A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
219 pág.
Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

Pré-visualização | Página 46 de 50

para embelezá-la. Cada plantinha 
verde a ajuda. Colocarei cercas em volta do aeroporto como medida de 
segurança. O carro de bombeiros está trafegando com dificuldade, pois 
o trânsito está difícil. Mas não há mais incêndios. Todos estão salvos e 
felizes. 
Aproximou-se de mim. 
- Vou viajar na próxima semana. Ficarei fora durante todo o 
verão. Vovó estará conosco. Mas quando eu retornar, em setembro, 
quero voltar aqui para uma visita. 
- Acho que isso pode ser resolvido - disse. - E desejo que você 
tenha um verão muito feliz. 
Dibs sorriu. 
- Recebi o meu álbum da escola - falou. – Minha fotografia está lá. 
Estou na fila da frente, entre Sammy e Freddy. Nele, há uma história 
que escrevi, sobre minha casa e minha grande amiga, a árvore do lado 
de fora de minha janela. Você se lembra do que lhe narrei sobre ela? 
- Sim, lembro-me. 
- Pois os pássaros vão até aquela árvore e abro minha janela e 
converso com eles. Eu os mando a diferentes lugares ao redor do 
mundo. Digo-lhes para irem à Califórnia, Londres, Roma e cantarem 
canções e fazerem as pessoas felizes. Amo os pássaros. Somos amigos. 
Bem, agora tenho uma coisa importante a fazer. Devo tirar minha irmã 
da caixa e decidir o que fazer com ela. Ela tem de ficar em casa. E 
quando o pai chega do escritório ele a repreende. Então, a irmã vai viver 
com os porcos. E a mãe também. - Ele ria. - Não é verdade. Todos 
moram juntos numa casa: a mãe, o pai, a irmã e o garoto. 
Suspendeu a figura do menino que havia designado como Dibs e 
a figura do Dibs adulto. Segurou as duas. 
- Aqui está o Dibs menino e o Dibs adulto. Este sou eu e este sou 
eu. 
- Estou vendo. Você é o Dibs menino e o Dibs adulto - comentei. 
- Aqui está uma mulher descendo a rua. Dirige-se a (Pag. 178 
179) minha casa. Quem é ela? É Miss A., e vive aqui com Dibs. A irmã 
mora com seu pai. Não tem mãe. Tem somente um pai, que lhe compra 
as coisas de que precisa, mas que a deixa sozinha quando vai para o 
trabalho. A mãe caiu no rio. Mas conseguiu salvar-se. Ficou apenas 
muito molhada e terrivelmente assustada. Esta mulher aqui está 
descendo a rua. Está indo para a igreja. E fazendo o que é certo. - 
Colocou a figura junto da igreja. - E estes homens estão indo para a 
guerra. Vão lutar. Haverá sempre guerras e lutas, imagino. Entretanto, 
estas quatro pessoas formam uma família e resolvem fazer uma 
excursão juntos e vão. Viajarão para a praia e estão felizes. Estão todos 
juntos e sentem-se felizes. Aí a vovó chega e os cinco serão felizes 
juntos. 
Dibs inclinou-se sobre sua cidade e remanejou a cadeia. 
- Cadeia fica bem perto da casa de Miss A. agora, e ela diz que 
não gosta de prisões, leva-a para bem longe, enterra-a na areia e não há 
mais cadeia alguma para ninguém. - Dibs enterra a prisão na caixa de 
areia. - Então, há estas duas casas. A sua e a minha e pouco a pouco 
começam a afastar-se uma da outra. - Afastou lentamente as duas 
casas. - Minha casa e a de Miss A. estão se distanciando cada vez mais 
- quase uma milha as separa. E a irmã é agora a garotinha de Miss A. E 
vem à sua casa para entrevistas. - Colocou Miss A. e a menina juntas 
ao lado da casa. 
- É de manhã bem cedo e o Dibs adulto vai para a escola. Tem 
vários amigos por lá. Mas este garotinho é o Dibs menino. - Manteve a 
última figura em sua mão, estudando-a cuidadosamente. - Este 
garotinho está muito doente. Vai para o hospital porque está 
definhando. Está se consumindo pouco a pouco, até desaparecer 
completamente. - Voltou-se e enterrou a figura na areia. - O garotinho 
está acabado, agora - disse. 
- As o Dibs adulto é grande, forte e corajoso. Já não tem mais 
medo. - Levantou os olhos para mim. 
- Grande, forte e corajoso e não tem mais medo. 
Dibs suspirou. 
- Devemos despedir-nos hoje. Ficarei ausente por um longo 
tempo. Você vai para longe e eu também. Teremos nossas férias. E já 
não sinto medo. 
Dibs havia chegado a um acordo consigo mesmo. Com sua 
simbólica representação fizera transbordar sua dor, seus sentimentos 
feridos, dela emergindo fortificado e seguro. Havia saído em busca de 
um eu que ele poderia reivindicar com orgulhosa identidade. Agora 
estava começando a elaborar um autoconceito que estava mais em 
harmonia com suas capacidades. Estava realizando sua integração 
pessoal. 
Os sentimentos de hostilidade e vingança que expressara contra 
seu pai, mãe e irmã ainda chamejavam um pouco, mas não queimavam 
com ódio ou medo. Ele trocara o pequeno, imaturo, amedrontado Dibs 
por um autoconceito fortalecido pelos sentimentos de capacidade, 
segurança e coragem. Aprendera a entender seus sentimentos, a 
enfrentá-los e controlá-los. Já não estava submerso em seus 
sentimentos de medo e raiva e ódio e culpa. Havia se tornado uma 
pessoa com todos os seus direitos. 
Encontrara um senso de dignidade e respeito próprio. Com essa 
confiança e segurança estaria apto a aceitar e respeitar outras pessoas 
em seu mundo. Já não tinha medo de ser ele mesmo. (Pag. 180 181) 
Capítulo XXIII 
 
