A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
219 pág.
Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

Pré-visualização | Página 18 de 50

escolares. 
Pensei na reunião de que participamos em seu colégio. A narrativa (Pag. 
68 69) de Miss Jane sobre seu monólogo acerca dos princípios da 
atração magnética ocorreu à minha memória. As professoras deveriam 
estar sendo guiadas pelo seu coração. Na verdade, nunca sabemos 
quanto do que apresentamos a uma criança é por ela aceito. Cada uma 
tem seu próprio caminho para integrar o novo conhecimento em sua 
estrutura de experiências, na qual se apoia na busca e construção de 
seu mundo. 
- Receberemos a revista da escola primária na segunda-feira - 
falou Dibs. - E sabe? Desta vez, sairá com uma capa colorida amarelo-
brilhante, azul e branco. Terá trinta páginas. Há um cartaz no jornal 
mural, na entrada, que anuncia todos esses detalhes. O dia seguinte 
será terça-feira. Depois virá a quarta-feira. E então quinta-feira. Na 
quinta-feira estarei aqui, de novo. 
- Você já fez uma previsão geral da próxima semana, não foi? Dia 
do aniversário de Washington, o jornalzinho da escola, todos os outros 
dias e enfim de volta à nossa sala de brinquedos. 
- Sim - respondeu. 
"E você já pode ler com compreensão e eficiência", pensei, sem 
nada exteriorizar a esse respeito. Estava aceitando sua habilidade na 
leitura como natural. Embora fosse obviamente um excelente leitor, isso 
não era suficiente para ajudá-lo efetivamente em seu desenvolvimento 
global. 
- Um minuto mais? - perguntou. 
- Sim, um minuto mais. 
Segurou a figura que havia identificado como "papai" e 
arremessou-a dentro da caixa de areia. 
- Papai é quem vem me buscar hoje aqui - falou. 
- É? - exclamei, toda ouvidos, pois senti que "papai" estava 
começando a emergir no mundo de Dibs. 
- Sim - respondeu fitando-me. 
E olhamo-nos então em silêncio. O tempo esgotara-se e nós dois o 
sabíamos, mas nenhum de nós se pronunciou a respeito. Finalmente, 
Dibs levantou-se. 
- O tempo acabou! - anunciou com um profundo suspiro. 
- É, acabou. 
- Eu quero pintar - disse Dibs. 
- Você quer dizer que não quer ir embora, mesmo sabendo que 
está na hora. 
Dibs levantou os olhos ao encontro dos meus. Havia a vacilante 
luz da promessa de um sorriso em sua face. Inclinou-se e com rapidez 
movimentou todos os soldadinhos que estavam enfileirados no solo. 
Alinhou-os todos com a mira em minha direção. 
- As armas são úteis quando começam a atirar - exclamou. 
- É, sim - repliquei. 
Apanhou seu chapéu e caminhou para a entrada. Fui com ele. 
Desejava conhecer "papai". 
- Até mais - despediu-se Dibs. 
- Até mais. Até quinta-feira, Dibs. 
"Papai" olhou-me furtivamente, cumprimentando-me. Parecia 
muito intranqüilo. 
- Papai - disse Dibs. - Você sabe que hoje não é o dia da 
Independência? 
- Vamos, Dibs, estou com pressa. 
- E não será antes de julho - persistiu. - Mas cairá numa quinta-
feira, daqui a quatro meses e duas semanas. 
- Vamos, Dibs - respondeu, como se se sentisse constrangido ao 
máximo pela conversa de Dibs, que, possivelmente, lhe soava sem 
sentido e vexatória - isso, se, na realidade, o estivesse escutando. 
- O dia da Independência - Dibs tentou de novo. - 4 de julho. 
O pai empurrou-o para fora da porta, resmungando entre dentes: 
- Será que você não pode parar esse bate-boca sem sentido? 
Dibs suspirou. Desanimou. Saiu silenciosamente com o pai. 
A recepcionista olhou-me. Não havia outras pessoas na sala de 
espera. 
- Bode velho! - exclamou ela, indignada. - Por que não vai dar 
seus pulos às margens do rio? 
- É sim - concordei. - Seria uma boa idéia. 
Voltei à sala de ludoterapia para arrumá-la para a próxima 
criança. Os observadores vieram ajudar-me. Um deles falou-me o que 
Dibs havia dito, enquanto saí do recinto para apontar o lápis. Colocou o 
gravador para reproduzir o monólogo. 
