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Priscila Tanaca - O Contrato de Trabalho e Previdência Privada - Ano 2006

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mentar.
A previdência privada complementa a oficial, é facultativa e assegura o mes-
mo padrão de vida e renda dos que aderiram. Nossa previdência social é baseada
nas contribuições dos trabalhadores ativos, sustentando o pagamento dos inativos
(seja aposentadoria ou benefícios). Antigamente essa relação era de um dia para
14 SANTOS, Jerônimo Jesus dos, “Previdência Privada”, Editora Rio de Janeiro, 2005, p. 48.
21
15 trabalhadores na ativa para um aposentado e hoje chega apenas a 2 trabalhado-
res para cada aposentado pelo INSS15 .
Para João Paulo Rodrigues da Cunha16 , o sistema oficial de previdência no Brasil
não tem sido capaz de garantir aos trabalhadores a proteção de sua qualidade de vida
durante a aposentadoria, resultando em que, inexoravelmente, sejam expulsos do mer-
cado consumidor, no momento em que encerram a atividade laborativa.
O regime de previdência complementar passou a ser regulado pela Lei Comple-
mentar nº 109/2001 que revogou a Lei nº 6.435/1977. Ao contrário de outras experiências
de países vizinhos17 , prevalece a manutenção da Previdência Social como sendo o regi-
me obrigatório e solidário – sustentação central do Sistema Previdenciário.
O objetivo a ser alcançado com a previdência complementar, segundo exposição
de Motivos da Lei Complementar 109, é o de funcionar como instrumento de poupança a
longo prazo, poupança considerada socialmente mais desejável por estimular o desen-
volvimento econômico, do que a poupança a curto prazo.
“(...) a previdência complementar trabalha com compromissos
intergeracionais, a presente proposta de lei complementar busca dotar o re-
gime de flexibilidade, evitando o atual ‘engessamento’ de regras num diplo-
ma legal desta envergadura, de forma que possamos estabelecer condições
para uma expansão sustentada da poupança coletiva. Desse modo, estarão
estabelecidas as condições para a modernização do regime de previdência
complementar, com seus reflexos positivos em relação ao aumento da pou-
15 Op. cit. p. 50.
16 “(In)Aplicabilidade do Código de Defesa do Consumidor às Entidades Fechadas de Previ-
dência Privada”, Revista de Previdência Social, nº 273, ago/2003, p. 663.
17 Chile: a administração da previdência pública passou para um sistema de capitalização
individual administrado por instituições privadas. Argentina: a previdência oficial foi abando-
nada e criou-se um modelo misto – público e privado – e ao contribuinte faz a opção. Os
que escolherem a administração privada pouparão 11% do seu salário e podem aplicar no
fundo de pensão de sua escolha.
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pança agregada, bem como pelo estímulo aos investimentos que demandam
financiamentos de médio e longo prazo e sua relevante contribuição para
melhoria do nível de emprego.”18
O regime privado tem a intenção de dar segurança e adequada proteção social,
mediante os planos de renda e benefícios que permitirão a aproximação dos rendimen-
tos da vida ativa do trabalhador, mantendo o mesmo patamar de vida futuramente, na
inatividade.
 E essa busca, para garantir um melhor futuro, também se observa em outros países
como na Itália conforme explica o jurista italiano Mattia Persiani:
“Já há algum tempo, contudo, e cada vez com mais freqüência, o interes-
se dos trabalhadores em ver garantidos tratamentos de pensão apropria-
dos, de modo a manter quase inalterado o seu padrão de vida alcançado
durante a atividade laboral, foi atendido com a instituição - por obra da auto-
nomia coletiva - de regimes previdenciários integrativos, freqüentemente
(mas nem sempre) empresariais. Mesmo ali onde formas de previdência de
gestão empresarial eram instituídas com regulamentos administrativos em-
presariais, estas foram sucessivamente contratadas com as organizações
sindicais e, portanto, são de natureza a reconduzir à autonomia coletiva”19 .
