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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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Dibs continuou em pé, próximo à caixa de areia, olhando a 
boneca-mãe. 
- Ela está tentando construir a montanha, mas está amedrontada 
porque não gosta de ficar trancada em seu quarto? Está pedindo que 
você a ajude? - perguntei. 
- É isso mesmo - concordou. Dibs recurvou-se para apanhar a 
boneca que há pouco identificara como sua irmã. Abraçou-a. - Pobre 
irmãzinha! Você ficou com medo? - perguntou com meiguice. - Cuidarei 
de você. Vou dar-lhe a mamadeira. Isso a fará sentir-se mais 
reconfortada - disse ele segurando a mamadeira na altura dos lábios da 
boneca, enquanto gentilmente a embalava. - Pobre irmãzinha! Cuidarei 
de você. Deixarei que venha à minha festa. E ninguém irá maltratá-la. 
Carregou-a até o quarto da boneca, onde a deitou com delicadeza 
na cama, cobrindo-a com cuidado, mas trouxe a mamadeira de volta 
para a mesa. Chupava o bico. 
- Você vai ajudar a irmã? - perguntei. 
- Sim - respondeu. - Tomarei conta dela. 
E quedou-se em silêncio durante um longo período. 
- Dois de nossos peixinhos da escola morreram hoje - contou-me. 
- Não sabemos o que lhes aconteceu. Hedda falou-nos que os encontrou 
mortos esta manhã. 
- Ah, foi? 
- Fiz um livro para mamãe na escola, hoje. Ela adora flores. 
Assim, recortei algumas de um catálogo de sementes. Preguei-as 
num papel colorido e escrevi o nome de cada flor sob a gravura. Juntei 
todas as páginas e costurei-as com linha verde. 
- Que interessante! E o que fez com ele? 
- Ainda está na escola. Vou fazer alguma coisa para papai. E 
estou tentando imaginar um presente para Dorothy. Quando tiver 
preparado uma lembrancinha para cada um, então, levarei tudo para 
casa. 
- Assim, você planeja preparar um presente para cada um? 
- Bem, esse é o meu plano. Ainda não fui capaz de decidir o que 
fazer para minha irmã. Estou confeccionando para papai um peso para 
papéis. 
- Você deseja fazer alguma coisa para cada membro de sua 
família? 
- Certo. E não quero que ninguém fique esquecido. Darei para 
vovó um pedacinho do final do ramo de minha arvore favorita. 
- Vovó ficará alegre com isso? 
- Sem dúvida. Ficará muito feliz! É um de meus tesouros. 
Retornou à areia. 
- Muito bem, mãe! - gritou. - Que está fazendo aí sozinha? Não 
deveria estar construindo a montanha? Venha cá. Vou ajudá-la. Venha 
para perto de (Pag. 166 167) mim - falou gentilmente, embalando-a nas 
mãos. - Algumas vezes ela costuma chorar - declarou em um tom de voz 
baixo. - Seus olhos se encherão de lágrimas e elas rolarão por seu rosto 
e ela chorará. Acho que, talvez, esteja triste. 
- Talvez esteja triste - falei. 
- Vou colocá-la em casa junto com a família - anunciou. - Porei 
todos em volta da mesa de jantar, onde poderão estar juntos. 
Observei com que cuidado ele colocava a família de bonecos em 
volta da mesa. Ajoelhou-se ao lado da casinha de bonecas e cantarolou 
suavemente para eles. 
- Juntos estamos e suplicamos as bênçãos do Senhor. - 
Interrompeu a canção, de súbito, e censurou-se. - Não, não devo cantar 
essa canção. Ela é somente para vovó. Essas pessoas não freqüentam 
igrejas? 
Atravessou a sala em direção ao cavalete e pintou manchas de 
cores brilhantes no papel. 
- Isso significa felicidade - explicou, enquanto seu pincel 
espalhava de leve novos pingos em sua pintura. - Todas as cores estão 
felizes, e todos, lá dentro, estão reunidos, contentes e amigos. Haverá 
apenas duas quintas-feiras mais depois desta - disse. 
- Sim, duas quintas-feiras mais e teremos as férias de verão. 
Talvez você possa voltar para uma outra visita no outono, se quiser. 
- Sentirei falta de você. Terei saudades de minhas vindas aqui. 
Você também sentirá minha falta? 
- Sim, Dibs. Sentirei sua falta. 
