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Pierre Moreau - Responsabilidade Jurídica na Previdência Complementar - Ano 2011

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capaz de promover, como vaticinava o Presidente Roosevelt, em 1941, a 
libertação de todas as necessidades (freedom frorn wanl), e que a O rgani­
zação Internacional do Trabalho definiria em seus m ínimos elementos 
com a edição da Convenção n° 102, de 1952 (só agora, em 2008, ratifi­
cada pelo Brasil!), que deu passos gigantescos ao longo de toda a segun­
da m etade do século XX, não poderia contar tão somente com a atuação 
dos Estados.
Era, e é, imprescindível que a comunidade, vale dizer, os interessa­
dos diretos, se engajasse nesse abrangente projeto e, para além da pro te­
ção social básica que seria proporcionada pelos Estados, os próprios 
trabalhadores e as empresas com as quais cooperavam construíssem um 
modelo autônom o de seguridade.
Eis que, dessa complementação da atividade estatal pelos particu­
lares nascia, em simbiose perfeita, a previdência privada, esse poderoso 
instrum ento que, a um só tem po, acumula capitais, im pulsionando a 
economia, e proporciona mais bem -estar aos seus participantes.
O grande, senão o maior, desafio que se coloca às instituições de 
previdência privada, em ordem a cum prirem as tarefas para as quais fo- 
ram criadas, é o da correta, eficiente e segura gestão dos respectivos 
recursos financeiros.
Tais recursos, como se sabe, são qualificados como poupança de 
longo prazo, porque destinados a garantir a seguridade dos trabalhado­
res, que se retiram pelo largo e cada vez mais longevo período de sobre- 
vida dos mesmos.
Pois foi a partir de sua preocupação fundam entalm ente social com 
o destino de tais recursos que P IE R R E M O R E A U elaborou o presente 
estudo, no qual trata da responsabilidade jurídica dos gestores dos re­
cursos garantidores das entidades de previdência complementar.
O trabalho foi elaborado como tese de doutoram ento e, como tal, 
subm etido ao exame de banca constituída pelo Program a de P ós-G ra­
duação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no qual lo­
grou unânim e aprovação, na defesa pública efetuada pelo autor.
O tem a e o problema da responsabilidade adquirem, aqui, contor­
nos bem específicos, que exigem trato distinto daquele que, de cotio, é 
objeto dos estudos na esfera civil.
D e fato, devido às especificidades da previdência privada, o E stado 
intervém de m aneira intensa, seja regulam entando em minúcias a go­
vernança das entidades, seja exercendo rigorosa e perm anente vigilân­
cia na aplicação dos enormes ativos com que as mesmas lidam.
D e igual m odo, a partir da disciplina jurídica instituída pela Lei 
Com plem entar n° 109, de 2001, que disciplinou a previdência privada a 
partir dos lineamentos tracejados pela Constituição de 1988, as funções 
gerenciais das entidades foram objeto de extremos cuidados.
E, pelos vistos, o direito não quer tolerar nenhum tipo de vacila- 
ções em tal matéria, prom etendo severas restrições e sanções a quem 
não se m ostre capacitado a cum prir tão relevantes tarefas sociais.
Nessa linha inflexível de conduta que, me parece, quis tracejar o 
legislador, é revelada a preocupação com a seriedade do projeto que in­
cumbe ao adm inistrador levar avante e, igualmente, com o público pro- 
tegido que, a seu m odo, fica com seu futuro nas m ãos dos gestores dos 
recursos garantidores das entid ades de previdência privada.
Falta no Brasil, força reconhecer, um a verdadeira cultura previden­
ciária, o que se torna ainda mais evidente em tem a de previdência priva­
da, ainda tão mal com preendido e conhecido pela parcela da população 
que dela poderia ser beneficiária.
Subproduto necessário dessa cultura será a capacitação dos diri­
gentes que venham a ser chamados a cum prir funções de gestão desses
planos. G estão que envolve enorme gama de recursos financeiros e que 
exige habilidades específicas.
N a verdade, atentem os para a figura do bonus paterfamílias.