18 Item 4 da Exposição de Motivos da Lei Complementar 109/2001.
19 PERSIANI, Mattia. “Diritto della Previdenza Sociale”. Editora Cedam, 2005. (tradução livre) , p. 43.
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2. CONCEITO
A seguridade social brasileira apresenta três regimes diversificados: regime ge-
ral promovido pelo Poder Público que garante as necessidades básicas dos beneficiários;
o regime próprio dos servidores públicos e os regimes privados colocados à disposição
dos particulares.
Conforme explica o professor Wagner Balera20 , a seguridade social terá duas
vias de proteção do tipo previdenciário: a) via básica (seguro social, que compreende a
proteção dos trabalhadores em geral, servidores públicos e dos dependentes desses
dois grupos); e b) via complementar (seguro facultativo do tipo aberto ou fechado)
O Regime de Previdência Complementar, integrado pelas entidades abertas e
entidades fechadas, juntamente com o Regime Geral de Previdência Social caminham
paralelamente autônomos e harmônicos entre si.
Assim, consideramos que o regime de previdência complementar será: FACUL-
TATIVO, CONTRATUAL, AUTÔNOMO e COMPLEMENTAR.
O regime de previdência privada é complementar na medida em que atua parale-
lamente à previdência social, sem intenção de substituí-la.
Conforme explicação de Arthur Bragança de Vasconcellos Weintraub21 , “o termo
‘complementar’ é mais apropriado ao tema do que o conceito de subsidiário. (...) a Pre-
20 “Aspectos Jurídicos dos Fundos Multipatrocinados de Previdência Complementar”, Revista de Pre-
vidência Social, nº 267, fev/2003, p. 131.
21 “Não Subsidiariedade e Complementariedade”, Revista de Previdência, vol. nº 261, ago/2002, p.
683.
24
vidência Privada tem um caráter completivo, ou suplementar em relação à Previdência
Social.” Não podendo ser aceito o conceito de subsidiariedade já que este termo tem o
sentido de secundário, que reforça um outro de maior importância. Mas complementar
traz a idéia de um complemento de algo principal.
O regime complementar de previdência visa alargar a proteção do campo material
da proteção dos sistemas públicos. O crescimento da previdência privada já é fato em
outros países e hodiernamente no Brasil22 . Assim, são pertinentes os escritos do pro-
fessor Ilídio das Neves: “A legitimidade e a necessidade de intervenção de formas
privadas de segurança social não devem ser definidas pela negativa, isto é, não têm
que ver apenas com a crise, suposta ou real, presente ou futura, dos sistemas oficiais,
mas com a própria natureza, e vários títulos estruturalmente limitada, destes mesmos
sistemas (...)”23
O professor Wagner Balera24 :
“Ao regime complementar, por seu turno, compete proporcionar planos de
proteção que atendam à demanda daquela parcela da comunidade cujas ren-
das se situem acima dos limites de proteção estabelecidos pelo regime geral
e pelo regime próprio. As entidades que poderão compô-lo classificam-se
em fechadas e abertas.”
É facultativo, pois o participante tem a liberdade de decidir ou não a sua filiação.
Dessa aceitação acarretará a obrigação de arrecadar suas contribuições voluntariamente,
diferentemente da compulsoriedade da contribuição ao Regime Geral.
A sua autonomia decorre da própria Carta Magna que instituiu no caput do art.
22 Jornal Estadão do dia 08.12.2004 – “No acumulado de 2004, o aporte de novos recursos totalizou R$
14,5 bilhões, o que representa uma alta de 31,13% sobre o mesmo período do ano passado. A
expectativa da entidade é de que as captações da previdência atinjam R$ 17 bilhões até o fim do
ano.”
23 NEVES, Ilídio. “Direito da Segurança Social”, Editora Coimbra 1996, p. 56.
24 “Sistema de Seguridade Social”. Editora LTR, 2001, p. 10.
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202 ser o regime de previdência privada “organizado de forma autônoma em relação ao
regime geral de previdência social.”
A autonomia da previdência privada também pode ser observada com bastante
clareza no texto da Súmula 92 do STJ que estabelece: “O direito à complementação de
aposentadoria, criado pela empresa, com requisitos próprios, não se altera pela insti-