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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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quem decide é você. 
- Sim. Bem sei que sou eu quem decide sobre isso - respondeu 
Dibs, caminhando em direção ao cavalete. - Tirarei todas as tampas dos 
potes de tinta e em cada cor porei um pincel. Agora vou colocá-los em 
ordem. Vermelho. Laranja. Amarelo. Azul. Verde. É assim, posso decidir 
algumas coisas, outras não. 
- É, suponho que seja verdade. (84) 
- É verdade - reafirmou enfaticamente, continuando o arranjo das 
cores. Iniciou então a pintura de camadas de tinta em seu papel. - 
Puxa! A tinta corre! Os lápis não correm assim. Ficam onde os 
colocamos. Mas as tintas? Não. Correm. Vou pintar uma bolinha 
laranja. Viu como corre? 
Agora uma listra verde. Escorre em gotas para baixo. Ela vai 
escorrendo, eu vou limpando. 
Atravessou a sala e, dando algumas pancadinhas na parede 
espelhada, declarou: 
- Há alguém naquela sala. Antes, algumas pessoas estavam 
sentadas naquela sala escura, mas hoje não. 
Fiquei surpresa ante o inesperado de sua observação. 
- Você acha? 
- Bem, eu sei que sim. Um murmúrio de vozes e pequenos sons 
me disseram que sim - confirmou. 
Essa pequena prova revela o quanto as crianças estão informadas 
sobre as coisas que as circundam, embora nem sempre as comentem 
na ocasião da descoberta. Isso é verdadeiro não só quanto a Dibs e 
todas as crianças, mas também em relação a nós, adultos. Não 
expressamos verbalmente tudo quanto ouvimos, vemos, pensamos e 
inferimos. 
Provavelmente, apenas uma porcentagem mínima de nossa 
aprendizagem é comunicada a outros. 
- Você também já sabia disso? - perguntou. 
- Sim - respondi. 
Voltou-se então para o cavalete e recomeçou a pintar listras de 
cor no papel. 
- Estas são as listras de meu pensamento - disse. 
- São? 
- Sim. E agora mesmo vou expulsar os homens lutadores. 
Especialmente aquele soldado! 
Enquanto caminhava em direção à caixa de areia, fez uma 
pequena pausa para olhar minhas anotações. Havia abreviado o nome 
das cores que ele usava registrando apenas a primeira letra. Dibs 
estudou minhas anotações, que consistiam no registro de suas ações, 
não de suas palavras. Essas estavam sendo gravadas por observadores 
mais silenciosos, que controlavam os gravadores. 
Oh! soletre os nomes. V é para o vermelho. V-E-R-M-E-L-H-O. L 
para laranja. L-A-R-A-N-J-A. A é para amarelo. A-M-A-R-E-L-O. - E 
soletrou todos os nomes à sua maneira. 
- Então, só porque você sabe soletrar os nomes das (Pag. 85) 
cores, acha que devo fazê-lo também? Não acha que posso abreviá-los, 
se sinto vontade? 
- Hum? - disse. - Bem... Sim. Mas não faça isso com os nomes 
das cores. Sempre faça as coisas corretamente. Soletre-os com todas as 
letras. Faça isso direito. 
- Por quê? - perguntei. 
Dibs olhou-me e sorriu. 
- Porque estou dizendo - respondeu. 
- E essa é uma razão suficiente? 
- É, sim. A não ser que você prefira escrever do seu modo - 
concluiu, sorrindo. Encaminhou-se para a mesa, retirou um pouco de 
argila da jarra, atirou-a para o ar, conseguiu apanhá-la e recolocou-a 
no recipiente de origem. Havia uma gravura no chão, perto do cesto de 
papel. Logo que Dibs a viu, inclinou-se para pegá-la. - Ah, quero isto! 
Quero recortar estas figuras. Onde está a tesoura? 
Dei-lhe a tesoura. Ele cortou a gravura. 
Em seguida, voltou-se para a casa de bonecas. 
- Tenho um trabalho a fazer hoje - anunciou. 
- Tem? 
- Sim. - Com muito cuidado, removeu todas as paredes da 
casinha, carregando-as para a caixa de areia. Pegou uma pá e cavou 
um grande buraco, onde enterrou as paredes. Retornou à casa de 
bonecas e com uma pesada pá de metal ergueu a porta e enterrou-a 
também na areia. 
Trabalhou com eficiência e intenção definida, no mais completo 
silêncio. 
Quando completou seu trabalho, olhou-me. 
- Livrei-me das paredes e da porta - anunciou. 