Só voltei de minhas férias no dia 1º de outubro. Havia recados 
para mim. Um era da mãe de Dibs. Telefonei-lhe, ansiosa para saber 
que experiências o verão trouxera para aquela família. 
- Dibs queria um encontro mais - disse. - Já no dia 1º de 
setembro pediu-me que o levasse para visitá-la. Expliquei-lhe que você 
só regressaria no início de outubro. Nada mais mencionou a respeito, 
até que setembro findou. Lembrou-se no dia 1º de outubro que você já 
deveria ter voltado. Pediu-me que lhe marcasse uma visita mais. Uma 
última visita. Foi por isso que lhe telefonei. - Ela ria suavemente. - Ele 
tem estado ótimo. Tivemos um verão maravilhoso. Jamais poderei dizer-
lhe o quanto estamos felizes e agradecidos. Dibs não é a mesma 
criança. Está feliz e descontraído. Relaciona-se conosco muito bem. 
Conversa durante todo o tempo. Creio que ele realmente não mais 
precisa de terapia. Portanto, se você estiver ocupada demais, basta 
dizer-me, que explicarei a Dibs. 
Não é necessário dizer que eu não estava ocupada demais para 
rever Dibs. Marquei uma hora para ele na quinta-feira seguinte. 
Dibs entrou com um passo firme, um sorriso vivo e olhos 
brilhantes. Parou para conversar com as funcionárias que 
datilografavam e transcreviam relatórios na secretaria. Perguntou-lhes o 
que faziam e se gostavam de seu trabalho. 
- Vocês são felizes? - indagou-lhes. - Devem ser! 
Era uma notável mudança desde sua vinda anterior. Estava 
tranqüilo, espontâneo, feliz. Havia graça e naturalidade em seus 
movimentos. Logo que fui encontrá-lo na sala de espera, correu em 
minha direção e estendeu sua mão para cumprimentar-me. (Pag. 182) 
- Quis vê-la uma vez mais - disse. - E aqui estou. Vamos primeiro 
para seu escritório. 
Fomos. Dibs deu alguns passos até o centro da sala, olhando em 
volta. Exibia um grande sorriso. Correu, passando a mão na 
escrivaninha, nos armários, cadeiras e estantes. Suspirou. 
- Ah, que lugar maravilhoso e feliz! 
- Você tem se divertido aqui, não é verdade? 
- Ah, sim - respondeu. - Muito. Muitíssimo. Há tantas coisas 
maravilhosas aqui. 
- Que coisas maravilhosas? 
- Livros, livros e livros - respondeu, passando levemente os dedos 
sobre eles. - Amo os livros. E não é de fato divertido que pequenos 
sinais escuros sobre um papel podem ser tão interessantes? Folhas de 
papel com minúsculos símbolos pretos, e temos uma história. 
- É sim, Dibs. Isso é extraordinário. 
- Que dia lindo! - exclamou olhando para fora. - E esta é uma 
linda janela para se olhar através dela. 
Sentou-se junto à escrivaninha e puxou o arquivo de cartões, 
examinando-os e sorrindo abertamente. 
- Por