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Pierre Moreau - Responsabilidade Jurídica na Previdência Complementar - Ano 2011

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privada, conforme prevista na Lei Com plem entar n° 109, de 2001, e, 
portanto, subjetiva, posto que respondem eles pelos danos ou p rejuízos 
que causarem, por ação ou omissão. A culpa, portanto, deve ser apurada:
O nosso direito, em tese, adota o princípio da culpa como fun­
damento da responsabilidade. Entretanto, não se filiou, decisi­
vamente, nem a um nem a outro dos sistemas já apreciados.
Aliás, o princípio influi nessa instabilidade, porque a sua insu­
ficiência está, a cada passo, em qualquer dos sistemas, impondo 
temperamentos, exceções, derivações, que o inutilizam como regra 
fundamental.
Alvino Lima, no magnífico estudo que faz sobre o assunto, 
apresenta, a respeito, a conclusão de que o legislador brasileiro, 
consagrando a teoria da culpa, nem por isso deixou de abrir 
exceção ao princípio, admitindo caso de responsabilidade sem 
culpa, muito embora não tivesse acompanhado, com mais 
amplitude, a orientação moderna de outras legislações, como 
seria de desejar.
Aceitando, em termos, a opinião, é conveniente ponderar que, 
naquilo em que não seguiu a orientação moderna, o nosso le­
gislador ficou extremamente aquém das conquistas do direito 
da responsabilidade.167
E exatamente sobre esta insuficiência da teoria da culpa para apu 
rar a responsabilidade jurídica na gestão dos recursos garantidores dos 
planos de benefícios previdenciário adm inistrado pelas entidades de pro 
vidência privada que trata a hipótese que será proposta neste trabalho.
1 66 DIAS, José de Aguiar, op. cit., 2006. p. 67.
1 67 ibidem, p. 62.
1 f > 0 - ivl si*( >N‘.\ltil II IAIII ||I|.'||I|( \ N A f l d VÍnfN i IV ( o M IU M P N IM -
4.3.1 .A R es p o n s a b ilid a d e C o n t r a t u a l
A responsabilidade civil pode apresentar-se sob diferentes espécies, 
conforme a perspectiva em que esta é analisada. Assim sendo, poderá ser 
classificada, quanto ao seu fato gerador, em contratual ou extracontratual. 
A responsabilidade extracontratual ou aquiliana:
(...) se resultante do inadimplemento normativo, ou melhor, da 
prática de um ato ilícito por pessoa capaz ou incapaz (CC, art.
927), visto que não há vínculo anterior entre as partes, por não 
estarem ligadas por uma relação obrigacional ou contratual. A 
fonte dessa responsabilidade é a inobservância da lei, ou melhor, 
é a lesão a um direito, sem que entre o ofensor e o ofendido 
preexista qualquer relação jurídica.168
Já a responsabilidade contratual169:
(...) se oriunda de inexecução de negócio jurídico bilateral ou 
unilateral. Resulta, portanto, de ilícito contratual, ou seja, de 
falta de adimplemento ou da mora no cumprimento de qual- 
quer obrigação. E uma infração a um dever especial estabeleci­
do pela vontade dos contraentes, por isso decorre de relação 
obrigacional preexistente e pressupõe capacidade para contra- 
tar. Na responsabilidade contratual será possível estipular cláu- 
sula para reduzir ou excluir a indenização, desde que não con- 
trarie a ordem pública e os bons costumes. Se o contrato é fonte 
de obrigações, sua inexecução também o será. Quando ocorre o 
inadimplemento do contrato, não é a obrigação contratual que 
movimenta a responsabilidade, uma vez que surge uma nova 
obrigação que se substitui à preexistente no todo ou em parte: a 
obrigação de reparar o prejuízo conseqüente à inexecução da 
obrigação assumida.
Assim, a responsabilidade civil alicerça-se no dever de resultado, o 
que ocasionará a presunção da culpa pela inexecução previsível e evitá-
168 DINIZ, op. c/t., 2002: p. 116.
1 69 Ibidem. p. 115.
I
vol da obrigação oriunda da convenção prejudicial à outra parte. Portan 
to, responsabilidade contratual é o resultado da violação de um a obriga 
ção anterior, logo, para que exista, é indispensável a preexistência de 
um a obrigação.