- Sim. Vi que o fez. 
Pegou então a parede da frente da casa de bonecas, que agora 
tinha apenas um buraco, mas não a porta, e tentou armá-la na areia. 
Depois de várias tentativas, conseguiu. Procurou um carrinho 
especial e empurrou-o, dando voltas na areia. Estava mal sentado sobre 
a borda da caixa de areia, inclinado, parecendo estar em posição 
incômoda. Examinou a situação. 
- Entrarei completamente na caixa de areia agora - disse. 
Engatinhou para dentro da caixa de areia, sentou-se no meio 
dela, olhou-me, sorriu. - Hoje, entrei na areia. Pouco a pouco consegui 
entrar. Um pouquinho da penúltima vez, depois outro na última vez, e 
agora desta vez. 
- Sim, você conseguiu. Hoje você está completamente dentro. 
(Pag. 86) - A areia está penetrando em meus sapatos. Vou tirá-los. - 
Tirou um dos sapatos. Empurrou o pé para dentro da areia. Deitou-se 
na areia. Esfregou nela suas bochechas. Colocou sua língua para fora e 
provou-a. Sentiu a areia entre os dentes. Olhou para mim. 
- Por que esta areia é tão áspera e tem gosto de nada? - disse. - O 
gosto do nada é assim. - Apanhou um punhado de areia, despejando-a 
sobre a cabeça e esfregando-a nos cabelos. Ele ria. De repente, levantou 
o pé no ar. - Veja, estou com a meia furada. Minha meia tem um buraco 
- gritou. 
- Estou vendo - comentei. 
Estirou-se completamente na caixa de areia. Rolou. Virou-se de 
um lado para outro. Cobriu-se de areia. Seus movimentos eram livres, 
expansivos, relaxados. - Dê-me a mamadeira - pediu. Dei-a a ele. - Vou 
fazer de conta que este é o meu bercinho. Ficarei encolhidinho como 
uma bola e fingirei que sou bebê de novo. - Sugou a mamadeira com 
alegria. 
De súbito, sentou-se e sorriu para mim. 
- Vou cantar para você - anunciou num tom festivo. - Inventarei 
uma canção, para cantá-la apenas para você. Está certo? 
- Claro. 
Sentou-se com as pernas cruzadas e disse: 
- Estou pensando. 
- Está bem. Você pensa, se sente que é isso o que quer fazer - 
repliquei. 
Dibs riu. 
- Vou compor os versos enquanto for cantando. 
- Está bem. 
Respirou profundamente. E começou a cantar. Parecia estar 
compondo a música também. Sua voz era clara, melodiosa e suave. A 
música contrastava com a maior parte dos versos da canção. Suas 
mãos estavam entrelaçadas. Sua expressão era de seriedade. 
Assemelhava-se a um participante de coral infantil, só que suas 
palavras não eram as de uma criança de coral. 
- Oh! eu odeio, odeio, odeio - cantou. - Odeio as paredes e as 
portas que fecham, e as pessoas que nos trancam lá dentro. Odeio as 
lágrimas e as palavras de ódio. Vou matar a todos com minha 
machadinha. Martelarei seus ossos e cuspirei neles. - Inclinou-se e 
apanhou na areia um soldado de brinquedo, golpeou-o com a 
machadinha de borracha, cuspiu nele. - Cuspo-lhe na cara. Cuspo-lhe 
no olho. (Pag. 87) Enterro sua cabeça no fundo da areia - cantou com a 
voz clara e suave. - E os pássaros voam de leste para oeste, e é um 
pássaro que quero ser. Então voarei para longe das paredes, fora das 
portas, longe, longe, longe de todos os meus inimigos. Voarei e voarei 
pelo mundo e voltarei para a areia, para a sala de brinquedos, para 
minha amiga. Cavarei a areia, enterrarei coisas na areia. Jogarei areia. 
Brincarei na areia. Contarei todos os grãos de areia e, de novo, serei um 
bebê. 
Sugou a mamadeira e rindo perguntou: 
- Que tal minha canção? 
- Uma canção perfeita. 
- É, sim, uma canção perfeita - concordou, saltando da areia e 
aproximando-se de mim para olhar meu relógio. 
- Dez minutos mais - disse, mostrando os dez dedos. 
- Justamente dez minutos. 
- Você acha que só restam dez minutos e depois estará na hora 
em que devo voltar para casa? - indagou. 
- Certo. É exatamente o que eu penso. E você, o que acha? 
- Ah! - exclamou. 
- Quer saber? Bem, penso que daqui a pouco estará