- Ambos estaremos fora no verão - falou, acariciando minha mão 
e sorrindo. 
- Sim, estaremos. 
- Que maravilhosa sala de brinquedos! É uma sala feliz. 
Sim, a sala de ludoterapia havia sido um recinto feliz para Dibs 
em determinadas ocasiões. No entanto, momentos tristes e difíceis ali 
foram por ele vividos também. Escavara seus próprios sentimentos, 
revivendo experiências passadas que o haviam ferido profundamente. 
Estava aprendendo com a experiência que os sentimentos podem 
ser torcidos e modificados até perderem suas afiadas pontas. Estava 
aprendendo o controle responsável e novas formas de expressar suas 
emoções. Através desse crescente autoconhecimento, Dibs estaria livre 
para usar suas habilidades e sentimentos mais construtivamente. 
Dibs estava em pé à minha frente, a cabeça erguida. E um 
sentimento profundo de segurança dentro de si. Seus sentimentos de 
ódio e vingança haviam sido temperados com o perdão. Dibs estava 
construindo um conceito de si mesmo como se apalpasse o emaranhado 
de espinheiros de seus conflitos emocionais. Podia amar e odiar. 
Condenar e perdoar. (Pag. 168 169) 
Capítulo XXI 
 
Havia tomado emprestado um conjunto de "World test" e ele 
estava na sala de ludoterapia quando Dibs veio na semana seguinte. 
Esse material consiste em várias miniaturas detalhadas de pessoas, 
animais, edifícios, árvores, barreiras, carros, aviões, etc. Foi projetado, 
inicialmente, como um teste de personalidade, mas não ia usá-lo para 
tal finalidade com Dibs. Achei que ele gostaria das pequenas figuras e, 
se desejasse utilizá-las, sua brincadeira seria interessante. Não tinha a 
intenção de sugerir-lhe o uso daquele material ou de qualquer outro, 
pois não desejava dirigir suas atividades. Seria mais um brinquedo 
disponível para ser usado, caso o escolhesse. 
Dibs imediatamente notou a presença do estojo e abriu-o 
rapidamente. 
- Temos algo novo por aqui! Que objetos pequenos! - comentou 
manuseando e misturando todo o material. - Há pessoas em miniatura, 
prédios e animais. O que é isso? 
- Você pode construir um mundo com isso, se quiser respondi. - 
Há uma peça para ser colocada no chão e essas tiras azuis podem 
simbolizar as partes cobertas por água. 
- Oh! entendi. Como é interessante! Pode ser uma cidade de 
brinquedo. Posso construí-la do jeito que quiser. 
- Sim, você pode. 
Dibs estendeu a folha no chão e sentou-se ao lado do material. 
Selecionou cuidadosamente as peças. Iniciou com uma igreja, 
uma casa e um caminhão. - Vou construir meu mundo - falou com 
alegria. - Gosto desses prédios pequeninos, das pessoas e coisas. 
Contarei a você a história do que estou construindo, enquanto você 
observa seu crescimento. 
- Esta é a igreja, uma grande igreja branca - falou, pegando a 
primeira miniatura. - Uma igreja para Deus e para esse povo 
pequenino. Esta é uma cidade cheia de coisas. As casas e os caminhões 
estão cheios de barulhos. É o barulho da cidade - explicou iniciando o 
traçado das ruas. - As casas enfileiram-se umas atrás das outras. Esta 
é uma cidade completa. E aqui uma acanhada ruela de fundo. Agora, 
aqui, corre uma estrada que vai até o aeroporto. Este fica próximo ao 
mar. Colocarei aviões no aeroporto. Já aqui, no oceano, porei estes 
barquinhos. Oh, veja! Aqui estão as placas das ruas. Esta é a Second 
Avenue. E, na verdade, existe uma Second Avenue aqui em Nova York. 
Estes são os sinais de trânsito que indicam "pare" ou "siga". Esta é uma 
cerca e esta, uma barreira. Este avião está sobrevoando a cidade - 
anunciou, produzindo um ruído semelhante ao de uma aeronave. 
“O barco está aqui, no rio. Flutua para cima e para baixo. Agora, 
três aviões estão pousados no aeroporto. E aqui está um hotel. Agora, 
onde o porei? Vou armá-lo aqui. Em frente a ele colocarei a banca de 
jornais e revistas. Em seguida, completarei o espaço com casas. Ah, e 
as lojas? Bem, as pessoas precisam de armazéns e casas para compras.