A responsabilidade contratual pressupõe um contrato válido, con 
cluído entre o responsável e a vítima, obtendo-se, assim, três elementos: 
existência do contrato; a sua validade, envolvendo, naturalm ente, a ques 
tão da responsabilidade no caso de contrato nulo; estipulação do con 
trato entre o responsável e a vítima170.
C om o já analisado neste estudo, a relação de previdência privada e 
um a relação contratual. Ela nasce do contrato:
O contrato previdenciário quando implanta um plano coletivo 
previdenciário é, em primeiro lugar, caracterizado pela natureza 
da parte ativa que, obrigatoriamente, tem de ser uma pessoa 
jurídica, e em segundo lugar, por ter por objeto o favorecimento 
dos respectivos empregados e diretores, inscrevendo-os num plano 
previdenciário para lhes proporcionar, quando se derem os res­
pectivos eventos geradores, os benefícios previdenciários contra­
tados para eles.
Como qualquer contrato em favor de terceiros, o previdenciário 
tem de ser perfeitamente definido no que respeita às partes, no 
que respeita aos favorecidos, no que respeita ao objeto do con­
trato, devendo especificar os direitos de cada um dos favoreci­
dos, no que respeita ao objeto do contrato, devendo especificar 
os direitos de cada um dos favorecidos, e as conseqüências técni­
cas e jurídicas da inadimplência da empresa, nos direitos e obri­
gações deles.171
Este contrato é firm ado pelos participantes e as entidades de pre­
vidência com plem entar, form alizando-se na adesão ao plano de bene 
fícios de natureza previdenciária e; outra relação contratual se forma
170 DIAS, José, op. cit., 2006. p. 165.
171 PÓVOAS, Planos Empresariais, op. cit., 1990. p. 165.
quando o plano de benefícios é patrocinado, form alizado-se esta rela­
ção no convênio de adesão firm ado entre o patrocinador e o institu i­
dor e as entidades responsáveis pela gestão do plano de benefícios.
O objeto do contrato firmado com os participantes é a concessão 
dos benefícios ajustados. Por outro lado, o objeto do contrato firmado 
com os patrocinadores ou instituidores é o de obter a eficaz gestão do 
plano de benefícios, de modo a atender as metas que nele estabelece­
ram em prol de seus empregados ou associados. E m suma, é contratada 
a gestão do plano.
O contrato de previdência não vincula diretam ente os gestores da 
entidade e os patrocinadores, instituidores, participantes e assistidos dos 
planos de benefício, firm ando-se o contrato com a entidade de previ­
dência privada. A responsabilidade contratual, portanto* incide direta- 
m ente sobre a entidade.
N a responsabilidade contratual, qualquer das partes, quando falta 
com a sua obrigação, responde pelo prejuízo que causou a outra, seja 
cum prindo com pulsoriamente a obrigação, seja ressarcindo as perdas e 
os danos sofridos. Esta duplicidade de ações oferecidas ao sujeito ativo 
da reparação fom enta questão quanto à sua natureza jurídica:
Em todos os sistemas jurídicos, o devedor que falta à sua 
obrigação pode por isso (no mínimo) ser compelido a pro­
porcionar uma compensação ao credor. A verdadeira questão 
é justamente a natureza dessa compensação. Trata-se, como 
julga a doutrina dominante há quase um século, de reparar 
um prejuízo, ou seja, aquele prejuízo causado ao credor pela 
inexecução ou má execução da obrigação? Ou trata-se, ao 
contrário, como indicam os autores que predizem o fim da 
responsabilidade contratual, de propiciar ao credor, por equi­
valência, a satisfação que ele podia esperar da execução da 
obrigação?172
I(> ? RrspoNlHIÜTinAni |i w ln irA n a P u iv in rN O A r o m p i i m i n ia i j
1 72 SAVAUX, Eric. Réveu Trimestrielle de Droit Civil. Tradução de J. Dantas de Oliveira. nQ 1. Paris: 
Éditions Dalloz, 1999.
C om o indica SAVAUX, a desconsideração da responsabilidade 
contratual é uma necessidade, posto que repousa ela sobre o que chama 
de um “falso conceito”, pois, “contrariam ente às perdas e danos con fr 
ridas à vítim a em m atéria delitual, as prerrogativas atribuídas ao credor 
em caso de inexecução da obrigação