A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
232 pág.
Pierre Moreau - Responsabilidade Jurídica na Previdência Complementar - Ano 2011

Pré-visualização | Página 27 de 50

trinta mil euros que economizou para a aposentadoria. Matusalei 11 
enfrenta sérias e diversas dificuldades para aplicar os recursos financeiros 
de que dispõe de maneira a que lhe garantam a aposentadoria que almeja.
A s primeiras técnicas de gestão financeira surgiram som ente em 
1952, com o “Portfolio Selection” de H A R R Y M A R K O W IT Z , cujo 
objetivo foi o de usar a n oção de risco para form ar carteiras para invest i 
dores que^‘consideram o retorno esperando um a coisa desejável e a va 
riância do retorno um a jcoisa indesejável”114. E o aprofundam ento do 
binôm io tradicional riscolretorno.
A diversificação dos investimentos é a chave da teoria desenvolvi 
da por M A R K O W IT Z : e' observada e sensata; uma regra de comporta 
mento que não implique a superioridade da diversificação deve ser rejeitada 
tanto como hipótese quanto como máxima115.
Além da diversificação, por meio de portfólios. o poder aquisitivo dos 
investimentos deve ser mantida, até o mom ento da aposentação, aplicai i 
do-se a teoria econômica de M A U R IC E A LLAIS, que considera que a 
taxa de juros nominais e a inflação impedem que haja um equilíbrio econo 
micamente justificado entre quem empresta e quem toma emprestado, ra 
zão pela qual propõe a forma matemática da gestão indiciai, ou da gestão 
quantitativa por meio de índices. “Neste modelo, busca-se reproduzir o con i 
portamento de uma cesta referencial chamada benchmark. O objetivo é coi 1 
seguir um portfólio de rendimento esperado superior àquele do benchmark, 
m as com uma variância mínima de rentabilidade relativa ou tracking-error 
(a diferença de rendimentos entre o portfólio e o benchmark)nv'.
N a busca da aplicação ideal dos recursos financeiros que garanti 
rão a sua aposentadoria, M atusalém ainda se depara com o risco de 
déficit, haja vista que ele deseja obter um a aposentadoria m ínim a que
114 BERNSTEIN, op. cit., 1997. p. 252.
115 Ibidem. p. 252.
11 6 BOULIER e DUPRÉ, op. cit., 2003. p. 7.
I I I K l M * o N ‘.A I I ........M U |l I H i m r A N A l ' H r V i n r N ( I A Í O M M I I M I N I A I t
lhe perm ita determ inado poder aquisitivo e, caso haja excedente, deseja 
que ele acompanhe da m elhor m aneira possível as cotações da bolsa. 
B O U L IE R explica a equação, ainda que na tradução brasileira tenham 
optado pelo term o pensão ao invés de aposentadoria, o qual é mais apro­
priado: Um p rimeiro objetivo será, p ara o pensionista, minimizar o risco de 
não poder cumprir os compromissos da pensão que considera mínima. O se- 
gundo objetivo do pensionista é garantir a melhor rentabilidade do. exce­
dente. Quando procuramos maximizar o segundo objetivo, convém aumentar 
as aplicações de risco, o que compromete, porém a satisfação do primeiro ob­
jetivo, visto que o risco de não poder garantir a pensão mínima aumenta. 
Percebemos, assim, o quanto esses dois objetivos são conflituosos, e que o me­
lhor equilíbrio entre estes dois objetivos vai permitir o atendimento ótimo 
das necessidades do pensionista. B O U L IE R ainda consolida os aspectos 
da gestão financeira, já aplicando à previdência complementar:
- A teoria de Markowitz permite definir a rentabilidade e o risco 
de um portfólio composto por diferentes ativos. Isso permite por 
exemplo encontrar a composição do portfólio que oferece melhor 
rentabilidade, limitando a 5%, a probabilidade de perda de capi­
tal em um ano. As ações oferecem uma rentabilidade importante 
que justifica às vezes a aceitação de um grau maior de risco.
- Este primeiro método necessita de um objetivo em termos 
de fixação de rentabilidade. Em muitos casos, porém, o inves­
tidor que acompanhar um índice que flutua no tempo. Nesse 
caso, a gestão indiciai é utilizada: a pensão desejada poderá 
estar atrelada a esse índice, que os investimentos nos diferen­
tes ativos do fundo de pensão irão tentar acompanhar.
