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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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dito que não se 
sentiria bem se tivesse que esperar na sala de recepção. Já que ela 
marcara sua entrevista para a hora mais próxima que lhe foi oferecida, 
pareceu-me que seria indelicado expô-la a esperas, sem necessidade. 
Sentou-se na cadeira junto de minha escrivaninha, à minha 
frente. Estava muito pálida. Esfregava as mãos uma na outra. Seus 
olhos moviam-se em várias direções, e, de quando em quando, um 
relance me era especialmente dirigido. E o olhar, de novo, empreendia 
sua fuga. Parecia Dibs quando o observei pela primeira vez na sala de 
ludoterapia. 
Ofereci-lhe um cigarro. 
- Não, muito obrigada - respondeu. 
Deixei o maço sobre a mesa e ela entendeu o gesto. 
- Não fumo - disse. - Mas se você fuma, por favor, fique à vontade. 
- Também não fumo. 
Guardei o maço na gaveta da mesa mais para quebrar a tensão 
dos primeiros minutos do que por qualquer outro motivo. Depois, voltei 
a olhá-la. Havia uma expressão de ansiedade e pânico em seu olhar. 
Sentia ser importante não empurrá-la para a discussão de seus 
problemas; não tomaria a iniciativa na formulação das perguntas. Seria 
importante não fazer daquela sessão uma discussão de trivialidades. Se 
ela encaminhasse a entrevista para um desses caminhos, seria 
totalmente diferente. Se eu o fizesse, estaria desviando os propósitos 
daquele encontro. Fora ela quem solicitara a entrevista. E deveria ter 
suficientes razões para fazê-lo. Se eu tivesse pedido para ela vir, seria 
minha a responsabilidade de conduzir a conversação. 
Momentos cruciais e decisivos em qualquer entrevista são os 
iniciais, que condicionam, em parte, a eficiência da experiência total. 
Tentar explicar as finalidades de tal etapa ê algo tão estéril, que 
não me deterei em maiores explicações ou em qualquer "estruturação 
da experiência", como, em termos gerais, se denomina. O silêncio não 
me provocou embaraço. Estava confiante em que ela poderia enfrentá-lo 
muito mais construtivamente do que qualquer esforço que eu pudesse 
fazer para iniciar uma conversa. Não queríamos uma conversa que 
nada significasse. 
- Não sei por onde começar - falou. 
- Compreendo. As vezes é difícil começar. 
Ela sorriu, embora seu sorriso não transbordasse nenhuma 
alegria. 
- Tanto a dizer - falou. - E tanto a não dizer! 
- Geralmente é assim. 
- Algumas coisas são melhores quando não são ditas - disse, 
olhando-me diretamente. 
- Às vezes, assim parece. 
- Mas muitas coisas não ditas podem tornar-se um fardo - falou. 
- Sim. Isso pode acontecer também - comentei. 
Sentou-se ali, olhando em silêncio para além da janela por um 
longo tempo. Estava começando a relaxar. 
- Que vista linda se descortina de sua janela! Aquela igreja é 
encantadora. Parece tão grande, tão forte, tão cheia de paz. 
- Sim, é verdade - disse. 
Baixou seu olhar. Deparou com as mãos fortemente entrelaçadas. 
Nossos olhares se encontraram. Havia lágrimas em seus olhos. 
- Estou tão preocupada com Dibs. Terrivelmente preocupada. 
Não havia previsto esse comentário, mas tentei aceitá-lo com toda 
a naturalidade. 
- Preocupada com Dibs? - Nada mais perguntei, nem mesmo o 
porque. (Pag. 74 75) 
- Sim - reafirmou. - Estou muito, muito preocupada. Nestes 
últimos dias ele parece estar muito infeliz. Permanece perto de mim, 
olhando-me, sempre silencioso. Sai de seu quarto com maior 
freqüência, mas mantém-se à margem das coisas como uma constante 
sombra. E, quando falo com ele, então, foge para longe. Somente 
retorna para de novo acusar-me com a trágica tristeza de seu olhar - 
confessou-me, enquanto apanhava um lenço para enxugar os olhos. 
Essa era, na verdade, uma informação preciosa. Dibs agora 
estava saindo de seu quarto com maior freqüência. E de acordo com 
sua narrativa, ultimamente parecia mais infeliz. Poderia ser que ela 
estivesse mais consciente de seu sofrimento, agora, mais do que nunca. 
