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Marcos Sérgio de Souza - Financiamento Indireto da Previdência Social - Ano 2005

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social. 
 
É claro que essa divisão é meramente didática, sendo até 
intuitivo que a seguridade social não foi “programada”, mas sim concebida ao 
longo do tempo pela influência dos fatos e documentos associados, cuja 
intensidade nem sempre respeita a ordem ali indicada. Dessa didática divisão, 
tem-se as duas guerras mundiais como marcos históricos representativos da 
evolução da seguridade social. 
 
 
47 Wagner Balera, Introdução à seguridade social, p. 31. 
48 Celso Barroso Leite; Luiz Assumpção Paranhos Velloso, Previdência social, p. 36-39. 
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Isso ocorreu porque o momento de guerra em geral é 
propício ao desenvolvimento dos sistemas de proteção social, em razão do 
aumento da preocupação das pessoas com a segurança, e pelo 
desenvolvimento tecnológico e industrial que os países em conflito 
inevitavelmente acabam apresentando. 
 
A seguir, indicaremos os principais fatos e diplomas 
históricos referentes à evolução da seguridade social, começando pela 
encíclica Rerum Novarum, editada pelo Papa Leão XIII em 1891, que defende 
a intervenção do Estado na economia para a defesa do interesse comum e 
implantação dos seguros obrigatórios.49
 
Debatendo a questão do intervencionismo estatal (e 
decerto aprovando o seguro social bismarkiano), ela prega que: 
 
“Assim como por todos estes meios o Estado pode tornar-se útil às 
diversas classes, pode igualmente melhorar muitíssimo a sorte da 
classe operária e isto em todo o rigor do seu direito e sem temer a 
censura de ingerência indébita, pois que, em virtude mesmo do seu 
ofício, o Estado deve servir o interesse comum. E é evidente que, 
quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta ação de 
ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros 
expedientes para remediar as condições dos trabalhadores.”50
 
Em 1919, o tratado de Versalhes e a conseqüente criação 
da Organização Internacional do Trabalho (OIT) deram impulso à criação de 
diversas convenções e recomendações internacionais, uniformizando e 
difundindo as normas de seguro social. Essas medidas foram decisivas para a 
construção do arcabouço jurídico da seguridade social. 
 
 
49 Papa Leão XIII, Rerum Novarum sobre as condições dos operários, p. 5. 
50 Marcus Orione Gonçalves Correia; Érica Paula Barcha Correia, Curso de direito da seguridade 
social, p. 6. 
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Ainda em 1919, surge a Constituição de Weimar, que 
confere dignidade constitucional à questão social, inaugurando a época do 
constitucionalismo social, a substituir as velhas estruturas jurídicas baseadas 
no individualismo. Sua importância para a seguridade social está traduzida 
nas palavras de Wagner Balera: 
 
“Velhas estruturas jurídicas baseadas no individualismo cedem 
passo, ante essa ordem na qual se acha colocado, como elemento 
subjacente, o solidarismo. 
Dali para frente caberá ao Estado atuar como agente no 
desenvolvimento social e, desse lugar de comando, sobrepor-se ao 
aleatório das situações concretas. 
Contando com o auxílio do planejamento – talvez sua principal arma 
tática – cumpre ao Estado providência engendrar, num sistema, a 
segura cobertura das terríveis contingências que deram causa à 
questão social.”51
 
O Social Security Act, de 1935, foi instituído nos Estados 
Unidos durante o governo Roosevelt, como plano de resposta à grave crise 
econômica do país, utilizou pela primeira vez a expressão seguridade social e 
ganhou voga com a lei neozelandesa de 1938. 
 
As duas leis são exemplos de um regime de grande 
alcance, cobrindo os riscos biológicos e econômicos, baseado na fusão dos 
princípios da assistência e do seguro. 
 
A Carta do Atlântico, de 1941, dentre outras declarações, 
afirmava o desejo “de lograr no campo da economia a colaboração mais 
estreita entre todas as nações, com o fim de conseguir para todos melhoria nas 
normas de trabalho, prosperidade econômica e seguridade social”. Em 1942, é 
realizada, em Santiago do Chile, a Primeira Conferência Interamericana de 
 
51 Wagner Balera, Introdução à seguridade social, p. 34. 
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Seguridade Social, ocasião na qual foi editada a Declaração de Santiago, 
contendo os objetivos e o conteúdo da seguridade social. 
 
O Reino Unido, como preparação de seu programa de 
reconstrução para o pós-guerra, criou uma comissão interministerial, sob o 
comando de Wiliam Beveridge, para preparar um plano unificando todos os 
sistemas de seguro e de assistência social. Conforme anota José Almansa 
Pastor, a Comissão Beveridge teceu críticas ao seguro social clássico, 
oferecendo uma nova visão sobre o instituto, inspirada na libertação das 
necessidades sociais pela adequada e justa redistribuição de renda. Com 
efeito, o sistema de proteção social não poderia reduzir-se a um mero 
conjunto de seguros sociais, devendo abranger a assistência social, um serviço 
nacional de saúde, ajuda à família e seguros voluntários.52
 
O chamado Plano Beveridge, de 1942, concebeu um 
seguro nacional, cujas características principais são: unificação e 
homogeneidade dos seguros sociais, incluindo os acidentes de trabalho, que 
devem abandonar a proteção baseada na responsabilidade empresarial; 
unificação das contribuições, para a simplificação econômica e 
administrativa, abrangendo todos os riscos; igualdade das prestações e das 
condições para sua aquisição, atendendo mais às necessidades do que aos 
riscos; dar caráter de serviço público à prestações da seguridade social; 
universalização da cobertura e do atendimento; dever de pensar em outras 
fontes de custeio, além do salário, devendo o Estado garantir a parte faltante. 
 
 
52 José Manuel Almansa Pastor, Derecho de la seguridad social, p. 73-74. 
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O Plano Beveridge foi publicado em dezembro de 1942, 
pouco antes do Natal, e algumas semanas após a batalha de El Alamein, que 
se travou no deserto do norte da África.53
 
A imprensa popular teria, inclusive, cunhado a seguinte 
frase para definir o plano: from the cradle to the grave (do berço ao túmulo), 
em uma alusão à cobertura de todas as necessidades humanas, desde o 
nascimento, até a morte. 
 
Houve imediato reconhecimento popular de que o plano 
era dirigido a uma Inglaterra mais igualitária, e Beveridge rapidamente viu 
sua popularidade crescer. 
 
Entretanto, o Partido Conservador logo se manifestou 
contrariamente, considerando o plano por demais distanciado da realidade. 
 
Além do Plano Beveridge, as recomendações da 
Organização Internacional do Trabalho sobre garantia dos meios de 
assistência médica (Declaração de Filadélfia, de 1944) atraíram atenção geral 
quanto a: estender a seguridade social à totalidade da população; reconhecer a 
unidade essencial das funções de garantia dos meios de vida, que até então 
figuravam em regimes diferentes; reconhecer a unidade essencial dos serviços 
sanitários preventivos e curativos; conceder benefícios iguais, pelo menos ao 
mínimo vital, compreendendo o salário-família; manter os princípios do 
seguro e especialmente o da contribuição dos segurados; reconhecer que a 
seguridade social não é possível sem uma política de pleno emprego e não 
constitui mais que uma parte da campanha total para a liberação da 
 
53 Marcus Orione Gonçalves Correia; Érica Paula Barcha Correia, Curso de direito da seguridade 
social, p. 9. 
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necessidade; prever serviços complementares de assistência social, a fim de 
cobrir as necessidades não satisfeitas pelo seguro social.54
 
A idéia de seguridade