Nele podem ser identificados diversos aspectos, a ornam entar um a 
personalidade impar. D e um lado, deve possuir excelente capacidade 
organizativa, de m odo a por a casa a funcionar em plenitude. D e outro, 
deve cuidar do increm ento patrim onial, que preveja (previdência) o fu­
turo. E , por fim, há de estar sempre atento às necessidades e anseios do 
grupo que confiou aos seus cuidados tão im portantes tarefas.
Pois é segundo esse protótipo de bom comportamento, que pode 
parecer um tanto abstrato, que será avaliado o administrador de um fundo 
de pensão. Q ue cuidados terá ele que tom ar nas mais variada circunstân­
cias que se lhe apresentem no atribulado dia a dia dos negócios, especial­
mente dos negócios financeiros — pois é disso que se cuida aqui - que 
dependem diretamente de sua oportuna decisão.
O gestor de um plano de previdência privada será visto, pelo vulto 
das responsabilidades que suas funções carregam consigo, e que esta 
tese cuidou de esmiuçar com riqueza de detalhes, como modelo (protó­
tipo) de dirigente capaz e responsável.
Ressalta a evidência que se colocam em jogo, aqui, tam bém as qua­
lidades morais segundo as quais serão avaliadas tanto a personalidade 
como a_conduta do adm inistrador.
Portanto, o cuidado que deverá ditar cada passo do adm inistrador 
em suas tarefas de gestão não será regido apenas pelas circunstâncias de 
um negócio (daquele negócio, digamos assim), mas ao feixe de interes­
ses que à entidade de previdência privada incumbe defender.
A o im por certos limites à discricionariedade na gestão dos recursos 
garantidores dos benefícios devidos pelas entidades de previdência com­
plementar, o legislador vai como que estabelecendo os contornos den­
tro dos quais espera que o adm inistrador atue, seguindo o modelo de 
conduta que usualmente as pessoas bem formadas adotariam.
E m verdade, para que se delim item as responsabilidades do adm i­
nistrador - e, neste ponto, o autor tece judiciosas considerações - será
necessário aferir as condutas habituais com que cuida do negócio que 
foi cham ado a dirigir. Espera-se dele o emprego daquilo que os rom anos 
denom inaram exactíssima diligentia em cada negócio. O cuidado extre­
mo, até o detalhe, o rigor na decisão, com as escolha da m elhor solução 
possível; o rigor na forma e o rigor no docum entário que registra todos 
e cada um dos aspectos do negócio.
Enfim , o que se cobrará do adm inistrador é o profissionalismo, em 
cada um a de suas atitudes. Aliás, os desvios de com portam ento, que 
esperemos sejam punidos de m odo implacável, serão avaliados segundo 
a conduta padronizada que se espera dos bons profissionais. A culpa 
que será im putada, quando e se for o caso, ao administrador, levará em 
conta a exata diligência com que operou os negócios da entidade.
Tudo isso que sumariei aqui, em grandes linhas, foi tratado com 
rigor cientifico pelo autor, que seguiu os cânones da formação positivis­
ta que recebeu nos bancos acadêmicos e que foi tem perando com um a 
vivência profissional impressionante.
D o tado de um a presença de espírito que a todos im pressiona, 
P IE R R E M O R E A U possui lucidez suficiente para não se prender aos 
dogmatismos e para identificar na missão dos operadores do direito aquele 
agir dos práticos a quem incumbe resolver e não agravar os problemas 
que se lhes apresentam.
M isto de advogado e empresário, alia às qualidades inatas de seu 
caráter aquela formação obediente aos padrões clássicos que exigem, a 
um só tem po, expertise profissional e cultura geral. M as é a superior 
virtude daqueles que parecem estar, em determ inado m om ento, ainda 
que tenham variados problemas a resolver, atentos exclusivamente aos 
cuidados do respectivo interlocutor, que o coloca em destaque nesse frio 
m undo onde a competição e a disputa parecem querer nos tornar escra­
vos da técnica.
A com pan he i a parte final dessa excelente form ação , po rque 
P IE R R E M O R E A U