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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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se localiza, 
no que diz respeito à qualidade material da vida intracarcerária, o que 
nos remete à segunda categoria de privações proposta por Sykes: a 
privação de bens e serviços (1958, p. 67-70).
Historicamente, como demonstram Rusche e Kirchheimer (1999), as 
práticas de encarceramento adotaram práticas para manter as condições 
de vida no interior dos ambientes prisionais em níveis abaixo dos veri­
ficados junto às classes subalternas, justificando-as tanto sob uma ótica 
econômica — na expectativa demaiores lucros com o trabalho prisional, 
desde as workhouses, ou de reduzir os gastos com a parcela indesejada da 
sociedade - , como sob o discurso de que esta era uma forma de dissuadir 
ao crime, vez que não incentivaria as classes subalternas a buscar, por 
meio do encarceramento, melhores condições de sobrevivência. Salla, 
em seu estudo sociohistórico sobre as prisões em São Paulo, observa 
a dinâmica da precariedade à qual estavam submetidos os. presos da 
cadeia da Capital, quando se reporta a um relatório de 1833:
A alimentação dos presos estava entre os mais agudos problemas 
apontados pela comissão. A comida era distribuída uma única vez ao 
dia para os presos, o que fazia “agravar bastante os seus tormentos” . 
Como esta tarefa estava nas mãos da Sociedade Filantrópica, apontava
84 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
a comissão para a precariedade desta solução e indicava que à Câmara 
caberia o ônus do sustento dos presos e não confiar tão importante 
questão a uma sociedade que apesar dos “grandes benefícios que ella 
tem feito n ’esta Cidade” poderia falir ou deixar de prestar serviço 
adequadamente (1999, p. 52).
A realidade atual, embora redimensionada a partir da assunção 
formal do Estado em suprir as necessidades básicas dos internos (em 
regra não cumprida satisfatoriamente), não evita, muitas vezes, que as 
condições concretas dos estabelecimentos carcerários estejam próximas 
do cenário do início do século XIX, promovendo e moldando, então, 
outras dinâmicas peculiares dos ambientes prisionais.
Sykes (1958, p. 68-69) já observara que, não obstante os internos 
estivessem supridos em suas necessidades básicas, outros bens — tais 
como cigarros, alguns tipos de alimentos, roupas e mobílias indivi­
dualizadas etc. que poderiam atp ser considerados “supérfluos” sob 
óticas de maior rigor com as necessidades dos apenados, são requeridos 
não só por causa dessas mesmas necessidades individuais, mas porque 
são símbolos de status numa sociedade que confere grande prestígio 
às posses materiais, confluindo, ainda, para a individualização e cons­
tituição da auto-imagem e estima dos internos. O não suprimento ou 
o suprimento inadequado desses bens, inclusive em decorrência de 
normas e regulamentos oficiais, promove um mercado interno que não 
se pauta pelos mesmos critérios da economia extramuros.
Nos relatos de Brant (1994, p. 115) e de Varella (1999, p. 53) 
encontra-se a invariável referência ao cigarro como a moeda oficial 
atrás das grades. No estudcr de Lemgruber verificamos o papel da 
Cantina, muitas vezes presente nos ambientes carcerários e, também, 
freqüentemente explorada pelos próprios internos:
[...] a cantina, ao exercer a função de fornecer artigos que a ins­
tituição não provê aos presos, age também no sentido de favorecer e 
reproduzir desigualdades no meio carcerário, marcando as diferenças 
entre aqueles que podem se valer da cantina ou não. E mais, ainda 
tem a função de introduzir no mundo fechado da prisão a sociedade 
de consumo, “orientando os desejos dos presos para os prazeres orais, 
os únicos que permanecem acessíveis” (1999* p. 43).
As privações de bens e serviços também se vinculam à rele­
vância do grupo familiar, já que cabe a este ser a fonte prioritária
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 85
de provimento dos bens ou desejos faltantes, seja para o consumo 
individual, seja para o coletivo, ou mesmo para servir de moeda na 
economia interna.
