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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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progressão, aí ele entra num regime mais brando, aí começa 
uma nova fase, ele vai tendo outros requisitos pra satisfazer e assim 
ele vai conseguindo, então, se ele tem esses direitos, ele vai receber 
os benefícios (Magistrado 5).
Nessa, tendência inicial de se apresentar como ente de tutela 
técnico-operacional de um procedimento racional, formal e objetivo, 
ainda que a remição apareça como um elemento que, inserido no 
sistema, viabiliza a redução do castigo, o que se destaca é a diligên­
cia do magistrado na sua observância aos critérios e institutos legais, 
com seus requisitos objetivos e subjetivos, e não uma perspectiva de 
ação estratégica por parte desses atores (não obstante, como se verá 
posteriormente, essa perspectiva reste por surgir no discurso de todos 
os magistrados).
Em tese o juiz não pode mexer na pena transitada em julgado, 
na pena que foi obtida no processo de conhecimento, digamos as­
sim, processo que gerou a punição, a reprimenda, ele em tese, deve 
ser cumprido. Eu conheço situações em que efetivamente o ju iz da 
Execução modifica, por exemplo, o regime integral fechado,_jque foi 
determinado na condenação, ele no momento de cumprir, ele cumpre 
como se fosse inicialmente fechado, admitindo progressão de regime. 
Em termos de redução de pena aplicada, tão-somente pela remição.
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Não existe algum meio que o ju iz possa adotar para que essa pena 
seja reduzida. O que ele pode fazer é efetivamente ficar em cima do 
acompanhamento para conceder tanto quanto preenchível os benefí­
cios que venham a ser adquiridos, mas de regra, alguma forma de 
reduzir... a não ser esta de benefícios que em regra ele não teria... se 
adota a tipificação dada na sentença... fora isso me parece que não 
existe nenhum outro meio de um juiz intervir para uma aceleração do 
cumprimento (Magistrado 2).
Nós temos uma limitação, que é a limitação legal. Legalmente os 
dias contam por calendário, e o máximo que ele pode fazer é diminuir 
a penai pela remição. Eu não vejo como mudar uma condenação sem 
ser pela remição (Magistrado 4).
Não obstante isso, os magistrados estão cientes de que há uma 
estratégia que pode ser desenvolvida, mesmo sob os critérios da lei, 
que permite que a pena (ao menos em sua dimensão temporal objeti- 
vo-cronométrica) seja reduzida. Essa estratégia, que é unanimemente 
reconhecida entre os entrevistados como sendo a remição, é, contudo, 
por alguns imputada como de capacidade operacional exclusiva do 
apenado.
O eventual jogo da capitalização do tempo seria, então, um jogo 
que o apenado joga com a lei, com os critérios legais e dentro de um 
espaço impessoal e técnico-burocrático de operacionalização destes, e 
não um jogo que se joga com outros atores sociais que ocupam outras 
posições num espaço social relativamente 'autônomo.
Nesse sentido, a visão do sistema de justiça criminal, spbretudo no 
espaço institucional das instâncias judiciárias, toma-se extremamente 
relevante para que o magistrado possa colocar-se numa posição alheia 
à de jogador.
E isso tem que ficar muito claro, que o ju iz não é a última palavra 
porque à toda decisão judicial cabe recurso. Então, não é o ju iz [;..] 
de primeiro grau que decide ou não-decide e é absoluta a decisão, 
então, é justam ente por isso, nós temos um Tribunal, que se há al­
guma informalidade com aquela decisão, se recorre, e o Tribunal vai 
dizer se aquela decisão está certa ou se está equivocada, e se estiver 
equivocada vai corrigir e vai dar o direito ou vai negar. Porque às 
vezes a gente dá aò recursò da acusaçao, do Ministério Público, 
e o direito é... foi entendido que tinha e o Tribunal entendeu que 
não tinha. O ju iz dá o livramento condicional e o Tribunal diz que 
não era pra dar porque ele, embora tivesse o requisito objetivo, o
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requisito subjetivo não tava bem preenchido. A conduta dele durante 
a execução não foi tão satisfatória como deveria ser, como o juiz 
entendeu. Revoga o benefício e recolhe. E dessa decisão judicial cabe 
outro recurso, até chegar numa instância que realmente não tem mais. 
