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Ricardo de Castro Nascimento - Ato Administrativo de Concessão de Benefício - Ano 2006

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Os sistemas beveridgeanos, ao 
contrário, protegem os indivíduos enquanto membros da coletividade, 
sem dependência de sua atividade profissional; o direito à seguridade 
social apresenta-se como direito do cidadão. 
 
(28) Carlos Alberto Etala. Op. cit., p. 14. -- T.A. 
(29) José Manuel Amansa Pastor. Derecho de la Seguridad Social, p. 73. -- T.A. 
 
 
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b-) No tocante ao âmbito de proteção, o sistema 
bismarkiano visa garantir o salário dos trabalhadores, prevendo a 
possibilidade de que diversos riscos levem à sua supressão; os 
benefícios configuram remuneração indireta do trabalho, salário diferido 
ou, em certos casos, sobre-salário familiar. O sistema beveridgeano, 
em virtude de sua amplitude subjetiva, pretende libertar o homem da 
necessidade e garantir um nível de sobrevivência uniforme, 
independente do valor das contribuições prévias, sem prejuízo de 
eventual complementação de caráter securitário; as prestações 
adquirem caráter assistencial, que pouco ou nada tem que ver com o 
salário. 
c-) em relação ao financiamento, o sistemas 
bismarkiano baseia-se em contribuições de empregadores e 
trabalhadores, com reduzida solidariedade profissional e em conexão 
com os salários; só há direito ao benefício se houve contribuição em 
montante e duração suficiente para capitalizar um fundo, a fim de arcar 
com o valor das prestações. O sistema beveridgeano baseia-se em 
uma solidariedade geral e profissional, financiando a proteção mediante 
impostos comuns e especiais; as prestações implicam uma 
redistribuição geral de renda, mediante a repartição global da carga 
entre toda a população e grupos profissionais. 
d-) em relação à gestão, a própria técnica do 
sistema bismarkiano, herdada dos seguros privados, permite a 
 
 
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pluralidade de entes, tanto quanto os riscos, ficando a gestão 
organizada como uma empresa de seguros, com princípios próprios. O 
sistema beveridgeano supera as técnicas securitárias jurídico-privadas e 
confia a gestão unicamente ao Estado ou a um ente instrumental; o 
sistema aparece como um serviço público. As diferenças básicas dos 
dois sistemas podem ser resumidas no quadro abaixo: 
 SISTEMA 
BISMARKIANO 
SISTEMA 
BEVERIDGEANO 
Sujeitos 
protegidos 
Trabalhadores. Direito 
derivado do trabalho. 
Coletividade, 
independente de 
contribuição. Direito 
do cidadão. 
Âmbito de 
proteção 
Garantir o salário 
suprimido, em virtude da 
ocorrência de risco social 
previsto em lei. 
Garantir um nível 
uniforme de 
sobrevivência. 
Valor dos 
benefícios 
Varia de acordo com o 
montante das 
contribuições. 
Não tem relação com 
contribuições prévias. 
Financiamento Contribuições dos 
empregadores e 
trabalhadores, tendo o 
salário como base de 
cálculo. 
Impostos 
Gestão Técnicas securitárias Estatal 
 
 
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5 – Primeiros Passos no Brasil 
Já nos primórdios da colonização, a assistência 
social esteve presente com a fundação da Santa Casa de Misericórdia 
de Santos, por Brás Cubas, em 1543. A assistência aos pobres era 
arcada basicamente por iniciativas isoladas, oriundas da própria 
sociedade e não do Estado. 
A Carta Imperial de 1824 trouxe a primeira 
manifestação constitucional sobre seguridade social, no art. 179, XXXI, 
que fazia menção à obrigação do Estado em relação aos chamados 
“socorros públicos” (30), expressão mais vinculada à assistência social. 
Em termos previdenciários, não se tem notícia de qualquer 
conseqüência prática derivada do dispositivo constitucional. 
Nos estertores do Império, vieram a lume as duas 
primeiras manifestações legislativas de conteúdo previdenciário. O 
Decreto nº 9.912-A, de 26 março de 1988, regulou o direito à 
aposentadoria dos empregados dos correios, fixando os requisitos de 
trinta anos de serviço efetivo e idade mínima de sessenta. A Lei nº 
3.397, de 24 de novembro de 1888, previu a criação de uma Caixa de 
Socorros para os trabalhadores das estradas de ferro do Estado, 
 
