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Priscila Tanaca - O Contrato de Trabalho e Previdência Privada - Ano 2006

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utilizando, para explicar, todas as
formas de associação humana. O contrato não é só contrato de governo que rege as
relações entre governante e seu povo, mas é também um contrato social no sentido mais
amplo, como acordo tácito que fundamenta toda comunidade e que leva os indivíduos a
52 Apud Ronaldo Porto Macedo Jr. “Contratos relacionais e defesa do consumidor”, Editora Max Limonad,
p. 97.
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conviver. Esta teoria foi usada por Locke para defender a revolução liberal inglesa de
1688. Locke fala do contrato como acordo entre homens para “unirem-se numa socieda-
de política”; por isso, define-o como “pacto que existe e deve necessariamente existir
entre indivíduos que se associam ou fundam um Estado”. Hoje, a idéia fundamental de
contratualismo não é mais incorporada como pelos filósofos do séc. XVIII, mas fazemos
o uso que as ciências e a filosofia fazem dos conceitos, como convenção, acordo, com-
promisso, a noção de contrato talvez pudesse ser retomada para análise da estrutura
das comunidades humanas, com base na noção da reciprocidade de compromissos e
do caráter condicional dos acordos dos quais se originam direitos e deveres.53
Atualmente o contrato se faz cada vez mais presente na vida cotidiana, desde
um contrato internacional até um simples contrato de locação, representando o centro da
vida dos negócios. É o instrumento jurídico que atua sob as mais variadas finalidades da
vida econômica, que se compõe de interesses de vontades inicialmente opostas, mas
que colidem e, ao mesmo tempo, se unem caminhando para um mesmo fim. Segundo o
jurista francês Denis Mazeaud54 que sustenta, no que tange à tutela da parte mais débil
das relações contratuais paritárias, que o contrato deve ser o repositório do interesse
comum dos contratantes, não se constituindo, portanto, nem o assento de individualismo
exacerbado, nem, tampouco, de um altruísmo contrário aos interesses particulares dos
respectivos parceiros contratuais. Em nome de uma ética contratual que conjugue as
virtudes da lealdade e da solidariedade – as quais não se mostram incompatíveis com
os imperativos de previsibilidade e segurança – esta união de interesses convergentes,
que se constitui no contrato, deve obrigatoriamente traduzir-se pelo respeito mútuo dos
parceiros e por um equilíbrio contratual mínimo.
Assim, observamos que o contrato é o acordo entre duas ou mais vontades, na
conformidade da ordem jurídica, destinado a estabelecer uma regulamentação de inte-
resses entre as partes, contendo dois elementos básicos, conforme ensina a professora
53 Abbagnano, Nicola. “Dicionário de Filosofia”, Editora Martins Fontes, 1998, p. 672.
54 Apud Eduardo Messias Gonçalves de Lyra Júnior citando MAZEAUD, in “Les Clauses Abusives
entre Professinnels”. Paris Economica, 1998, p, 76.
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Maria Helena Diniz55 :
- Estrutural – refere a alteridade, pois o contrato sendo um negócio jurídico bilate-
ral (ou plurilateral), requer a fusão de duas ou mais vontades contrapostas. É imprescin-
dível a intervenção de duas ou mais pessoas que se põem de acordo sobre determinado
objeto, por ser o contrato negócio jurídico bilateral ou plurilateral, que vincula os contraentes
à observância de comportamento idôneo à satisfação dos interesses que regularam.56
- Funcional – composto por interesses contrapostos, mas harmonizáveis entre as
partes, constituindo, modificando e solvendo direitos e obrigações na área econômica.
O contrato tem seus diferentes tipos, de acordo com os interesses das partes, (por exem-
plo interesse em locar um imóvel, teremos o contrato de locação; a vontade de comprar
um bem, temos o contrato de compra e venda) exercendo função econômica específica,
com intuito de atingir fins ditados pelos interesses patrimoniais dos contratantes.
