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Ricardo de Castro Nascimento - Ato Administrativo de Concessão de Benefício - Ano 2006

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admitindo-se, no entanto, possa ser feita 
mediante postado”. (RE 140.618-6, STF, rel. Min. Marco Aurélio, DJU 25.08.95, p. 
26.027.) 
 
 
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No âmbito federal, a Lei nº 9.784/99, que regulou o 
processo administrativo, disciplinou a intimação do interessado (197), 
aqui entendida como espécie do gênero notificação. 
6 – Finalidade 
A finalidade perseguida no ato administrativo deve 
estar inserida no desempenho da função administrativa e contemplada 
no ordenamento jurídico. O fim perseguido deve estar em consonância 
com o interesse público maior. 
 
(197) Art. 26. O órgão competente perante o qual tramita o processo administrativo 
determinará a intimação do interessado para ciência de decisão ou a efetivação de 
diligências. 
§ 1o A intimação deverá conter: 
I. identificação do intimado e nome do órgão ou entidade administrativa; 
II. finalidade da intimação; 
III. data, hora e local em que deve comparecer; 
IV. se o intimado deve comparecer pessoalmente, ou fazer-se representar; 
V. informação da continuidade do processo independentemente do seu 
comparecimento; 
VI. indicação dos fatos e fundamentos legais pertinentes. 
§ 2o A intimação observará a antecedência mínima de três dias úteis quanto à data 
de comparecimento. 
§ 3o A intimação pode ser efetuada por ciência no processo, por via postal com 
aviso de recebimento, por telegrama ou outro meio que assegure a certeza da 
ciência do interessado. 
§ 4o No caso de interessados indeterminados, desconhecidos ou com domicílio 
indefinido, a intimação deve ser efetuada por meio de publicação oficial. 
§ 5o As intimações serão nulas quando feitas sem observância das prescrições 
legais, mas o comparecimento do administrado supre sua falta ou irregularidade. 
Art. 27. O desatendimento da intimação não importa o reconhecimento da verdade 
dos fatos, nem a renúncia a direito pelo administrado. 
Parágrafo único. No prosseguimento do processo, será garantido direito de ampla 
defesa ao interessado. 
Art. 28. Devem ser objeto de intimação os atos do processo que resultem para o 
interessado em imposição de deveres, ônus, sanções ou restrição ao exercício de 
direitos e atividades e os atos de outra natureza, de seu interesse. 
 
 
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A finalidade distingue-se do motivo; este é 
precedente ao ato, e aquela sucede à prática do ato. “Tanto motivo 
como finalidade contribuem para a formação da vontade da 
Administração: diante de certa situação de fato e de direito (motivo), a 
autoridade pratica certo ato (objeto) para alcançar determinado 
resultado (finalidade)” (198). O motivo é precedente ao ato; a 
finalidade, posterior. 
Cada espécie de ato administrativo, além da 
finalidade pública mais ampla, tem também finalidade específica 
prevista em lei, cuja inobservância implica desvio de poder. Assim, no 
exemplo já clássico, a remoção do servidor público só deve ocorrer na 
hipótese de necessidade de serviço e não como forma de punição. Se 
a Administração pretende, diante da falta do servidor, puni-lo, deverá 
instaurar o competente processo administrativo disciplinar que, após o 
devido processo legal, poderá culminar com a aplicação de penalidade, 
veiculada no respectivo ato administrativo típico. A finalidade específica 
da remoção não é punir o servidor, mas sim atender a necessidade de 
serviço. 
A teoria do desvio de poder tem campo fértil nos 
atos em que a vontade psicológica do agente prepondera, ou seja, nos 
atos discricionários. André Gonçalves Pereira exclui, inclusive, a 
finalidade do rol dos elementos do ato administrativo, sob a alegação de 
 
(198) Maria Sylvia Zanella Di Pietro. Op. cit., p. 194. 
 
 
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que ela só tem relevância nos atos discricionários, ou seja, não é 
essencial em todos os atos administrativos (199) 
O vício na finalidade, ou sua dissonância com o 
interesse público, leva à revogação do ato discricionário (200) e à 
invalidação do ato vinculado. A finalidade tem relevância especial no 
estudo do ato discricionário, no qual o espaço da vontade do agente 
público emissor do ato é maior, podendo encobrir finalidades contrárias 
ao interesse público. 
O desvio de poder acontece quando o agente, em 
mau uso de competência, utiliza-se de ato para satisfazer finalidade 
alheia à natureza do próprio ato. A finalidade não precisa ser 
necessariamente alheia ao interesse público; basta que seja diversa 
da prevista, explícita ou implicitamente, em lei para o ato utilizado. José 
Cretella Júnior define desvio de poder como “o uso indevido, que a 
autoridade administrativa, dentro de sua faculdade discricionária, faz da 
“potestas” que lhe é conferida, para atingir finalidade, pública ou 
privada, diversa daquela que a lei preceituara” (201). 
A invalidação de ato administrativo por desvio de 
poder tem sua grande dificuldade na comprovação do vício, pois não se 
trata de apreciar objetivamente a conformidade do ato com o 
 
(199) Op. cit., p. 108. 
(200) Daniele Coutinho Talamini. Revogação do Ato Administrativo. 
(201) Tratado de Direito Administrativo, vol. II, p. 250. 
 
 
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ordenamento jurídico, mas sim de investigar as intenções subjetivas do 
agente, quase sempre de difícil percepção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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ATO DE CONCESSÃO DE BENEFÍCIO 
 
 
1 – Risco Social Protegido 
A previdência social, devido ao caráter contributivo, 
visa dar proteção social a uma coletividade delimitada e composta de 
segurados, que contribuem previamente para o sistema, e seus 
dependentes. Tal caráter implica mínima capacidade econômica da 
comunidade protegida, que a habilite a contribuir para o sistema, 
capacidade essa expressa na remuneração percebida pelo trabalho. 
Todo aquele que percebe remuneração decorrente do trabalho é 
segurado obrigatório de um regime previdenciário e, por conseqüência, 
também é obrigado a contribuir para o regime. 
Ao contrário, os outros ramos da seguridade social 
não requerem contribuição prévia. A saúde tem toda a sociedade como 
coletividade protegida, pois, nos termos da Constituição (202), é direito 
 
(202) Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante 
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de 
 
 
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de todos, independente de prévia contribuição, e dever do Estado. Na 
mesma trilha, a assistência social também é direito de todo cidadão que 
não possui meios de sobrevivência, e é também dever do Estado, sem 
necessidade de contribuição prévia ao sistema (203). 
O serviço público de previdência social oferece à 
coletividade protegida (segurados e dependentes) comodidade material 
fruível individualmente e materializada em prestações, que se dividem 
em benefícios (204) e serviços (205). Benefício constitui pagamento 
mensal em dinheiro - obrigação de dar - (206), ao segurado ou 
dependente, que substitui ou complementa o rendimento do trabalho, 
quando da ocorrência dos riscos sociais previstos em lei. O serviço - 
obrigação de fazer - constitui prestação que não envolve pagamento em 
dinheiro, tais como serviço social (207) e reabilitação profissional (208). 
 
outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua 
promoção, proteção e recuperação. 
(203), Miguel Horvath Júnior. Direito Previdenciário,