Marco Antonio Marques da Silva - Acesso à Justiça Penal e Estado Democrático de Direito - 1ª edição - Ano 2001
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Marco Antonio Marques da Silva - Acesso à Justiça Penal e Estado Democrático de Direito - 1ª edição - Ano 2001


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para o acusado.
ACESSO À JUSTIÇA PENAL E ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO 1 2 9
Neste aspecto, é necessário que se faça uma análise da forma como podem 
ser concretizadas as garantias constitucionais com relação às partes que integram o 
processo penal.
3.1. O MINISTÉRIO PÚBLICO
O Ministério Público é um órgão criado pelo Estado e se constitui em uma 
parte essencial no processo penal, fundamentado no chamado \u201cprincípio acusatório\u201d. 
A essencialidade advém do fato de a sociedade ter optado por retirar das mãos dos 
particulares a imposição de uma pena (diferente do que ocorre no processo civil), 
sendo que os órgão jurisdicionais, juizes e tribunais, após o processo, são os únicos 
que podem determinar a aplicação de uma pena, realizando de modo concreto o ius 
puniendi detido com exclusividade pelo Estado.
E assim uma exigência do princípio acusatório que alguém distinto do órgão 
julgador apresente uma acusação. Ficam desse modo, absolutamente separadas as 
funções de acusar e julgar. As duas são funções públicas, porém, como uma exigên­
cia deste princípio, o Estado enquanto órgão que acusa não deve ser o mesmo 
órgão que julga. O Ministério Público, enquanto instituição, satisfaz esta exigência.
A Constituição Federal de 1988 estabelece nos seus arts. 127 a 130 as funções 
do Ministério Público, indicando quais seus princípios (§ Io, do art. 127), referindo- 
se, expressamente, à unidade, à indivisibilidade e à independência funcional.
As funções institucionais são descritas no art. 129 da mesma Constituição 
Federal, podendo-se destacar que, no processo penal, tem a função, privativa, da 
ação penal, na forma da lei. Acresça, ainda, o zelo pela função jurisdicional, pelo 
respeito às instituições constitucionais, promovendo as medidas necessárias a sua 
garantia. No âmbito da verificação de fatos considerados delituosos, tem por função 
a requisição de diligências investigatórias e a instauração de inquérito policial, 
fundamentando, juridicamente, estas manifestações.
A organização interna do Ministério Público, como instituição permanente, 
observa os princípios da unidade de atuação e da independência funcional, embora 
sob uma hierarquia administrativa.
A concretização das garantais constitucionais, por parte do Ministério Público, 
está assentada nos princípios da legalidade e da imparcialidade que norteiam toda 
sua atuação no âmbito do processo penal.
O princípio da legalidade sujeita o Ministério Público à Constituição, às leis e 
outras normas que integram o ordenamento jurídico.
No direito penal moderno, atribui-se, ainda, ao Ministério Público uma função 
de seleção, no sentido de que o processo penal tenha um objetivo concreto, pautado
130 - E d i t o r a J u a r e z d e O l i v e i r a M a r c o A n t o n io M a r q u e s d a S ilv a
n a lei, evitando-se aqueles casos que, de plano, sugerem que não terão conseqüências 
jurídicas concretas. Este direcionamento está intimamente relacionado com o princípio 
da ultima ratio que informa o direito penal na atualidade.
De fato, havendo outros meios de controle social, o direito penal deve interferir 
como última instância.
As garantias constitucionais, onde o princípio da presunção de inocência é 
o marco limitador da atuação do Ministério Público, serão asseguradas pela formali­
zação dos atos processuais.
Não se pode utilizar o processo penal como arma em favor de pessoas ou 
grupos de pessoas, mas seus pressupostos são a serenidade, o distanciamento e 
reserva, o que se consegue através da normatização de um âmbito determinado, 
vinculação às normas e controle desta vinculação.159
A concretização das garantais constitucionais por parte do Ministério Público 
é o aspecto mais importante do processo penal, como uma forma de materializar-se 
o Estado Democrático de Direito.
