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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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função étiço-ressocializadora (como assim querem os argumentos que 
buscam a sua legitimidade nos contextos prisionais), trata-se-de um 
elemento de estratégica importância nos ambientes carcerários.
Nesse último sentido, a fala de um dos magistrados é significativa 
como síntese:
Do trabalho interno, de dentro do presídio. Isso aí fica a cargo 
da administração do presídio. E a administração que define. Isso aí 
tem provocado muitas guerras aqui [...]. Posso falar até porque não 
vai ser identificado. Tem provocado muita guerra porque eu descubro 
muito favoritismo, e até o que é um a coisa terrível: prestígio, troca 
de favores. A importância do trabalho é tão grande que o trabalho é 
quase vendido para eles lá dentro (M agistrado l ) 5.
Reforçando a perspectiva de que o magistrado pretende situar-se 
acima do jogo, atuando como fiscal de suas regras, é significativa
5 Toma-se relevante destacar como o próprio magistrado refere-se à necessidade de 
um resguardo pessoal quando o assunto é comentado.
150 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
a seguinte fala de um dos entrevistados, quando indagado sobre os 
critérios da administração prisional para a atribuição do trabalho:
Os [critérios] deles? Eu digo os deles pelo seguinte, porque dentro 
do sistema constitucional, a execução da pena cabe ao executivo, atra­
vés da SUSEPE. Quem executa a pena é o executivo. O ju iz controla 
a observância dos direitos do preso na execução da pena, então, o 
juiz é um... existe uma discussão enorme... mas eu me filio à postura 
garantista. Então, a posição do ju iz da execução também é de garantir 
que os direitos do preso sejam respeitados, então, eu não tenho como 
mandar o administrador botar um determinado preso num trabalho X 
porque aí não precisaria de administrador. Aí eu sou administrador e 
eu deixo de ser juiz. Porque a minha função é o seguinte... existe o 
administrador que é quem executa a pena, o promotor que supervisiona 
a execução da pena dentro do executivo, que é o acusador basica­
mente, e existe o coitado do réu lá, que tá lá enfiado, que ninguém 
sabe nem da existência dele, e no meio da história toda tem o juiz 
que procura fazer com que ele cumpra aquilo que tá na sentença, mas 
com os direitos deles garantidos. Então eu não tenho como determinar 
que o administrador dê trabalho para um determinado preso porque 
aquele preso pode ser um preso perigoso na ótica do administrador.
* Aí o cara vai lá e organiza um motim e diz que a culpa é minha, até 
porque realmente a função não é minha. A minha função é de analisar 
os benefícios legais do preso, fiscalizar o presídio, fazer visitas, mas 
a organização da equipe interna, isso é tarefa da SUSEPE, e eu faço 
questão de não entrar nela porque senão a gente acaba fazendo tudo. A 
minha função é o seguinte, quando eu cheguei aqui eu disse: Olha, eu 
não administro o presídio, quem administra é tu e trata de administrar 
direito porque a minha função é te fiscalizar. Então, trabalho em cima 
dessa ótica. O serviço externo, que eles chamam ali, que é o trabalho 
dentro dos muros do presídio, mas fora da galeria.... como é que eu 
vou dizer pro administrador que ele tem que botar um determinado 
cara lá, pra trabalhar naquela área alii, se é só o cara dar um pulo e 
ele pula o muro. Aí ele vai dizer: Não! O cara fugiu porque o juiz 
mandou. Aí então o que eu faço? Eu cobro do administrador que 
forneça trabalho. O trabalho é ele que tem que. ver. Quem tem que 
arranjar trabalho pro preso é ele não é eu, né? Eu já tive conversas, 
já se tentou melhorar, eu também não vou ser maluco de dizer assim: 
Presídio tem que arranjar trabalho para os seus [...] presos fechados. 
