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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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que nós reforçam o entendimento da oportu­
nidade, importância e justificativa deste estudo, vez que indicam estar 
ainda inexplorada a complexidade da realidade relacionai e conflitiva 
dos agentes sociais vinculados à questão penitenciária, restando por
INTRODUÇÃO 21
deixar por demais incompleto o quadro possível de compreensão 
científica de suas dinâmicas, práticas e estratégias.
ordenamento jurídico brasileiro, no que se refere à execução das
penas privativas de liberdade, molda-se e operacionaliza-se a partir 
da noção de Sistemas Progressivos, os quais se caracterizam, em essência, 
por: “[...] distribuir o tempo de duração da condenação em períodos, 
ampliando-se em cada um os privilégios que o recluso pode desfrutar 
de acordo com sua boa conduta e o aproveitamento demonstrado no 
tratamento reformador” (BITENCOURT, 1993, p. 81).
Essa essência progressiva (a qual também inclui a perspectiva 
regressiva) toma a execução penal, sob o ponto de vista jurídico- 
processual, um complexo procedimento — “entendido como ordem 
dos atos do processo” (BENETI, 1996, p. 107) — que é permeado de 
incidentes, os quais, dando realidade aos institutos da execução penal 
(tais como as progressões de regime, a remição, as autorizações de 
saída, o livramento condicional, entre outros), consolidam uma certa 
dimensão dinâmica à execução das penas privativas de liberdade. Não 
obstante isso, a LEP (Lei de Execução Penal) foi bastante tímida ao 
dispor normas atinentes ao(s) procedimento(s) da execução penal. 
Acompanhando Sidnei Agostinho Beneti, temos que:
O procedimento regrado pela Lei de Execução Penal, que se tem 
como procedimento comum (LEP, arts. 194 a 197), possui uma estrutura 
bastante simples. Inicia-se “de ofício, a requerimento do Ministério 
Público, do interessado, de quem o represente, de seu cônjuge, pa­
rente ou descendente, mediante proposta do Conselho Penitenciário, 
ou, ainda, da autoridade administrativa” (LEP, art. 195). Ouvem-se, 
a seguir, “o condenado e o Ministério Público, quando não figurarem 
como requerentes da medida” (LEP, art. 196). Se “desnecessária a 
produção de prova, o juiz decidirá de plano” (LEP, art. 196, § 1.°). 
E, sendo necessária “a realização de prova pericial ou oral, ò juiz a 
ordenará, decidindo após a produção daquela ou na audiência desig­
nada” (LEP, art. 126, § 2.°). O agravo de instrumento é o recurso das 
decisões judiciais (LEP, art. 197) (1996, p. 109).
Tal compreensão da dimensão processual e procedimental da LEP 
nos conduz ao seguinte fluxograma (FIG. 1):
1. OBJETO DA PESQUISA
*1 0 exame criminológico deverá ser realizado, obrigatoriamente, nos condenados à pena privativa de liberdade em regime fechado e, facultativamente, no regime 
semi-aberto. O momento da realizado do eXame criminológico é antes da aplicação da pena ou medida de segurança, apenas aos réus já condenados 
definitivamente..
*2 Conta-se, no prazo mínimo para o tempo de duração da medida de segurança, o tempo de prisão provisória, o de prisão administrativa e de anterior internação. É 
uma das espécies dè detração.
FIG URA 1 - Fluxograma geral do processo de execução penal. ' 
FONTE: Núcleo de Pesquisa do IBCCrim - Convênio IBCCrim/FSEADE.
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FONTE: Núcleo de Pesquisa do IBCCrim - Convênio IBCCrim/FSEADE.
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24 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
Avançando sobre esta sistemática jurídico-operacional podemos 
expor, com maior precisão, a dimensão “prático-jurídica” de nosso 
objeto de estudo, ou seja: a influência do tempo remido na seqüência 
da execução da pena privativa de liberdade. Nesse sentido, podemos 
assim explicitá-lo: tratando-se a remição de um direito (benefício)3 
que confere ao condenado preso a possibilidade de reduzir o tempo 
de cumprimento de sua pena de privação da liberdade, diminuindo-a 
mediante atividades de trabalho (ou atualmente também pelo estudo, 
conforme já aceito pela jurisprudência), como se deve interpretar o 
tempo remido na perspectiva de sua influência nos demais direitos 
(benefícios) da execução penal?
O questionamento acima, como delimitador da abrangência obje­
tiva do presente estudo, justifica-se por uma imprecisão legal quanto 
ao assunto, uma vez que o ordenamento jurídico, no que tange à 
perspectiva de influência do tempo remido em relação aos demais 
direitos da execução penal, não é tão claro como, por exemplo, é ao 
regular o direito da detração.
Em tal aspecto cabe explicar: por meio da detração, medida 
prevista no artigo 42 do Código Penal, o tempo de duração de uma 
situação cautelar de restrição da liberdade (prisão em flagrante, tem­
porária ou provisória), ou a efetiva internação em hospital de custódia 
e tratamento psiquiátrico, é computado na duração da pena definitiva 
atribuída (ou na medida de segurança) para fins de servir como tem­
po de cumprimento de pena. Tal entendimento — de que o tempo de 
restrição da liberdade objeto da medida de detração é tempo de pèna 
já efetivamente cumprido - é uma decorrência imediata da leitura do 
mencionado dispositivo do Código Penal4.
Já no que diz respeito à remição, não há a mesma clareza no 
texto legal. Com tratamento legal nos artigos 126 a 130 da LEP,
3 Há toda uma discussão que permeia a execução penal, sobretudo na execução 
das penas privativas de liberdade, acerca de serem seus institutos - que marcam 
a mutabilidade das etapas do sistema ou o acesso a instâncias de parcial, condi­
cional ou momentânea liberdade — “direitos do” ou “benefícios ao” sentenciado. 
Não obstante o valor dessa discussão/ optamos por manter a dubiedade em nosso 
texto, vez que^ entendemos ser, também, esta uma forma de constante alerta para 
o caráter paradoxal e enigmático (simbólico) do sistema.
4 Conforme o Código Penal: “Detração. Art. 42. Computam-se, na pena privativa 
de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil 
ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos 
estabelecimentos referidos no artigo anterior”.
INTRODUÇÃO 25
registra o ordenamento jurídico apenas que o “tempo remido será 
computado para a concessão do livramento condicional e do indulto”, 
conforme o artigo 128 do mencionado diploma legal. Resta, pois, 
imprecisa a legislação no que se refere à perspectiva de influência do 
tempo remido em relação aos demais direitos da execução penal e, 
em face da omissão legal, a lacuna correspondente tem sido suprida 
pelas orientações jurisprudenciais; não unívocas, entretanto. Estas se 
dividem basicamente em duas: a) o tempo remido é tempo de pena 
já cumprido; b) o tempo remido é tempo a ser descontado, com a 
aproximação proporcional do término da pena, dando origem a uma 
nova base temporal (de duração concreta da pena) para o cálculo de 
eventuais frações da pena (lapsos temporais) que se constituem como 
requisito objetivo para a admissão dos demais direitos (benefícios) da 
execução da pena privativa de liberdade.
Esta questão objetiva, aqui apresentada de forma sucinta, serve 
como ponto de partida para a delimitação de nosso objeto de pesquisa 
e reforça a importância do elemento tempo, ou, mais propriamente^ 
das dinâmicas