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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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relação que 
têm com ela (1998, p. 115).
Para Bauman, à “geometria é o arquétipo da mente moderna” 
(1999a, p. 23), ao que prossegue:
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 43
A taxonomia, a classificação, o inventário, o catálogo e a estatística 
são estratégias supremas da prática moderna. A maestria moderna é o 
poder de dividir, classificar e localizar - no pensamento, na prática, na 
prática do pensamento e no pensamento da prática (1999a, p. 23).
Tais práticas, ao estabelecerem o que deve ou não permanecer 
nos canteiros do jardim socioordenado, o útil e o refugo, o puro 
e o impuro, necessitam igualmente encontrar lugares para dispor 
(localizar) espacialmente aqueles que não se encaixam nos critérios 
classificadores da ordem.
A instituição carcerária, então, como locus e modalidade punitiva 
de segregação espaço-temporal, tal qual outras instituições de seqüestro 
dos indesejáveis (ou assim classificadas), encontra, nos parâmetros de 
uma racionalidade instrumental moderna, receptividade para sua gradual 
constituição legitimada, não obstante, com o tempo, exigirem-se dela 
redimensionamentos em suas configurações e dinâmicas.
1.1.1 Espaço
As dimensões do elemento espaço refletem a racionalidade instru­
mental acima exposta. A segregação espacial dos apenados, o apartá- 
los da sociedade extramuros, “representa un claro enunciado de que 
la exclusión física es el precio que se paga por la inconformidad” 
(MATTHEWS, 2003, p. 51-52).. O caráter simbólico da rejeição social 
por meio da segregação espacial é também destacado por Sykes1, em 
seu estudo sobre a sociedade dos cativos.
A busca racional dessa instrumentalidade simbólica da dimensão 
espacial, por meio da constituição de instituições muradas, cercadas, 
com consistentes barreiras ao contato social entre os grupos dos en­
carcerados e dos livres, faz-se sentir, também, no estudo de Fernando 
Salla acerca das prisões em São Paulo no período de 1822 a 1940:
Os muros que envolvem as prisões, exibindo uma parede de con­
tenção e sendo ao mesmo tempo um artifício simbólico de segregação
1 Na Prisão de Segurança Máxima do Estado de New Jersey: “A massive wall 20 
feet hight separates the free community from the prisioners, serving not only as 
the final barrier to escape but also as a symbol of society’s rejection - for this is 
a fort to keep the enemy within rather than without” (SYKES, 1958, p. 3).
44 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
entre os justos e os pecadores, os cidadãos respeitáveis e os criminosos, 
os puros e os contaminados, não se faziam presentes em qualquer dos 
edifícios que serviam de Cadeia na cidade de São Paulo. Com a Casa 
de Correção, construída em área distante do núcleo central da cidade, 
pela primeira vez se revelou a preocupação com o seu isolamento por 
meio de uma muralha (1999, p. 41)2.
Além dos muros, e no interior destes, a importância da dimensão 
espacial é também percebida nas estratégias arquitetônicas, as quais, 
desde as plantas dos prédios até às sutilezas dos ambientes e celas, 
traduzem aparatos e concepções utilitárias de controle, vigilância e 
disciplina, bem como permitem o atingimento de efeitos sociais e 
psicológicos específicos.
O panóptico de Jeremy Bentham3, analisado em detalhes por 
Foucault (1991), constitui-se no clássico exemplo da associação 
utilitária entre a arquitetura, numa estratégia de dimensão espacial, 
e o sistema penitenciário. Contudo, não se traduz no único estilo a 
ser destacado. Mátthews, procedendo a uma revisão dos desenhos 
arquitetônicos das prisões desde os começos do século XIX, indica e 
analisa quatro estilos que se desenvolveram em diferentes épocas: o 
radial; o panóptico; o posto telegráfico; e as prisões de nova geração, 
que incorporam o desenho capsular (2003, p. 55-64).
Em cada estilo poderemos localizar correlações com sistemas 
específicos de confinamento e concepções gerais de punição que 
permitiam e exigiam redimensionamentos na utilização estratégica 
do espaço, produzindo, assim, as distintas configurações arquitetôni­
2 A inauguração da Casa de Correção de São Paulo ocorreu no ano de 1852 (Salla, 
1999, p. 65).
3 Jeremy Bentham (1748-1832), jurista inglês e criador do utilitarismo do Direito,
desenvolveu o projeto arquitetônico do panóptico, o qual própôs para a construção 
de instituições carcerárias. Michel Foucault assim descreve o panóptico: “na periferia 
uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que 
se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, 
cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma 
para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, 
permite que a' luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia 
na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, 
um operário ou um escolar. Pelo efeito da contraluz, podem-se perceber da torre, 
recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas nas celas 
da periferia” (1991, p. 177). Sobre Bentham, o utilitarismo e _sua influência na 
questão penitenciária, veja-se: GONZÁLEZ, 1997. , y
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 45
cas para uma maximização das perspectivas de vigilância, controle, 
disciplina e segurança.
A dimensão espacial e os recursos arquitetônicos também são 
estratégicos nas distinções e separações internas do ambiente carce­
rário e entre os diferentes tipos de estabelecimentos4. Oficinas, salas 
de aula, celas individuais, alojamentos, celas de castigo e isolamento, 
pátios compõem não só um arranjo arquitetônico especial em sua 
estrutura, mas também utilitário num amplo espectro de opções de 
rotinas e movimentos funcionais no controle, na disciplina, no castigo 
e na recompensa.
[...] el traslado de un espacio a otro, o el hecho de ser alter­
nativamente ubicado en aislamiento o segregación, se usa rutina- 
riamente en las cárceles como un método de control y como parte 
de un amplio repertorio de recompensas y castigos (MATTHEWS, 
2003, p. 52).
Também o dispositivo arquitetônico, como analisa Alvino Augusto 
de Sá (1990), a partir da utilização de seus diversos elementos na 
modelação e dimensionamento do espaço (linhas retas ou curvas, 
, verticais ou horizontais, cúpulas, círculos etc.) envolve o homem que, 
naquele, “vê reavivados, seletivamente, em si determinados sentimen­
tos e experiências, com significados especiais, não necessariamente 
expressos em discurso” (1990, p. 248), provocando efeitos psíquicos 
e sociais que podem ser procurados por meio de sua busca estratégi­
4 A legislação brasileira, por meio da Lei n. 7.210/84, a Lei de Execução Penal, 
prevê três distintos tipos de estabelecimentos carcerários: a penitenciária, no qual 
o alojamento deve ser, segundo a lei, individual; as colônias penais agrícolas, in­
dustriais ou similares, que permitem alojamento coletivo; e as casas do albergado, 
que também permitem alojamento coletivo. Os estabelecimentos, segundo a lei, se 
destinam aos apenados em distintos regimes de cumprimento de pena, respectiva­
mente: fechado, semi-aberto e aberto. Além dos alojamentos, outras distinções são 
previstas, em termos de localização, presença ou não de grades, tipos de instala­
ções (oficinas, salas para cursos e palestras etc.). O sistemático descumprimento 
da legislação por parte da esfera estatal não permite que tais estabelecimentos 
sejam encontrados na maioria dos Estados brasileiros, tampouco em estrutura e 
número adequado para um menos perverso funcionamento do sistema. Por outro 
lado, recentes alterações legais, sobretudo com a positivação do chamado Regime 
Disciplinar Diferenciado (RDD) pela Lei n. 10.79212003, presídios de segurança 
máxima se vêm configurando