(30) Art. 179. A inviolabilidade dos Direitos Civis, e Politicos dos Cidadãos Brazileiros, 
que tem por base a liberdade, a segurança individual, e a propriedade, é garantida 
pela Constituição do Imperio, pela maneira seguinte (sic). 
(...) 
XXXI - A Constituição garante os socorros públicos. 
 
 
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regulando pela primeira vez a proteção social da categoria profissional, 
posteriormente o principal alvo do início da previdência social no país. 
Após a proclamação da república, ainda no governo 
provisório do Marechal Deodoro da Fonseca, o Decreto nº 221, de 26 de 
fevereiro de 1890, dispôs sobre a aposentadoria dos trabalhadores da 
Estrada de Ferro Central do Brasil, benefício posteriormente estendido a 
todos os ferroviários. 
A Constituição Republicana de 1891 não 
apresentou dispositivos gerais pertinentes à previdência social, 
limitando-se a estabelecer o direito à aposentadoria restrita a servidores 
públicos invalidados a serviço da nação. O artigo 75 (31) constituiu o 
primeiro dispositivo constitucional em matéria de previdência social no 
sentido estrito, pois fez menção expressa à aposentadoria. 
6 - Caixas de Aposentadoria e Pensões 
Na década de vinte, impulsionada pelo Tratado de 
Versalhes, a legislação social expandiu-se para além das fronteiras 
européias, chegando à América Latina. Em 24 de janeiro de 1923, veio 
a lume a Lei nº 4.682, mais conhecida pelo nome do propositor, o 
 
(31) Art. 75. A aposentadoria só poderá ser dada aos funcionários em caso de 
invalidez no serviço da Nação. 
 
 
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deputado paulista Elói Chaves (32). Trata-se do grande marco do 
surgimento da previdência social no país, ainda que restrito aos 
 
(32) Lei Elói Chaves - Tornou-se assim conhecida, em homenagem ao autor do projeto 
nela transformado, a lei de 24 de janeiro de 1923 que deu início à previdência 
social brasileira. 
Alguns especialistas apontam outros marcos iniciais, porém a questão ficou 
decidida em definitivo quando em 1960 foi instituído o “Dia da Previdência Social”, 
que se comemora a 24 de janeiro. Também se comemora nessa data o “Dia do 
Aposentado”, instituído em 1988. 
Cabem duas observações de natureza formal sobre essa lei. A primeira é que, 
embora a bibliografia a seu respeito fale sistematicamente em “decreto legislativo”, 
no ato que a consubstancia, assinado pelo então presidente Artur da Silva 
Bernardes e dois ministros, lê-se apenas “Decreto nº 4.682, de 24 de janeiro de 
1923”. 
A segunda diz respeito à ementa, assim redigida: 
“Cria, em cada uma das empresas de estradas de ferro existentes no país, uma 
caixa de aposentadoria e pensões para os respectivos empregados.” 
Apesar dessa redação, repetida no Art. 1º (“Fica criada em cada uma das 
empresas...”), a Lei Elói Chaves não criou as Caixas, e dificilmente poderia criá-
las, porém determinou a sua criação. Isso só começou a ocorrer quando foram 
instaladas, dois meses depois de promulgada a lei, as duas primeiras Caixas, a da 
São Paulo Railway e a da Viação Ferroviária do Rio Grande do Sul. 
A iniciativa deveu-se ao industrial paulista Francisco Pais Leme de Monlevade, 
que levou o então deputado federal Elói Chaves a apresentar seu pioneiro projeto, 
inspirado em parte na então recente legislação argentina sobre a matéria e 
aprovado após esforços seus e de alguns lideres trabalhistas, no ambiente pouco 
favorável da época. 
Ao que tudo indica com acerto, atribui-se o início de nossa previdência social no 
setor