- O objetivo a ser alcançado é o de assegurar um pagamento 
mínimo de pensão com um nível de segurança a ser definido. O 
excedente em relação a este mínimo pode também ser adminis- 
trado com mais ou menos risco. A alocação dos ativos irá depen­
der dos parâmetros próprios a cada categoria de aposentados.117
11 7 Ibidem, p. 15.
A gestão financeira de investim entos de longo prazo apresenta, 
contudo, peculiaridades, como conclui B O U L IE R : (i) o efeito da diver­
sificação temporal (ou time diversification) consiste na redução, conforme se 
aumenta o horizonte de investimento, da probabilidade de um ativo de 
maior rentabilidade esperada (e de maior volatilidadej ter desempenho in 
ferior ao de um segundo ativo de menor rentabilidade esperada (e menor 
volatilidade de curto prazo); (ii) para períodos longos (com conceito de risco 
que é a probabilidade de se obter um desempenho pior que o planejado), as 
ações revelam-se cada vez menos arriscadas em relação a títulos de renda 
fixa; (iii) a importância da consideração da inflação no planejamento dos 
investimentos é primordial, considerando-se o interesse do investidor ou 
pensionista pela manutenção de seu poder aquisitivo (o valor de face ou no­
minal perde qualquer referência durante os períodos de inflação elevada)xw.
Por se tratar de gestão financeira de longo prazo, a gestão financei- 
ra das reservas garantidoras dos planos de benefícios de natureza previ 
denciária é diferente da gestão de outros ativos financeiros, pois nela 
estão envolvidas duas questões específicas, quais sejam: a manutenção 
do equilíbrio entre as contribuições e os benefícios e como utilizar os 
investim entos disponíveis para m anter este equilíbrio. E sta gestão aíi - 
vo/passivo depende integralm ente dos gestores financeiros das entida 
des de previdência privada:
O que está em jogo na política financeira que será conduzida 
por alguém que decide em matéria de alocação de ativos? Em 
primeiro lugar, há o objetivo social, o pagamento de pensões ao 
menor custo e com grande segurança. Segurança e menor custo 
contêm uma contradição que deve ser resolvida, pois os rendi­
mentos mais seguros são também os mais baixos. Se quisermos 
ter um benefício elevado, devemos correr riscos: essa é a dura 
regra dos mercados financeiros a ser considerada com antece­
dência, na hora de investir, pois irá afetar todo o conceito dos 
fundos de pensão. Em segundo lugar, para que a gestão não
11 8 BOULIER e DUPRÉ, op. cit., 2003. p. 114.
1 2 0 K í M I W .M I I I I K M M |l IliffVjl \ N A P l 'l M l »fN I IA C f 'MÓI1 M fN IM -'
seja contestada, para que o fundo de pensão possa prosperar, 
deverá haver estabilidade e confiança. Quando as pensões são 
definidas, o valor das contribuições deve ser estável, e quando 
as contribuições são definidas deve haver estabilidade das pen­
sões. O sistema ideal seria aquele em que as contribuições e 
pensões sejam definidas, mas ele não existe, visto que os ativos 
que garantem os dois aspectos ainda não foram inventados.119
O s gestores financeiros das entidades de previdência privada en­
frentam a difícil missão de conciliar o risco e a segurança (dois polos 
que parecem à primeira vista inconciliáveis), em contratos de longo pra­
zo, resultando no exercício de gestão dos riscos: “Pode-se entender a 
gestão de riscos como o processo sistemático de identificar, classificar e 
mitigar os fatores de riscos que poderiam atrapalhar os objetivos estra­
tégicos de um a organização. N ão se trata sim plesmente de reduzir o 
trade-ojf entre o risco e retorno, mas de otim izá-lo”120.
N o entanto, esta tarefa de gestão de riscos torna-se cada dia mais 
árdua, diante do fato inexorável de que o risco não é matéria de fácil 
definição, como adm ite B E R N S T E IN , citando John M aynard Keynes: 
“como seres vivos e móveis, somos forçados a agir... mesm o quando 
nosso conhecim ento atual não fornece um a base suficiente para um a 
expectativa m atem ática calculada”121.