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VIGOTSKY. A formação social da mente

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experimentos demonstraram dois fatos 
importantes: 
(1) A fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo. As crianças não ficam 
simplesmente falando o que elas estão fazendo; sua fala e ação fazem parte de uma mesma função 
psicológica complexa, dirigida para a solução do problema em questão. 
(2) Quanto mais complexa a ação exigida pela situação e menos direta a solução, maior a importância 
que a fala adquire na operação como um todo. As vezes a fala adquire uma importãncia tão vital que, 
se não for permitido seu uso, as crianças pequenas não são capazes de resolver a situação. 
Essas observações me levam a concluir que as crianças resolvem suas tarefas práticas com a ajuda da 
fala, assim como dos olhos e das mãos. Essa unidade de percepção, fala e ação, que, em última 
instância, provoca a internalização do campo visual, constitui o objeto central de qualquer análise da 
origem das formas caracteristicamente humanas de comportamento. 
Para desenvolver o primeiro desses pontos devemos indagar: o que realmente distingue as ações de 
uma criança que fala das ações de um macaco antropóide, na solução de problemas práticos? 
A primeira coisa que impressiona o experimentador é a liberdade incomparavelmente maior das 
operações das crianças, a sua maior independência em relação à estrutura da situação visual concreta. 
As crianças, com a ajuda da fala, criam maiores possibilidades do que aquelas que os macacos podem 
realizar com a ação. Uma manifestação importante dessa maior flexibilidade é que a criança é capaz 
de ignorar a linha direta entre o agente e o objetivo. Ao invés disso, ela se envolve em vários atos 
preliminares, usando o que chamamos de métodos instrumentais ou mediados (indiretos). No 
processo de solução de um problema a criança é capaz de incluir estímulos que não estão contidos no 
seu campo visual imediato. Usando palavras (uma classe desses estímulos) para criar um plano de 
ação específico, a criança realiza uma variedade muito maior de atividades, usando como 
instrumentos não somente aqueles objetos à mão, mas procurando e preparando tais estímulos de 
forma a torná-los úteis para a solução da questão e para o planejamento de ações futuras. 
Em segundo lugar, as operações práticas de uma criança que pode falar tornam-se muito menos 
impulsivas e espontâneas do que as dos macacos. Esses, tipicamente, realizam uma série de tentativas 
descontroladas de resolver o problema em questão. Diferentemente. a criança que usa a fala divide 
sua atividade em duas partes consecutivas. Através da fala, ela planeja como solucionar o problema e 
então executa a solução eiaborada através de uma atividade visível. A manipulação direta é 
substituída por um processo psicológico complexo através do qual a motivação interior e as 
intenções, postergadas no tempo, estimulam o seu próprio desenvolvimento e realização. Essa forma 
nova de estrutura psicológica não existe nos macacos antropóides, nem mesmo em formas 
rudimentares. 
Finalmente, é muito importante observar que a fala, além de facilitar a efetiva manipulação de objetos 
pela criança, controla, também, o comportamento da própria criança. Assim, com a ajuda da fala, as 
crianças, diferentemente dos macacos, adquirem a capacidade de ser tanto sujeito como objeto de seu 
próprio comportamento. 
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A investigação experimental da fala egocêntrica de crianças envolvidas em atividades, como àquelas 
descritas por Levina, produziu o segundo fato de grande importância demonstrado por nossos 
experimentos: a quantidade relativa de fala egocêntrica, medida pelo método de Piaget, aumenta em 
relação direta com a dificuldade do problema prático enfrentado pela criança (14). Tomando por base 
esses experimentos, eu e meus colaboradores desenvolvemos a hipótese de que a fala egocêntrica das 
crianças deve ser vista como uma forma de transição entre a fala exterior a interior. Funcionalmente, a 
fala egocêntrica é a base para a fala interior, enquanto que na sua forma externa está incluída na fala 
comunicativa. 
Uma maneira de aumentar a produção de fala egocêntrica é complicar a tarefa de tal forma que a 
criança não possa usar, de forma direta, os instrumentos para solucioná-la. Diante de tal desafio, 
aumenta o uso emocional da iinguagem pelas crianças, assim como aumentam seus esforços no 
sentido de atingir uma solução mais inteligente, menos automática. Elas procuram verbalmente um 
novo plano de ação, e a sua verbalização revela a conexão íntima entre a fala egocêntrica e a 
socializada. Isso é melhor notado quando o experimentador deixa a sala ou não responde aos apelos 
de ajuda das crianças. Uma vez impossibilitadas de se engajar numa fala social, as crianças, de 
imediato, envolvem-se na fala egocêntrica. 
Enquanto nessa situação a inter-relação dessas duas funções da linguagem é evidente, é importante 
lembrar que a fala egocêntrica está ligada à fala social das crianças através de muitas formas de 
transição. O primeiro exemplo significativo dessa ligação entre essas duas funções da linguágem é o 
que ocorre quando as crianças descobrem que são incapazes de resolver um problema por si mesmas. 
Dirigem-se então a um adulto e, verbalmente, hescrevem o método que, sozinhas, não foram capazes 
de colocar em ação. A maior mudança na capacidade das crianças para usar a linguagem como um 
instrumento para a solução de problemas acontece um pouco mais tarde no seu desenvolvimento, no 
momento em que a fala socializada (que foi previamente utilizada para dirigir-se a um adulto) é 
internalizada. Ao invés de apelar para o adulto, as crianças passam a apelar a si mesmas; a linguagem 
passa, assim, a adquirir uma função intrapessoal além do seu uso interpessoal. No momento em que 
as crianças desenvolvem um método de comportamento para guiarem a si mesmas, o qual tinha sido 
usado previamente em relação a outra pessoa, e quando elas organizam sua própria atividade de 
acordo com uma forma social de comportamento, conseguem, com sucesso, impor a si mesmas uma 
atitude social. A história do processo de internalização da jala social é também a história da 
socialização do intelecto prático das crianças. 
A relação entre fala e ação é dinâmica no decorrer do desenvolvimento das crianças. A relação 
estrutural pode mudar mesmo durante um experimento. A mudança crucial ocorre da seguinte 
maneira: num primeiro estágio, a fala acompanha as ações da criança e reflete as vicissitudes do 
processo de solução do problema de uma forma dispersa e caótica. Num estágio posterior, a fala 
desloca-se cada vez mais em direção ao início desse processo, de modo a, com o tempo, vreceder a 
ação. Ela funciona, então, como um auxiliar de um plano já concebido mas não realizado, ainda, a 
nível comportamental. Uma analogia interessante pode ser encontrada na fala das crianças enquanto 
desenham (veja, também, o capítulo 8). 
As crianças pequenas dão nome a seus desenhos somente após completá-los; elas têm necessidade de 
vêlos antes de decidir o que eles são. æ medida que as crianças se tornam mais velhas, elas adquirern 
a capacidade de decidir previamente o que vão desenhar. Esse deslocamento temporal do processo de 
nomeação significa uma mudança na função da fala. 
Inicialmente a fala segue a ação, sendo provocada e dominada pela atividade. Posteriormente, 
entretanto, quando a fala se desloca para o início da atividade, surge uma nova relação entre palavra 
e ação. Nesse instante a fala dirige, determina e domina o curso da ação; surge a função vlanejadora 
da fala, além da função já existente da linguagem, de refletir o mundo exterior (15). 
Assim como um molde dá forma a uma substância, as palavras podem moldar uma atividade dentro 
de uma determinada estrutura. Entretanto, essa estrutura pode, por sua vez, ser mudada e reformada 
quando as crianças aprendem a usar a linguagem