Poderia ser que Dibs estivesse demonstrando seus sentimentos 
em casa de uma maneira mais franca. E o fato de manter-se silencioso, 
quando já possuía desenvolvido domínio verbal, indicava enorme força 
interior e controle. 
- Sinto-me muito constrangida quando ele se comporta assim - 
acrescentou, depois de uma longa pausa. - É como se estivesse pedindo 
alguma coisa - alguma coisa que não lhe posso dar. Ele é uma criança 
muito difícil de entender. Tenho tentado. Na verdade, tenho tentado 
com todas as minhas forças entendê-lo. Mas tenho falhado. Aliás desde 
o início, quando ele era apenas um bebê. Nunca havia cuidado de 
nenhuma criança antes de Dibs. Não tinha experiência como mulher, 
para ter contato com crianças e recém nascidos. Não intuía, de forma 
nenhuma, como eles eram... pessoas semelhantes a nós. Bem, 
conhecia-os perfeitamente sob seus aspectos biológico, físico e médico. 
Entretanto, nunca pude entender Dibs. Ele foi um desgosto... um 
desapontamento desde seu nascimento. Não tínhamos planejado ter 
uma criança, sua concepção foi um acidente. Ele desmoronou todos os 
nossos planos. Eu tinha minha vida profissional também. Meu marido 
vivia muito orgulhoso de minhas conquistas. Éramos um casal muito 
feliz antes de Dibs. Mas que bebê estranho era quando nasceu. Tão 
grande e tão feio. Tão grande e sem forma, como um pedaço de 
qualquer coisa. Não reagia a nada. De fato, rejeitou-me desde o exato 
momento em que nasceu. Ele se enrijecia e gritava cada vez que o tirava 
do berço. 
As lágrimas rolavam em sua face e ela as tentava enxugar com 
um lencinho, enquanto entre soluços narrava sua história. Tentei falar, 
mas silenciei a seu pedido. 
- Por favor, não diga nada. Estou conseguindo colocar tudo para 
fora, pelo menos desta vez. Tenho carregado há tanto tempo este fardo, 
que o sinto como uma pesada pedra no meio de meu coração. Pense o 
que quiser de mim, mas, por favor, deixe-me contar-lhe. Não pretendia 
falar-lhe assim. Quando lhe telefonei pedindo a entrevista, planejava 
perguntar-lhe sobre Dibs. Seu pai ficou muito contrariado ontem. 
Chegou a pensar que a terapia o está tornando pior. Mas há alguma 
coisa sobre a qual devo conversar com você. Tenho mantido isso tudo 
fechado dentro de mim há tanto tempo. 
"Minha gravidez foi bastante difícil. Estive doente durante quase 
todo o tempo. Meu marido ressentiu-se com minha gestação. Sempre 
achou que deveria tê-la evitado. Oh! - não o estou censurando. Eu 
também me ressenti com o fato. Não podíamos fazer nenhuma das 
coisas que costumávamos realizar juntos, ir a lugar algum. Suponho 
que deveria dizer que não fazíamos ao invés de afirmar que não 
podíamos. Meu marido afastava-se mais e mais de mim, enterrando-se 
em seu trabalho. Ele é cientista. Um homem brilhante, mas fechado. E 
muito, muito sensível. 
Talvez a surpreenda. Nunca mais falei sobre este assunto. Nunca 
o mencionei nem mesmo na escola", acrescentou com um ar infeliz e 
um sorriso melancólico nos lábios. 
- Antes de ficar grávida, era cirurgiã. Adorava meu trabalho. E 
esperava alcançar sucesso como cirurgiã. Havia realizado duas 
operações muito complexas de coração. Meu marido orgulhava-se de 
mim. Nosso círculo de amizades compunha-se de homens e mulheres 
brilhantes, encantadores e bem sucedidos. E, então, Dibs nasceu e 
destruiu todos os nossos planos e nossa vida. Senti que havia falhado 
miseravelmente. 
Decidi que deveria abandonar meu trabalho. Alguns de meus 
amigos profissionais mais íntimos não puderam compreender minha 
atitude, ou minha decisão. Nada lhes falei sobre Dibs. Oh! - apenas 
sabiam que estava grávida. Mas não chegaram a conhecê-lo. Logo 
tornou-se evidente que Dibs não era normal. Já era bastante 
desagradável ter um filho, mas ter uma criança retardada