- Puxa! Que garoto! - um deles comentou. 
"E como é perceptivo", pensei. "Tão duro e firme. Parece até um 
ferro velho pendurado numa cerca." Foi o que Dibs havia dito. Senti 
vontade de enterrar "papai" na areia e conservá-lo ali por uma semana. 
Ele não ouvira a criança. Dibs tentou falar com ele, mas o pai 
cortara a conversa como se ela fosse uma tagarelice sem sentido. Dibs 
deve ter uma (Pag. 70 71) força interior extraordinária para não deixar 
sucumbir sua personalidade face a essas agressões. 
Às vezes, é muito difícil ter-se presente o fato de que também os 
pais têm razões para explicar sua conduta, razões fechadas nas 
profundezas de suas personalidades e que os impede de amar, de 
compreender e de dar-se a suas próprias crianças. 
O telefone chamou-me na manhã seguinte. Era a mãe de Dibs, 
que solicitava uma entrevista. Desculpou-se por fazer tal pedido e, a 
seguir, acrescentou que entenderia se não a pudesse receber face a 
meus compromissos. Estudei as possibilidades em minha agenda, e 
ofereci-lhe várias alternativas de horários: naquela mesma manhã, à 
tarde ou na segunda, terça ou quarta-feira, à tarde, ela tinha ampla 
possibilidade de escolha. Hesitou, perguntou qual o horário que eu 
preferia, sugerindo que eu determinasse a hora. Expliquei-lhe que para 
mim não faria nenhuma diferença e o que lhe parecesse melhor seria 
satisfatório para mim. 
Disse-lhe que estaria no Centro em todos aqueles horários e que 
assim poderia ficar à vontade para optar pelo que preferisse. De novo 
vacilou. 
Depois de um considerável intervalo tomou sua decisão. 
- Então irei hoje mesmo às dez horas. Muito obrigada. Agradeço 
sua consideração. 
Fiquei imaginando o que a havia estimulado a tomar aquela 
decisão. Estaria contente, insatisfeita ou aborrecida com Dibs? Teria 
seu marido reagido desfavoravelmente com relação à sua rápida visita 
ao Centro, no dia anterior, quando veio apanhar Dibs? Ela chegaria ao 
Centro em menos de uma hora, e então poderíamos descobrir algo mais 
sobre a situação. 
Seria difícil prever como a reunião se desenvolveria. A mãe devia 
estar confusa, não mais conseguindo exercer o controle sobre a 
situação como antes. Então, de novo, estaria tão cheia de infelicidade, 
de frustração, e um sentido de incapacidade e de derrota, que lhe seria 
bem-vinda a oportunidade de dividir pelo menos parte disso com uma 
outra pessoa. Seria extremamente importante não assustá-la com 
veladas ameaças e tentar comunicar-lhe um sentimento de segura 
confiança naquela reunião. Estava certa de que essa entrevista deveria 
ser-lhe extremamente difícil e emocionalmente (Pag. 72 73) exaustiva, 
independentemente de como ela usasse o tempo - quer permanecesse 
silenciosa, ou conversasse sobre assuntos superficiais mas seguros, ou 
formulasse perguntas e falasse um pouco sobre sua tão bem guardada 
história. Seria minha responsabilidade comunicar-lhe da melhor 
maneira que pudesse, principalmente através de minhas atitudes e 
filosofia, que sua intimidade, seu mundo pessoal lhe pertenciam, de 
fato, e que só a ela caberia decidir se queria abrir a porta e deixar-me 
compartilhar de alguns aspectos dele. E se ela assim o decidisse, não a 
apressaria e nem tentaria arrancar-lhe nada que pela sua livre vontade 
não oferecesse, mas confiaria em sua habilidade em dividir seu mundo 
com outra pessoa. E se, porventura, ela decidisse conservar suas portas 
fechadas, eu certamente não tentaria sequer bater nelas. Deixaria que, 
à hora certa, ela mesma tentasse abri-las sem pressões exteriores. 
Seria muito interessante ouvi-la falar sobre Dibs e sobre si 
mesma, mas, bem mais importante, possibilitar-lhe a experiência de 
sentir sua dignidade de pessoa respeitada e reconhecida como um ser 
único, dono de sua vida íntima e pessoal. 
À hora combinada, a mãe de Dibs chegou ao Centro. Fomos, 
então, imediatamente, para meu escritório. Ela havia