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Teoria Geral do Processo Gil Mesquita

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atingir o conhecimento teórico mínimo relativo aos 
três ramos do direito processual (civil, penal e trabalhista)? 
Tourinho Filho, por exemplo, entende que as universidades poderiam 
elaborar um programa onde fossem fornecidos ao aluno ensinamentos a 
respeito de pretensão, lide, formas compositivas do litígio, ação, jurisdição, 
processo, procedimento, pressupostos processuais, sujeitos processuais, 
princípios constitucionais do Direito Processual, organização judiciária, atos 
processuais, seus vícios e teoria geral da prova25. 
Porém, a tendência que restou predominante em nosso país indica que 
o alvo de investigação da Teoria Geral do Processo deverá pautar-se na 
análise da trilogia estrutural do processo, composta pelo estudo da jurisdição, 
da ação e do processo. O entrelaçamento dos três alicerces da trilogia pode 
ser enunciado da seguinte forma: a ação é o instrumento pelo qual o 
interessado aciona a jurisdição, provocando o Estado a manifestar-se sobre 
um conflito de interesses do qual participa, atividade estatal esta que é 
desenvolvida através do processo. 
 
Uma rápida verificação do conteúdo indicado para a Teoria Geral do 
Processo irá nos mostrar que o processo desenvolvido no âmbito do 
Judiciário visando a solução de um litígio conta com a presença destes três 
elementos basilares, como aponta a doutrina; “é inegável que o estudo 
básico de Direito Processual repousa sobre a ação, jurisdição e processo. 
Sem a ação, a jurisdição, inerte que é, não se movimenta e, desse modo, não 
constitui o processo, o que está a demonstrar a importância daquela para o 
conhecimento destes dois últimos institutos. Sem a jurisdição, outrossim, a 
ação não passaria de atividade inócua sem resultados eficazes. O processo, 
por seu turno, consiste no modo de proceder para a eficácia da ação e da 
jurisdição.26” 
O magistério de Piero Calamandrei, indica que “não é possível iniciar 
com utilidade o estudo descritivo e exegético de um Código de direito 
processual, a não ser partindo de três noções fundamentais de ordem 
sistemática, que não estão definidas, mas pressupostas, pelas leis positivas: 
jurisdição, ação, processo.27” Outro professor italiano, Giuseppe Chiovenda, 
defendia que neste aspecto, referindo-se a esta concepção tríplice, o processo 
recebe sua completa significação: “um lado supõe o outro, e nenhum deles 
pode ser estudado isoladamente de uma maneira proveitosa. Assim, na 
ciência do direito processual, resultam três grandes divisões que se 
completam reciprocamente: a teoria da ação e das condições de tutela 
jurídica, a teoria dos pressupostos processuais (propriamente, da jurisdição) 
 
25
 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo penal, vol. 1, p. 26. 
26
 PACHECO, José da Silva. Curso de teoria geral do processo, p. 50. 
27
 CALAMANDREI, Piero. Direito processual civil, vol. 1, p. 93. 
Lições de Teoria Geral do Processo – Gil Ferreira de Mesquita 
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e a teoria do procedimento.28” 
Certo é que alguns autores incluem o estudo da defesa (exceção lato 
sensu) à Teoria Geral do Processo, o que termina por desfigurar a trilogia, em 
nossa opinião. Grande parte da doutrina, no entanto, prefere inseri-la como 
tópico de estudo do direito de ação porque desse é dependente em razão da 
bilateralidade da ação e do processo. Assim, tanto o autor (através da ação) 
quanto o réu (através da exceção) têm direito ao processo, e não há como se 
falar em ação sem se tratar da exceção, principalmente porque temos hoje 
constitucionalmente garantidos o direito ao contraditório e à ampla defesa, 
ambos corolários do devido processo legal (art. 5º, LIV, CF). 
 
7. Processo e Constituição 
 
Modernamente é inegável o profundo vínculo existente entre o direito 
processual e o direito constitucional, principalmente nos países onde os 
ordenamentos foram concebidos durante regimes democráticos. Não 
significa dizer que na vigência do autoritarismo as constituições não tragam 
em seu texto dispositivos destinados a regular matéria processual – tome 
como exemplos as Constituições brasileiras de 1937 e 1967. Contudo, na 
democracia é que o processo torna-se instrumento de realização da justiça, 
torna-se meio para a pacificação da sociedade através da composição dos 
conflitos de interesses. É na democracia que o Judiciário, aplicador do 
direito ao caso concreto, irá exercer suas funções tendo como roteiro 
obrigatório as regras processuais ditadas pela legislação, sobretudo em 
respeito aos princípios gerais do processo, sob pena de proferir decisões 
viciadas. O magistério de Baracho é oportuno: “como a Constituição sofre 
influência do sistema político, as orientações políticas recolhidas nos textos 
constitucionais contribuem, também, no desenvolvimento do processo. As 
vinculações entre o ‘sistema político’ e os ‘sistemas processuais’ são 
evidentes.29” 
Contudo, essa concepção atando por laços fortes o processo e a 
Constituição é recente no direito brasileiro, pois embora todas as Cartas 
tenham trazido uma quantidade razoável de regras processuais – de maneira 
preponderante dirigidas ao processo penal – somente com a Constituição 
Federal de 1988 tais garantias foram efetivamente reconhecidas por todos 
aqueles que operam o direito. A explicação se deve ao fato de que o Brasil 
teve, na verdade, pequenos espaços de tempo em regime de estabilidade 
democrática, o que originava um descrédito natural dirigido às disposições 
constitucionais, principalmente aquelas voltadas a regular o processo e suas 
particularidades, como a atuação do Estado no exercício da função 
 
28
 Cf. ALVIM, José Eduardo Carreira. Elementos de teoria geral do processo, p. 45. 
29
 BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Processo constitucional, p. 129. 
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jurisdicional, as garantias individuais do cidadão, os remédios 
constitucionais etc. 
O pioneirismo da análise envolvendo processo e constituição deve ser 
creditado ao uruguaio Eduardo Couture, que no final dos anos 1940, 
apontava para a união indissolúvel entre processo e Constituição, 
dedicando-se a apurar tal relação principalmente em relação ao processo 
civil. 
Para chegar à conclusão de que não há como a doutrina examinar os 
institutos processuais senão em perspectiva constitucional, utilizou-se dos 
ensinamentos de Hans Kelsen, para quem a ordem jurídica é um sistema de 
normas jurídicas escalonadas em diferentes camadas ou níveis, tendo a 
Constituição como norma fundamental norteadora de toda a legislação 
inferior a ela, incluindo a processual. Assim, o processo seria um 
instrumento da tutela do direito, cuja realização opera-se somente através 
das previsões constitucionais. Neste passo a Constituição pressupõe a 
existência do processo, como garantia de defesa da pessoa humana, sendo 
que os Textos Constitucionais do Século XX, com algumas exceções, 
reconhecem a necessidade de apresentarem proclamação programática de 
princípios do direito processual no conjunto dos direitos e garantias da 
pessoa humana30. 
Correto o entendimento porque na parte dogmática de uma 
Constituição estão contidos os direitos públicos subjetivos que tem o 
governado para se opor ao poder público; se no processo intervém o julgador 
como autoridade e a parte como governado, é claro que as disposições 
constitucionais que regem as relações entre governantes e governados são 
aplicáveis ao processo. 
Para a professora Ada Pelegrini Grinover, todo o direito processual 
possui as linhas