Já no que tange à privação de relações heterossexuais, preferi­
mos ampliar o espectro da categoria para enfocar a questão sob a 
perspectiva da privação de condições adequadas para o exercício da 
sexualidade. Assim, propomos uma vez que o quadro do exercício 
da sexualidade nos ambientes carcerários, sobretudo no que diz res­
peito à possibilidade de manutenção de relações heterossexuais, já se 
apresenta em muito alterado, sobretudo pela admissão, em diversos 
sistemas punitivos, do direito às chamadas “visitas íntimas” . Contudo, 
não obstante isso, indubitável que o exercício da sexualidade nos am­
bientes prisionais ainda permanece envolto em restrições e privações 
das mais variadas ordens.
Assim, mesmo que possíveis as relações heterossexuais, estas 
estarão sempre, nos ambientes carcerários, limitadas e afetadas pelas 
normas e regulamentos, quer na freqüência em que são permitidas, 
quer na privacidade em que se disponibilizam, quer, inclusive, na 
possibilidade de múltiplos parceiros (haja vista que, em regra, os 
regulamentos só permitem a visita íntima de um parceiro por interno) 
etc.33. Ademais, o acesso às visitas íntimas, como já referido, ainda 
é restrito ou negado em -prisões femininas, ou mesmo a homosse­
xuais" com parceiros externos; e, quando permitida, realiza-se sob as 
mesmas restrições acima mencionadas. Também as próprias relações 
homossexuais consentidas, quando identificadas, são reprimidas em 
muitos ambientes prisionais.
Com efeito, o exercício da sexualidade nos ambientes carcerários'
- a privação de condições adequadas para a sua realização — continua 
a ser um ponto em sensível conflito com os possíveis padrões extramu- 
ros, acarretando todo um variado rol de práticas, dinâmicas e relações 
que são permeadas pela violência, pela angústia e frustração, pelo 
redimensionamento dos afetos, pelo sofrimento psíquico, emocional e 
físico, pela afetação da auto-imagem e auto-estima, e, inclusive, pela 
própria mercantilização da sexualidade (forçada ou consentida) em 
padrões distintos, ainda que por vezes correlatos, da mercantilização 
que permeia a sexualidade na sociedade capitalista e de consumo.
33 Bitençourt traz em sua obra interessantes considerações sobre a questão da visita 
íntima, demonstrando o quão paradoxal é o tópico (1993, p. 195-202).
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A identificação de que, mesmo atualmente, com os redimensio­
namentos que possibilitam ao interno ter acesso (restrito) a relações 
sexuais com parceiros da sociedade extramuros, o ambiente carcerário 
priva seus seqüestrados de condições adequadas para o exercício da 
sexualidade, conflui, somando-se às outras categorias de privações já 
apresentadas, para a verificação de que os contextos socioprisionais 
privam o interno de sua autonomia, infantilizando-o na sua relação 
com a estrutura organizacional. Nesse sentido, Sykes observa:
[...] a frustração da habilidade do prisioneiro fazer escolhas e a 
freqüente recusa em prover explicações para as regulações e comandos 
procedentes do sta ff burocrático envolvem uma profunda ameaça para a 
; auto-imagem do prisioneiro porque o reduzem a um fraco, desamparado, 
status de dependência infantil (1958, p. 75, tradução nossa).
Não obstante isso — ou seja, a dependência para a qual é con­
duzido o interno — a privação de segurança pode ser identificada, 
como uma significativa categoria das dores do encarceramento. Ser 
prisioneiro, como também observa Sykes (1958, p. 76-77), é viver, 
involüntariamente, num longo convívio íntimo com outros prisioneiros 
que, em muitos casos, possuem um amplo histórico de violência e 
comportamentos agressivos. O risco de ser vítima de uma agressão é 
permanente, pesando sobre cada interno como uma constante ameaça 
psíquica e real. O equilíbrio emocional e a própria agressividade dos 
internos7 são