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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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As experiências de administração extra-estatais dos estabeleci­
mentos prisionais, ao longo da história, também envolvem, em mui­
to, a participação de grupos filantrópicos e ordens religiosas. Nesse 
sentido, sobretudo em estabelecimentos femininos, essa participação 
durou até tempos recentes, inclusive em nossa realidade. Atualmente, 
a execução penal, sobretudo do ponto de vista jurídico, é vista como 
uma atividade complexa, “que se desenvolve, entrosadamente, nos 
planos jurisdicional e administrativo”, uma vez que dela “participam 
dois Poderes eçtatais: o Judiciário e o Executivo, por intermédio, 
respectivamente, dos órgãos jurisdicionais e dos estabelecimentos 
penais” (GRINOVER, 1987, p. 7).
Importa reconhecer que a perspectiva de racionalidade da socie­
dade moderna conduziu a requerimentos de qualificações específicas
- em termos de “saber” — daqueles que ocupam os cargos admi­
2 A obra de K. Krohne é assim referida na bibliografia de Rusche e Kirchheimer: 
Lehrbuch. der Gefàngniskunde unter berücksichtigung der Kriminalstatistik un 
Kriminalpolitik (Stuttgart, 1889).
92 'A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
nistrativos nos estabelecimentos carcerários. Tais requerimentos, em 
termòs supra-estatais, culminam com o clisposto no item 50.1 das 
Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos, da Organização 
das Nações Unidas (ONU), quando consigna: “O diretor do esta­
belecimento deverá achar-se devidamente qualificado para a função, 
por seu caráter, sua capacidade administrativa, formação adequada 
e experiência na matéria”.
Já na vigente legislação brasileira o artigo 75 da LEP detalha, 
inclusive, as áreas de formação superior compatíveis com sua expec­
tativa de racionalidade administrativa:
Art. 75. O ocupante do cargo de diretor de estabelecimento deverá 
satisfazer os seguintes requisitos:
I - ser portador de diploma de nível superior de Direito, ou Psico­
logia, ou Ciências Sociais, ou Pedagogia, ou Serviços Sociais;
II - possuir experiência administrativa na área;
III - ter idoneidade moral e reconhecida aptidão para o desempe­
nho da fixnção.
O poder pútèlico vem buscando sustentar a legitimidade de suas 
instituições prisionais a partir do “saber racional e científico” dos 
administradores que escolhe, não obstante, também, confie grande 
parte do sucesso administrativo às virtudes e capacidades pessoais 
do escolhidõ.
Nesse sentido, é relevante o trabalho de Salla (1999) acerca das 
prisões em São Paulo no período de 1822 a 1940, sobretudo no que 
se refere ao período posterior a 1852, com a inauguração da Casa de 
Correção, vez que demonstra serem os cargos administrativos dessa 
instituição, em regra, ocupados por bacharéis oriundos de “distintas 
famílias” da capital paulista.
A análise que Thompson faz dos membros dos grupos diretivos 
das prisões ainda se pauta na seqüência desse modelo:
Recrutam-se os membros da direção, em regra, nas camadas mais 
altas da sociedade, com preferência a pessoas de nível universitário: 
advogados, médicos, engenheiros, oficiais militares de patente acima 
de major, altos funcionários da administração estadual, Procuradores 
do Estado, membros do Ministério Público etc. (1991, p. 29).
GRUPOS NA SOCIEDADE CARCERÁRIA 93
As inadequações de tal modelo, conforme se depreende da análise 
de Thompson, decorrem desde da instabilidade das administrações
- que se caracterizam por uma ocupação temporária de um cargo 
de confiança de superiores hierárquicos (muitas vezes ocupando 
seus cargos públicos também de forma temporária) - até do próprio 
desconhecimento aprofundado das peculiaridades socioprisionais por 
parte dos administradores, fato este que os coloca numa posição de 
relativa dependência (às vezes, subserviência) de outros estratos da 
organização — em especial dos Agentes Penitenciários, e por vezes dos 
Técnicos e Terapeutas, uma vez que estes são os grupos com maior 
permanência funcional nas instituições.
