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Suzani Andrade Ferraro - Equilibrio Financeiro e Atuarial nos Regime de Previdência Social - Ano 2010

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para a obtenção do direito à percepção das prestações previdenciárias – os benefícios previdenciários e os serviços sociais (prestações). Conseqüentemente, se não há contribuição para o Regime Geral de Previdência Social, nenhum segurado terá direito ao recebimento dos benefícios previdenciários.
			Ademais, com a inclusão do inciso XI ao artigo 167 da CF, que veda a utilização de recursos provenientes das contribuições do empregador e do trabalhador para outros fins diversos do pagamento de benefícios, o legislador constitucional adotou uma diretriz de especialização das fontes e estabeleceu uma reserva mínima à Previdência Social.
			É mister destacar a alteração do artigo 195, incisos I e II, pela EC n. 20, que ampliou as fontes de custeio do regime geral ao acrescentar ao inciso I a obrigatoriedade de contribuição pelo empregador, empresa e entidade a ela equiparada, e mais as alíneas a, b, e c, que determinam a cobrança de contribuições sobre a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados à pessoa física e também sobre os decorrentes de prestação de serviço mesmo sem vínculo empregatício, sobre a receita ou o faturamento e sobre o lucro. 
			No que se refere, ainda, às alterações do artigo 195, a segunda parte do inciso II isenta de contribuição os benefícios de aposentadoria e pensão concedidos pelo Regime Geral de Previdência Social. No entanto, o § 12 do artigo 40 da Carta Magna introduzido pela EC n. 20/98 reforça a remissão da segunda parte do inciso II, do artigo 195, que prevê a não-inclusão dos servidores do setor público ao critério de isenção do pagamento de contribuição de aposentados e pensionistas. Aduz o artigo:
			Art. 40 – [...]
			§ 12 – Além do disposto neste artigo, o regime de previdência dos servidores públicos titulares de cargo efetivo observará, no que couber, os requisitos e critérios fixados para o regime geral de previdência social.
			O legislador constitucional objetivou a segurança jurídica dos segurados filiados ao Regime Geral de Previdência Social e autorizou à União, no artigo 250 da Constituição Federal, complementar sua arrecadação ao constituir fundo integrado por bens, direitos e ativos de qualquer natureza mediante lei para assegurar recursos para pagamento dos benefícios.
			O RGPS está estruturado pelo regime financeiro de repartição simples[20] e tem por base um plano de benefício definido. Não há capitalização. Toda arrecadação é utilizada para pagar os benefícios atuais da previdência e para manter o equilíbrio financeiro e atuarial do regime. Embora tenha caráter contributivo, é informado pelo princípio da solidariedade.[21] Esta é chamada solidariedade intergerações e sua premissa pressupõe que o esforço geral de todos os segurados beneficie aqueles mais necessitados. O benefício está limitado a um valor mínimo e um máximo (salário-de-contribuição).[22] O critério de reajuste é previsto na lei, sem vinculação entre os benefícios pagos e os salários recebidos pelos empregados em atividade.