Que eu sei que não tem. Então, mando um ofício pra lá dizendo que 
o preso X pediu trabalho, peço informações do porquê que não foi 
dado. Como resposta: Não! O preso tava isso e aquilo e tal. Aí eles 
botam na lista, daqui a pouco aparece a vaga pra aquele cara, então, 
a gente vai pressionando dentro da execução, mas eu não tenhó como
PAGANDO O TEMPO NA EXECUÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE 151
mandar o administrador botar ò preso X a trabalhar porque ele diz: 
Esse preso não tem perfil pra isso: Aí bota o cara na cozinha e o cara é 
um degolador. E o cara fica de faca, armado... Então, essa função é da 
administração, do poder executivo e a minha função não é substituir o 
executivo. A minha função é decidir, distribuir justiça ao caso concreto, 
então, eu dependo da provocação do preso ou do M inistério Público. 
Analiso o contraditório, vista pra defesa e tal e depois se decide o 
direito que aquele preso tem dentro da estrutura. Claro que tem que 
negociar muita coisa. Muita coisa tem que negociar! Eu não me dou 
bem com a administração, mas nós nos entendemos. Eu digo: Olha! 
Assim não! Outro dia deu um caso aqui que bateram num preso. Eu 
entrei em contato com o Delegado e tal. A corregedoria veio aí e tal e 
tomou as providências administrativas. Eu não disse: Olha! Eu quero 
que afastem fulano ou beltrano. Eu disse: Olha! Aconteceu tal coisa. 
A SUSEPE tem que tomar providências; se não tomar, eu vou tomar. 
E a providência que eu iria tomar era política. Era entrar em contato 
com o Secretário de Segurança Pública ou com o Superintendente 
da SUSEPE, comunicar por escrito o que tinha acontecido e se ele 
não tomar as providências encaminhar para o Ministério Público por 
omissão. Mas não iria substituir jam ais ele. Inclusive, eles afastaram 
quem eles quiseram. Dentro da ótica administrativa deles. Eu não 
tenho nada a ver com isso (Magistrado 4).
O critério disciplinar - que se mascara como elemento de se­
gurança: contra a fuga, contra um novo ato lesivo no interior do 
estabelecimento - aparece como um critério inèvitavelmente aceito 
entre aqueles que pautam as administrações prisionais:
[...] essa questão do trabalho interno, quem administra é a adminis­
tração, não tem como eu chegar lá e procurar’., até por um a questão 
de competência minha. A minha função é administrar a pena. Interferir 
na administração da casa prisional, isso eu não posso fazer. Então 
assim, digamos que tenha o apenado que quis trabalhar, falou com o 
administrador e o administrador... numa situação concreta, vamos dizer. 
O administrador disse: O não tem vaga. Aí o apenado inconformado 
leva essa questão ao conhecimento tanto meu ou do promotor e que a
- - gente vai fazer? Porque aí a gente ficou sabendo que tem um a situação 
que tá sendo assim, que ele tem interesse e não tem... tenta conversar 
com o administrador. Ver se tem possibilidade dele trabalhar ou não, 
' porque que não tem, porque às vezes o apenado é muito perigoso. As 
vezes é uma situação assim, não é... não podemos ignorar que tenha 
apenados muito perigosos. Ele quer trabalhar,' então, o nosso presídio 
aqui {...], ele è de segurança mínima, acho que tu já deve saber. Então,
152 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
assim, a gente tá lidando com uma situação, com uma casa prisional 
de segurança mínima, com apenados com alta periculosidadè. Então, 
tem que ter o bom senso às vezes. Não da, por exemplo, pra colocar 
um apenado perigoso na horta. É um a inerência de fuga, de outros 
danos, então assim, dentro de um critério de bom senso e coerência 
a gente tenta resolver (Magistrado 5).
Por mais que os magistrados tentem se colocar numa posição de 
espectadores privilegiados do jogo (espectadores fiscais), a aceitação 
conivente e cúmplice dos critérios de seleção para os postos de 
trabalho, mesmo que respeitados os limites “do bom senso”, para 
que não se gerem ou desvelem trocas de favores indiscutivelmente 
ilícitas (por sua extralegalidade), denuncia uma capacidade ativa 
de intervenção no jogo, a qual se evidenciará, ainda de forma 
mais contundente, quando da operacionalidade do instituto legal 
da remição.
Os magistrados, pela posição