo Federal, a criação do Fundo de Combate e Erradicação da 
Pobreza, com o objetivo de viabilizar a todos os brasileiros o acesso a níveis 
dignos de subsistência, cujos recursos serão aplicados em ações 
suplementares de nutrição, habitação, educação, saúde, reforço de renda 
familiar e outros programas de relevante interesse social,