3.2. O ACUSADOR PARTICULAR
Quando a ação penal é privada aparece a figura que se poderia denominar de 
acusador particular, ou seja, é a vítima ou seu representante em alguns casos, que 
detém o direito de exercitar a ação penal. Direito ao qual ele pode inclusive renunciar. 
Neste caso, os limites impostos à atuação do Ministério Público são aplicáveis a 
este acusador particular, que também se sujeitará às normas vigentes e restrições 
determinadas pelos princípios constitucionais.
Pelas características da ação penal, não há um poder dispositivo do acusado 
particular, no sentido de estabelecer os trâmites do processo penal, uma vez que 
não possui o poder de punir, que continua sendo do Estado, mas que, no caso, a 
iniciativa da relevância do dano ao bem jurídico lhe é facultada declarar. A disposição 
da vítima ou do acusador particular está na análise da conveniência ou não do início 
da ação penal, mas esta continua sendo privativa do Estado, quando ao impor uma 
reprovação ao acusado (no caso querelado).
3.3. O ACUSADO
O acusado ou imputado deve ser reconhecido como parte, principalmente tendo- 
se em vista seus direitos fundamentais constitucionais assegurados: direito de defesa
159 HASSEMER, Winfried. Fundamentos... ob. cit., p. 170.
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e contraditório e o direito à presunção de inocência até o trânsito em julgado da 
condenação. Sob o prisma do direito de presunção de inocência é que todas as 
medidas de coação somente podem ser aplicadas quando comunitariamente aceitáveis 
diante da concreta possibilidade de serem dirigidas a um inocente. E daí a exigência 
de que nenhuma medida de coação seja aplicada sem que sé levem em conta os 
princípios da necessidade, proporcionalidade, subsidiariedade e precariedade que 
informam a privação da liberdade enquanto inexistente sentença condenatória 
transitada em julgado.
De um outro lado, o princípio da presunção de inocência, em conjugação direta 
com o primeiro de todos os princípios constitucionais, que é o da preservação da 
dignidade pessoal do acusado, determina que sempre que o imputado seja meio para 
a obtenção de alguma prova, este tenha sempre respeitada a sua decisão de vontade, 
tanto durante o inquérito policial quanto durante a ação penal, de tal forma que a ele 
caberá a decisão de qual posição pretenda tomar perante a matéria que se ponha 
como objeto de prova. Neste sentido, ao acusado cabe o direito de permanecer calado 
durante o seu interrogatório, sem que o seu silêncio puro e simples contra ele possa 
ser interpretado, ao de recusar-se a participar da reconstituição do crime de modo ativo, 
ao de não fornecer material gráfico ou orgânico para a realização de perícias, etc.
No tocante ao direito de defesa, ele importa que sejam postos à disposição do 
acusado todos os concretos direitos de que ele legalmente dispõe de co-determinar 
ou de moldar a decisão final do processo.
3.4. O DEFENSOR DO ACUSADO
A assistência de advogado a todo acusado, além de assegurar o princípio da 
ampla defesa e do contraditório, é um direito previsto no art. 5o, LXXIV, da Consti­
tuição Federal de 1988.
Deduz-se da norma constitucional que o sujeito passivo da relação processual 
penal terá sempre a assistência de um advogado, devidamente reconhecido pelos 
órgãos oficiais para efetivar a defesa técnica. Saliente-se que esta defesa não se 
reduz a um aspecto meramente formal, com a simples presença do defensor, mas é 
efetiva, ressaltando-se, nò direito processual penal moderno a relevância do papel 
do advogado.
O formalismo do direito positivista-jurídico admitia que a verdade real deveria 
sobrepor-se a qualquer outro argumento no correr do processo. Esta busca deteraii- 
nava que competia ao acusado a prova de sua inocência, e que o mesmo deveria 
contrariar com fatos e testemunhos os argumentos da acusação.
Na atualidade, entretanto, o princípio da presunção de inocência favorece o 
trabalho da defesa, cabendo ao Estado, através do Ministério Público, requerer a