Mas assim, o juiz, ele é o responsável, mas ele tem... ele controla a 
execução, mas a decisão do ju iz ela tá sempre sendo sujeita a recurso, 
a reforma, então, assim, não é... o apenado, ele jam ais fica sujeito à 
vontade do juiz. Isso é a maior inverdade que pode existir. A maior 
injustiça com a justiça, porque isso não é assim. O juiz não pode 
dizer: Decido quando eu quero, dou quando quero. Não é assim. Nós 
temos toda uma lei, um código. Depois a Lei de Execução Criminal 
que determina como agir. Inconformado com aquela decisão judicial 
recorre e lá vai ser julgado por três pessoas e asshn, sucessivamente, 
então, não é assim. Não fica ao arbítrio do juiz, vamos dizer assim. 
Não é assim (M agistrado 5).
Mas uma série de elementos e circunstâncias, de conhecimento 
dos magistrados, indica-lhes que este é um jogo que o apenado não 
joga sozinho. Tais elementos e circunstâncias, entretanto, são opera- 
cionalizados, muitas vezes, de forma a proteger o magistrado de seu 
reconhecimento como um dos atores sociais que atua ativamente no 
jogo; entre essas formas está a própria interpretação da dinâmica que 
envolve o acesso à remição.
Sabem os magistrados que^a remição é a principal, senão a 
única, estratégia que os apenados podem utilizar para realmente 
abreviar o tempo objetivo-cronométrico da duração da restrição da 
liberdade. Sabem, também, com unanimidade os entrevistados, que 
é o acesso ao trabalho (e eventualmente ao estudo) que viabiliza a 
remição da pena.
Se igualmente sabem os magistrados que, por critério legal, o 
trabalho, e sobretudo o trabalho interno dos presos que cumprem 
pena em regime fechado, é um dever e um direito na execução penal, 
reconhecem que nenhum preso que manifesta seu interesse em traba­
lhar deveria ficar sem algum posto de trabalho. No entanto, as casas 
prisionais existentes nas comarcas não possuem vagas de trabalho 
que atendam toda a demanda dos apenados.
Não obstante a legislação não ser expressa quanto à atribuição 
do trabalho, sobretudo no âmbito interno das casas prisionais, ser de 
competência da administração penitenciária, a interpretação dominan­
te, senão exclusiva, das disposições legais remete essa competência 
à administração e não ao juízo de execução penal, restando a este
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a autorização das atividades compreendidas como trabalho externo, 
haja vista que estas tendem a implicar fáticas saídas dos apenados 
dos estabelecimentos prisionais.
Na realidade de nosso campo de pesquisa, a atribuição do traba­
lho interno é de competência dos setores administrativos das casas 
prisionais. Os magistrados, em sua maioria, expressam ter conheci­
mento dos critérios que, em tese, pautam a seleção dos apenados para 
ocuparem as vagas de trabalho nesses ambientes em que a demanda 
por atividades laborais é maior do que a oferta.
O conhecimento dos critérios de seleção utilizados pela administra­
ção prisional - que devem ser entendidos como extralegais, haja vista 
que o critério legal seria a obrigatoriedade do trabalho, “na medida 
de suas aptidões e capacidade” (conforme o artigo 31, caput, da LEP) 
- , com a conseqüente não intervenção por parte dos magistrados, ou 
somente a intervenção em casos motivados pelo próprio apenado ou 
por situações extremas daquilo que podem imputar como “desvios”, 
denuncia, em primeiro lugar, o reconhecimento de que existem ele­
mentos que compõem um jogo estratégico de acesso ao trabalho e à 
remição; num segundo momento, a conivência com tais elementos, 
desde que respeitados alguns limites; e, num terceiro aspecto, o re­
conhecimento de que o trabalho, para mais além da sua propalada