			O RGPS é administrado pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS),[23] responsável pela arrecadação das contribuições previdenciárias pagas pelos segurados obrigatórios sobre a remuneração recebida e dos segurados facultativos. Concede e mantém os benefícios previdenciários, bem como os benefícios assistenciais pagos aos idosos e pessoas de baixa renda portadoras de deficiências.[24]
			3.2.2. O regime próprio do servidor público
			A origem do regime previdenciário dos servidores públicos está vinculada à relação de trabalho pró-labore facto, em que a aposentadoria não decorre da contribuição, mas da vinculação de servidor público.[25]
			O sistema dos servidores públicos teve início no Império para a proteção gratuita de determinadas categorias funcionais na época que foram instituídos o Montepio do Exército, em 1827, e o Montepio Geral da Economia, em 1935. A partir da Constituição Federal de 1891, o sistema próprio foi aprimorado, mas manteve o financiamento exclusivo pelo Estado, sem participação dos servidores. O artigo 75 da referida Carta Magna foi o primeiro dispositivo constitucional a se referir à proteção social, por meio do pagamento de um benefício.[26]
			No período da proclamação da República, aumentou-se a proteção previdenciária do Estado de algumas categorias de servidores públicos civis, sendo contemplados os servidores civis do Ministério da Guerra e do Arsenal da Marinha (Dec. n. 9.212-A, de 26/03/1888), o Fundo de Pensões do Pessoal da Imprensa Nacional (Dec. n. 10.269, de 20/07/1889), a Caixa de Socorros dos Correios em cada uma das Estradas de Ferro do Império (Lei n. 3.397, de 24/11/1888). Também foram contemplados por atos legislativos o Montepio Obrigatório dos Empregados da Fazenda Pública (Dec. n. 942-A, de 31/10/1890).[27]
			O servidor público inativo recebe os proventos de aposentadoria do Estado da mesma forma que o servidor na ativa. Ou seja, ao contrário da iniciativa privada que cessa o vínculo com o empregador após a aposentadoria e o INSS assume o pagamento das aposentadorias, o Estado assume duas obrigações: a de pagar o servidor ativo e daquele que passou para a inatividade, com base nas variações salariais.[28]
			As bases desse sistema residem na visão patrimonialista do Estado. As primeiras categorias a se beneficiarem com a Previdência Social foram as que mantinham a base de formação do Estado, ou seja, os militares e os que tinham as funções de administrar, judicar e legislar. Representavam aquelas categorias que estavam mais ligadas ao Estado em sua estrutura patrimonialista, cuja administração nada mais era do que a extensão da vontade do monarca. 
			Os servidores eram, assim, chamados por servirem ao soberano; seus cargos eram vitalícios, recebiam seus rendimentos diretamente do Estado e, dessa maneira, permaneciam após a inatividade. Com o objetivo de amparar os dependentes dos servidores, foram criados os Montepios e os Institutos de Pensão, cujo pagamento das aposentadorias era custeado pelo Estado.
			Na década de 30, já no século XX, várias organizações econômicas passaram a constituir Caixas de Aposentadorias e Pensões que deram origem aos institutos de aposentadorias e pensões de âmbito nacional e que objetivavam sempre o amparo dos trabalhadores e de seus dependentes. Em 1938, foi criado o Instituto de Previdência e Assistência do Estado (IPASE), que unificou os diversos montepios de categorias distintas de servidores públicos federais. Este instituto previa, inicialmente, uma contribuição de 5% para o financiamento de pensões e pecúlios, pois o tesouro nacional financiava, integralmente, a aposentadoria e a assistência médica de todos os servidores da época. Dentre os benefícios cobertos pelo instituto, estavam a aposentadoria ordinária para os servidores que completassem sessenta anos de idade e trinta anos de serviço e a pensão para cônjuge mulher e para o homem inválido maior de 68 anos, sendo proibida a acumulação entre benefícios.[29] 
			Apesar da unificação de todos os IAPs existentes num único instituto, que foi denominado Instituto Nacional do Seguro Social (INPS), em 1966, pelo Decreto-Lei n. 72, o IPASE continuou a existir, só sendo extinto em 1977, com a criação do SINPAS. Os servidores do IPASE eram vinculados pela Lei n. 1.711, de 28/10/1952, ao regime estatutário. A partir de 12/07/1960, a Lei n. 3.780 passou a admitir a contratação de servidores pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e criou duas categorias de servidores públicos e, ao mesmo tempo, dois regimes jurídicos para uma mesma categoria de trabalhadores. Essa duplicidade de regimes estava prevista na Constituição Federal de 1967, que previa em seu artigo 104: “Aplica-se à legislação trabalhista aos servidores admitidos temporariamente para obras, ou contratados para funções de natureza técnica ou especializada”.[30]
			Com a promulgação da Constituição de 1988, que determinava em seu artigo 39[31] a unificação de regimes dos servidores públicos, a União criou o regime unificado,