Embora a base seja o interesse das partes, a liberdade contratual não pode ser
desmedida, pois nem tudo que se estipula num contrato é justo. Assim, o ordenamento
jurídico representa o trilho que ordenará o caminho pelo qual as contraentes deverão
seguir.
Não havendo vício de ilegalidade constante de cláusula do contrato, em razão de
estipulação contratual que se apresente contra a prescrição legal correspondente e apli-
cável a dada situação concreta, as partes baseadas no princípio da autonomia da vonta-
de terão liberdade para dispor do contrato. O art. 425 do Código Civil estabelece que:
“É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas ge-
rais fixadas neste Código”.
Enquanto mantidos e atendidos os pressupostos de legalidade do contrato e de
55 Diniz, Maria Helena. “Curso de Direito Civil Brasileiro”, vol. 3, Editora Saraiva, 2001, p. 72.
56 Segundo definição romana de Ulpiano o contrato é: “est pacto duorum pluriumve in idem placitum
consensus”, ou seja, o mútuo consenso de duas ou mais pessoas sobre o mesmo objeto.
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suas disposições, as partes devem observar e cumprir o contrato como se estivessem
diante de uma lei imperativa, com todos os pressupostos de obrigatoriedade e
executoriedade coercitiva que da lei poderiam diretamente derivar.
3.2. Contrato no Ordenamento Jurídico Brasileiro
Os princípios e normas gerais que regem e orientam os efeitos das relações
contratuais, constantes do Código Civil de 2002, seguindo a secular formação das
institutas do direito romano, praticamente permaneceram inalterados. O Código Civil
de 2002 trouxe poucas modificações neste aspecto. Uma das mais relevantes altera-
ções foi a reunificação das obrigações com o núcleo da matéria contratual de direito
privado passando a ser regida pelo novo Código, ficando revogada toda a primeira
parte do Código Comercial de 1850. Em linhas gerais, a estrutura e os princípios do
direito contratual permaneceram praticamente inalterados no que se refere aos efeitos
do contrato.
Os contratos em geral estão disciplinados no “Título V”, arts. 421 a 480 do
Código Civil. Uma das novidades inseridas no códex civil foi o art. 421 que estabelece
a liberdade de contratar exercida em razão e nos limites da função social do contrato.
Essa norma representa uma inovação formal diante do Código Civil de 1916, ao vincu-
lar o princípio da autonomia da vontade à exigência teleológica de que o contrato deve
cumprir uma função social, além de servir como instrumento de regulação privada do
comportamento dos contratantes. O princípio da função social do contrato tem como
fundamento de validade o art. 170, III da CF, estabelecendo que o exercício dos direi-
tos de propriedade deverão respeitar e se harmonizar com os princípios constitucio-
nais supra-ordenadores, como os direitos individuais (art. 5º), sociais (art. 7º) e justiça
social (art. 170). Assim, a liberdade de contratar esta limitada pelas exigências de
ordem pública e as demais relacionadas ao bem comum. Citamos, nesse sentido,
Pontes de Miranda:
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“O direito tinha de considerar vinculadas as pessoas que se inseriram,
como figurantes, em negócio jurídico bilateral ou plurilateral, tendo, porém,
de investigar se houve ou não ofensa a interesses gerais ou a interesses de
outrem.”57
Para o professor Miguel Reale, o contrato nasce de uma correlação essencial
entre o valor do indivíduo e o valor da coletividade. Em sua visão:
“O contrato é um elo que, de um lado, põe o valor do indivíduo como aquele
que o cria, mas, de outro lado, estabelece a sociedade como lugar onde o contra-
to vai ser executado e onde vai receber uma razão de equilíbrio e medida.” 58
3.2.1. Requisitos
Sendo o contrato um negócio jurídico são exigidos para sua validade, segundo o
art. 104 do Código Civil:
- agente capaz;
- objeto lícito, possível, determinado ou determinável;
- forma prescrita ou não defesa em lei.
Além desses requisitos essenciais, para configurar a validade do negócio jurídico
será necessária a presença dos requisitos subjetivos, objetivos e formais para que o con-
trato seja válido.59
57 MIRANDA,