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Patricia Vianna Meirelles Freire e Silva - Princípios no Processo Administrativo Previdenciário - Ano 2007

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pluralidade de instâncias; economia processual.
A própria Lei 9.784/99, que trata do processo administrativo
apresenta classificação diversa, apontando em seu artigo 2º os seguintes
princípios: legalidade; finalidade; motivação; proporcionalidade;
moralidade; ampla defesa; contraditório; segurança jurídica; interesse
público e eficiência.
No presente estudo, elaboramos uma classificação em
consonância com a Constituição Federal.
Assim, muito embora reconheçamos que a lei que rege o Processo
Administrativo em âmbito Federal – Lei 9784/99, bem como diversos
autores apresentem uma classificação diversa, o presente trabalho terá
um enfoque tão-somente constitucional.
A realização das atividades administrativas pelos agentes e entes
administrativos, bem como as demais funções estatais são pautadas por
normas específicas para cada setor e por princípios gerais com amplos
campos de atuação. Na atividade administrativa, temos os princípios
jurídicos da Administração Pública Brasileira.
4.1.PRINCÍPIO DA ISONOMIA OU IGUALDADE
Inicialmente, é preciso destacar que o conceito de igualdade pode
ser concebido de acordo, basicamente, com três enfoques: dos
nominalistas; dos idealistas e dos realistas.
De acordo com a primeira concepção, a desigualdade seria
inerente ao próprio universo. Os seres humanos são, por natureza,
desiguais e, desta forma, a igualdade seria algo utópico. Como adeptos
de tal posição, podemos citar Aristóteles e Platão.
Sob um enfoque diametralmente oposto, temos o pensamento dos
idealistas, os quais buscam uma isonomia total e absoluta, vale dizer,
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uma plenitude de igualdade entre os diversos seres humanos. Destaca-se
entre os defensores de tal corrente Rousseau.
Por fim, há uma orientação, realista, a qual muito embora objetive a
igualdade entre os seres humanos, reconhece que eles são desiguais
sob múltiplos aspectos. No entanto, entendem que os indivíduos, em
essência, não podem ser desiguais.
Para eles, na realidade, os homens são iguais, e a desigualdades
existentes são, na verdade, decorrentes de fenômenos sociais, políticos,
morais, religiosos, dentre outros.
O Princípio da Isonomia, juntamente com a legalidade, é princípio
fundamental, sobre o qual se estrutura o Estado de Direito. Em razão dele
a administração está necessariamente obrigada a tratar de forma igual os
cidadãos, sem que haja qualquer espaço para criação de privilégios ou
discrímenes ilógicos e aleatórios.
Referido princípio se encontra previsto no caput do art. 5º da Carta
Constitucional, que impõe tratamento igualitário a todos perante a lei, em
consonância com os critérios albergados pelo ordenamento jurídico.
Na realidade, o que é vedado pelo ordenamento são as
diferenciações arbitrárias, absurdas. O tratamento desigual, nos casos de
desigualdades, torna-se totalmente aceitável, pois tem por escopo
alcançar a própria justiça, isto é, reduzir as desigualdades.
Entretanto, para que as discriminações possam ser consideradas
não discriminatórias, faz-se necessária a presença de uma justificativa
objetiva e razoável. Assim, é imperiosa a existência de uma razoável
relação de proporcionalidade entre os meios empregados e o fim visado.
Acrescente-se, ainda, que aludido tratamento diferenciado somente
será aceitável quando fundado em valores supremos do ordenamento
jurídico, objetivando a concretização dos vetores constitucionais
pertinentes à estrutura do Estado de Direito.
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Celso Antônio Bandeira de Mello164, ao tratar do tema, aponta três
elementos essenciais para que possamos verificar se determinado
tratamento diferenciado representou ofensa à isonomia, são eles: fator de
desigualação; nexo lógico abstrato existente entre o fator erigido em
critério distintivo e a disparidade estabelecida no tratamento jurídico
diversificado e a harmonia desta conexão lógica com os interesses
salvaguardados pelo sistema constitucional.
Assim, para que haja respeito ao princípio em análise, faz-se
necessário examinar o fator adotado como critério desigualador; se houve
fundamento lógico entre o fator escolhido e o tratamento concedido e se,
efetivamente, esta correlação respeitou os valores consagrados pelo
ordenamento posto.
Nesse sentido, pedimos vênia para transcrever a lição de Celso
Antônio Bandeira de Mello:
“Em verdade, o que se tem de indagar para concluir se uma norma
desatende a igualdade ou se convive bem com ela é o seguinte: se o
tratamento diverso outorgado a uns for ‘justificável’, por existir
uma‘correlação lógica’ entre o ‘fator de discrímen’ tomado em conta e o
regramento que se lhe deu, a norma ou a conduta são compatíveis com o
princípio da igualdade, se, pelo contrário, inexistir esta relação de
congruência lógica ou – o que ainda seria mais flagrante – se nem ao
menos houvesse um fator de discrímen identificável, a norma ou a
conduta serão incompatíveis com o princípio da igualdade.”165
Prosseguindo, o autor enfatiza:
“... sempre que a correlação lógica entre o fator de discrímen e o
correspondente tratamento encartar-se na mesma linha de valores
reconhecidos pela Constituição, a disparidade professada pela norma
 
164 Celso Antônio Bandeira de Mello. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade, São
Paulo: Ed. Saraiva, 2001.
165 Idem, in Princípio da Isonomia: Desequiparações Proibidas e Desequiparações
Permitidas, Revista Trimestral de Direito Público, 1/1993, p. 81/82.
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exibir-se-á como esplendorosamente ajustada ao preceito isonômico.
Será fácil, pois, reconhecer-lhe a presença em lei que, ‘exempli gratia’,
isente do pagamento de imposto de importação automóvel hidramático
para uso de paraplégico.”166
Por exemplo, na aposentadoria por idade, nos termos do artigo 48
da lei 8.213, de 24 de julho de 1991, o benefício será devido ao segurado
que, além de atender às demais determinações, completar 65 (sessenta e
cinco) anos de idade, se homem, e 60 (sessenta), se mulher.
Segundo dispõe o § 7º, inc. II, do art. 201 da Constituição da
República, esses limites serão reduzidos em cinco anos para os
trabalhadores rurais de ambos os sexos e para os que exerçam suas
atividades em regime de economia familiar, nestes incluídos o produtor
rural, o garimpeiro167 e o pescador artesanal.
A princípio poder-se-ia falar em tratamento privilegiado para os
trabalhadores rurais. No entanto, como esclarece Sergio Pinto Martins168,
o trabalhador rural tem direito à dita redução de prazo, em razão de sua
atividade, em regra, ser realizada de forma mais penosa. Isto porque ele
presta serviços a céu aberto, sujeito a sol, chuva, frio etc.
Da mesma forma, o princípio da igualdade não significa apenas a
igualdade formal do mesmo tratamento normativo. Vai além, ultrapassa a
mera aplicação indistinta e igualitária da lei. Busca, assim, o princípio que
a lei não viole os valores constitucionais supremos, vale dizer, objetiva a
isonomia substancial.
A igualdade formal é aquela meramente prevista no texto legal. É
uma igualdade puramente negativa, que tem por escopo abolir privilégios,
isenções pessoais e regalias de certas classes. Consiste no fato de a lei
não estabelecer qualquer diferença entre os indivíduos.
 
166 Idem, p.83.
167 Note-se que não obstante o garimpeiro não seja mais segurado especial, para fins de
aposentadoria por idade, a legislação lhe assegura o mesmo tratamento dos segurados
especiais.
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Situa-se, desta