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Teoria Geral do Processo Gil Mesquita

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as específicas do direito processual (Cf. PACHECO, José da Silva, op. cit., p. 
76). 
Lições de Teoria Geral do Processo – Gil Ferreira de Mesquita 
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Penal (art. 1º) ao disciplinar, com algumas ressalvas: “o processo penal 
reger-se-á, em todo o território brasileiro, por este Código.” Por isso mesmo a 
Constituição Federal fixou a competência privativa da União para legislar 
sobre normas de direito processual, válidas em todo o território nacional. 
A manutenção da soberania a que fizemos menção, somente tem razão 
no sentido de impedir que normas de direito processual estrangeiro venham 
a regular processos de competência do Poder Judiciário brasileiro. Porém, os 
atos processuais realizados no exterior e que possuam reflexo no Brasil 
poderão ser reconhecidos e validados por autoridade judiciária local, desde 
que compatíveis com nosso ordenamento, como ocorre com a homologação 
da sentença estrangeira a cargo do Superior Tribunal de Justiça, conforme 
determina o art. 105, I, alínea i, acrescentada pela Emenda Constitucional 
nº 45/2004. 
Na realidade, a questão da soberania é regulada por uma via de mão 
dupla, como aponta a doutrina, porque não há qualquer proibição de que a 
lei processual brasileira vá além dos limites territoriais do país e seja 
aplicada por juízes de outro Estado soberano. Tal impedimento vem das leis 
dos outros países, que também repelem a aplicação de lei processual que 
não a sua16. No direito italiano, v.g., também vigora a territorialidade para 
aplicação da lei processual, como ilustra Giuseppe Chiovenda: “como lei 
reguladora das atividades processuais, a lei processual tem uma aplicação 
circunscrita ao território do Estado, em que elas se exercem (e ao de suas 
colônias, caso não sejam reguladas por leis especiais). Nossa lei permite 
incondicionalmente aos estrangeiros agir na Itália, mas, perante as 
autoridades italianas, procede-se de acordo com a lei processual italiana, 
ainda que estrangeiros sejam os litigantes.17” 
Adotando tal regra, o direito brasileiro instituiu a unidade processual 
em todo o território nacional, ou seja, as normas reguladoras do processo 
serão as mesmas em todo o país, não havendo distinção daquilo que se 
aplica no estado da Bahia daquilo em vigor no Rio Grande do Sul. Não mais 
vigora entre nós a ideia contida na Constituição de 1891, que criou a 
dualidade da legislação processual, competindo à União legislar sobre o 
direito processual da justiça federal (art. 34, nº 23) e dos estados membros 
sobre o processo em geral (art. 63), fazendo surgir os códigos estaduais de 
processo. 
A Constituição Federal de 1988 não deixou dúvidas quanto à 
competência para legislar sobre direito processual, atribuindo 
privativamente tal função à União (art. 22, I). Não quis dizer, porém, que os 
estados membros não tenham competência para legislar sobre matéria 
processual com eficácia em seus territórios, porque cumpre-lhes legislar 
sobre as custas dos serviços forenses (art. 24, IV), procedimentos em matéria 
processual (art. 24, IX), assistência jurídica e defensoria pública (art. 24, 
 
16
 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil, vol. 1, p. 90. 
17
 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil, vol. 1, p. 96. 
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XIII), além de poderem legislar sobre normas de organização da Justiça 
Estadual (arts. 125 e seguintes). 
 
5.3. Eficácia da norma processual no tempo 
 
O Código Civil francês (1804) já estabelecia em seu art. 2º, que “a lei só 
dispõe para o futuro, não tem efeitos retroativos”. Implica em dizer que a lei 
não é criada para disciplinar fatos pretéritos, estendendo seus efeitos apenas 
aos fatos ocorridos após sua entrada em vigor, regra essa que conhecemos 
como irretroatividade da lei. 
Há casos, no entanto, em que admite-se a retroatividade da lei, como 
nas hipóteses expressamente consagradas pela Constituição Federal em seu 
art. 5º, XXXVI (retroatividade permitida desde que não sejam prejudicados o 
direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada), além do conhecido 
exemplo do direito penal, em que a norma poderá retroagir para beneficiar o 
agente (art. 2º, parágrafo único, CP). 
Para o direito processual há uma disciplina legislativa razoável, que 
resolve parte da discussão de direito intertemporal. Por exemplo, o Código de 
Processo Penal (art. 2º) determina que “a lei processual penal aplicar-se-á 
desde logo, sem prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei 
anterior”. Já o Código de Processo Civil (art. 1.211, segunda parte), 
disciplina que suas disposições, ao entrar em vigor, “aplicar-se-ão desde logo 
aos processos pendentes”. 
Assim, o direito processual brasileiro adota o sistema do isolamento dos 
atos processuais, uma vez que a lei nova não atinge os atos processuais 
praticados e seus efeitos, sendo aplicada aos atos ainda não praticados. Esse 
sistema parece-nos melhor do que outros também existentes, como o da 
unidade processual, que considera o processo um todo, de modo que a lei em 
vigor no início do processo deverá ser aplicada até seu final; e o das fases 
processuais, que divide o processo em fases exatas e cada uma delas poderá 
ser regulada por uma determinada lei. 
Esse sistema pode ser contrariado pelo legislador, em situações 
excepcionais, visando uma melhor aplicação da normal processual, pois nem 
sempre a disciplina trazida pela lei nova é a melhor solução. 
Por exemplo, ao editar a “nova lei de falências” (Lei nº 11.101/95) o 
legislador extinguiu o instituto da concordata nos moldes estabelecidos pela 
lei anterior (Decreto-lei nº 7.661/45). Ora, se fosse aplicável a nova lei aos 
processos de concordata em andamento a solução deveria ser a extinção de 
todos eles por sentença judicial, porque se o instituto desapareceu os atos 
processuais a ele aplicáveis também deixaram de existir. 
A solução encontrada nesse caso aproxima-se do sistema da unidade 
dos atos processuais e está prevista no art. 192 da Lei nº 11.101/05: “Esta 
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não lei não se aplica aos processos de falência ou de concordata ajuizados 
anteriormente ao início de sua vigência, que serão concluídos nos termos do 
Decreto-lei nº 7.661, de 21 de junho de 1945”. 
Outras situações que merecem atenção são aquelas que têm sua 
dimensão perpetuada no tempo, de modo que poderão situar-se em 
intervalos regidos por duas leis distintas. Os prazos processuais, por 
exemplo, podem ter início sob a vigência de uma lei e terminarem sua 
contagem na vigência de outra lei. Os recursos podem ser regulados por uma 
lei quando nasceu efetivamente o direito da parte de reclamar da decisão 
judicial, mas no momento em que for exercer na prática o seu direito, a lei 
em vigor é outra. 
Em tais casos, a aplicação da lei nova não é a melhor solução, porque 
tanto a situação prática que proporcionou o início da contagem do prazo 
quanto a que fez nascer o direito ao recurso, estavam sob o império da lei 
antiga, de modo que esta deverá ser observada na disciplina do ato 
processual a ser praticado. Não se deve indagar de benefício ou prejuízo 
trazido pela lei nova, como ocorre no direito penal, pois não se permite a 
retroatividade da lei nova em direito processual. 
 
6. Teoria Geral do Processo 
 
A Teoria Geral do Processo é disciplina introduzida no currículo dos 
cursos jurídicos brasileiros pela Resolução nº 03, de 25 de fevereiro de