Mais recentemente, na realidade brasileira, outros modelos têm 
buscado a profissionalização intra-organizacional das instâncias ad­
ministrativas. No Estado do Rio Grande do Sul, a Lei n. 9.228, de 
1.° de fevereiro de 1991 - que cria o Quadro Especial de Servidores 
Penitenciários do Estado — estabelece, em seu artigo 7.°, que:
As funções de Diretor, Subdiretor ou Administrador de Estabe­
lecimento Penal, D iretor de Albergue, Chefe da Inspetoria Peniten­
ciária, Inspetor Penitenciário e Chefe de Atividade de Segurança 
são privativas de Agentes Penitenciários Classe “C” e “D”, Técnicos 
Penitenciários, M onitores Penitenciários e Criminológicos, à medida 
em que vagarem.
Esse modelo, ao estabelecer uma endogeneidade na administração 
penitenciária - gerando critérios de acesso somente a categorias já 
integrantes do quadro dos servidores penitenciários - , tende a resolver 
a questão pertinente ao conhecimento prático dos estabelecimentos, 
em suas dinâmicas, processos e relações concretas e características. 
Contudo, problemas também tendem a surgir. A instabilidade das 
administrações permanece inalterada: mesmo que os cargos sejam 
ocupados por pessoas já integrantes da burocracia organizacional, 
permanecem os cargos sendo de confiança, espelhando a ciranda 
política das instituições públicas.
Tal situação se reflete na atuação dos administradores. Sabedores 
de que ao final de seu período no cargo poderão retomar aos postos 
anteriores, muitos pautam sua gestão de forma a que seus atos e 
decisões não venham a repercutir de forma negativa em suas futuras 
posições. Tendem a adotar, pois, uma postura negociai no exercício do 
poder, na expectativa de não se indisporem com grupos, ou membros
94 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
de grupos, que noutro momento possam estar na posição hierárquica 
superior, podendo atuar de forma revanchista ou vingativa. Nesse 
sentido, é comum que um Agente Penitenciário que atua diretamente 
com os presos nas galerias alcance a posição de Administrador do 
Presídio e, tempos depois, retorne à mesma atividade nas galerias, 
em contato com os presos que estiveram sob sua administração e 
subordinado a outros Agentes Penitenciários que, igualmente, foram 
a ele subordinados no período anterior.
Sè, por um lado, houvesse previsão específica, no quadro do 
funcionalismo público penitenciário, da categoria de Diretor ou Ad­
ministrador, tal problema poderia ser resolvido. Entretanto, existem 
contra-argumentos no sentido de que tal situação criaria um novo 
grupo de poder corporativo na burocracia organizacional, bem como 
engessaria a possibilidade de eventuais redimensionamentos nas po­
líticas penitenciárias.
Sendo óbvio que um grupo administrativo é gestor não só de 
regulamentos, rotinas, técnicas e procedimentos, mas também _ de 
políticas organizacionais, tem-se que na questão penitenciária, uma 
vez que as próprias instituições estão vinculadas e se relacionam 
com outras instâncias definidoras de políticas, a administração se 
constitui num grupo estratégico diante de expectativas mais amplas 
não só da execução dos castigos sociojurídicos, mas ainda do próprio 
controle social.
Quando de origem exógena à burocracia institucional, podem pautar 
suas atividades administrativas por critérios e metas alienígenas á es­
pecificidade da organização. Assim, administrações militares, religiosas 
ou empresariais privadas agregam, e priorizam, seus próprios objetivos 
organizacionais e institucionais aos da organização prisional; disciplina, 
conversão e salvação, lucro obtêm destaque como resultados e metas 
desses grupos administrativos, influindo, pois, diretamente nas rotinas, 
dinâmicas e relações que são estrategicamente desencadeadas.
Ainda no caso de administradores de origem exógena à burocracia 
institucional, mas recrutados nos critérios endógenos da Organização 
estatal, mesmo que