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VIGOTSKY. A formação social da mente

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de um modo que lhes permita ir além das 
experiências prévias ao planejar uma ação futura. Em contraste com a noção de descoberta súbita, 
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popularizada por Stern, concebemos a atividade intelectual verbal como uma série de estágios nos 
quais as funções emocionais e comunicativas da fala são ampliadas pelo acréscimo da função 
planejadora. Como resultado a criança adquire a capacidade de engajar-se em operações complexas 
dentro de um universo temporal. 
Diferentemente dos macacos antropóides, que, segundo Kohler, são "os escravos do seu próprio 
campo de visão", as crianças adquirem independência em relação ao seu ambiente concreto imediato; 
elas deixam de agir em função do espaço imediato e evidente. Uma vez que as crianças aprendem a 
usar, efetivamente, a função planejadora de sua linguagem, o seu campo psicológico muda 
radicalmente. Uma visão do futuro é, agora, parte integrante de suas abordagens ao ambiente 
imediato. Em capítulos subseqüentes, descreverei com mais detalhes o desenvolvimento de algumas 
dessas funções psicológicas centrais. 
Resumindo o que foi dito até aqui nesta seção: a capacitação especificamente humana para a 
linguagem habilita as crianças a providenciarem instrumentos auxiliares na solução de tarefas 
difíceis, a superar a ação impulsiva, a planejar uma solução para um problema antes de sua execução 
e a controlar seu próprio comportamento. Signos e palavras constittzem para as crianças, primeiro e 
acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas 
da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, 
distinguindo-as dos animais. 
As mudanças que descrevi não ocorrem de maneira unidimensional e regular. Nossa pesquisa 
mostrou que crianças muito pequenas solucionam problemas usando uma combinação singular de 
processos. Em contraste com os adultos, que reagem diferentemente a objetos e a pessoas, as crianças 
pequenas muito provavelmente fundirão ação e fala em resposta tanto a objetos quanto a seres 
sociais. Essa fusão da atividade é análoga ao sincretismo na percepção, descrito por muitos psicólogos 
do desenvolvimento. 
A irregularidade à qual estou me referindo é claramente observada numa situação em que crianças 
pequenas, quando incapazes de resolver facilmente o problema colocado, combinam tentativas 
diretas de obter o fim desejado com uma confiança e dependência na fala emocional. às vezes, a fala 
expressa os desejos da criança; outras vezes, ela adquire o papel de substituto para o ato real de 
atingir o objetivo. A criança pode tentar solucionar o problema através de formulaçõec verbais e por 
apelos ao experimentador. Essa combinação de diferentes formas de atividades parecia-nos, a 
princípio, confusa; no entanto, observações adicionais direcionaram nossa atenção para uma 
seqüência de ações que tornou claro o significado do comportamento das crianças em tais 
circunstâncias. Por exemplo, após realizar várias ações inteligentes e inter-relacionadas que poderiam 
ajudá-la a solucionar com sucesso um determinado problema, subitamente a criança, ao defrontar-se 
com uma dificuldade, cessa todas as tentativas e pede ajuda ao experimentador. Qualquer obstáculo 
aos esforços da criança para solucionar o problema pode interromper sua atividade. O apelo verbal 
da criança a outra pessoa constitui um esforço para preencher o hiato que a sua atividade apresentou. 
Ao fazer uma pergunta, a criança mostra que, de fato, formulou um plano de ação para solucionar o 
problema em questão, mas que é incapaz de realizar todas as operações necessárias. 
Através de experiências repetidas, a criança aprende, de forma não expressa (mentalmente), a 
planejar sua atividade. Ao mesmo tempo ela requisita a assistência de outra pessoa, de acordo com as 
exigências do problema proposto. A capacidade que a criança tem de controlar o comportamento de 
outra pessoa torna-se parte necessária de sua atividade prática. 
Inicialmente, esse processo de solução do problema em conjunto com outra pessoa não é diferenciado 
pela criança no que se refere aos papéis desempenhados por ela e por quem a ajuda; constitui um 
todo geral e sincrético. Mais de uma vez observamos que, durante o processo de solução de um 
problema, as crianças se confundem, porque começam a fundir a lógica do que elas estão fazendo 
com a lógica necessária para resolver o problema com a cooperação de outra pessoa. Algumas vezes a 
ação sincrética se manifesta quando as crianças constatam a ineficácia total dos seus esforços diretos 
para solucionar o problema. Como no exemplo mostrado no trabalho de Levina, as crianças se 
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dirigem para os objetos de sua atenção tanto com palavras como com o instrumento, determinando a 
união fundamental e ínseparável entre fala e ação na atividade da criança; essa união torna-se 
particularmente clara quando comparada com a separação desses processos nos adultos. 
Em resumo, quando as crianças se confrontam com um problema um pouco mais complicado para 
elas, apresentam uma variedade complexa de respostas que incluem: 
tentativas diretas de atingir o objetivo, uso de instrumentos, fala dirigida à pessoa que.conduz o 
experimento ou fala que simplesmente acompanha a ação e apelos verbais diretos ao objeto de sua 
atenção. 
Quando analisado dinamicamente, esse amálgama de fala e ação tem uma função muito específica na 
história do desenvolvimento da criança; 
demonstra, também, a lógica da sua própria gênese. Desde os primeiros dias do desenvolvimento da 
criança, suas atividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, 
sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O 
caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura 
humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas 
ligações entre história individual e história social. 
 
2 - O desenvolvimento da percepção e da atenção 
A relação entre o uso de instrumentos e a fala afeta várias funções psicológicas, em particular a 
percepção, as operações sensório-motoras e a atenção, cada uma das quais é parte de um sistema 
dinâmico de comportamento. Pesquisas experimentais do desenvolvimento indicam que as conexões 
e relações entre funções constituem sistemas que se modificam, ao longo do desenvolvimento da 
criança, tão radicalmente quanto as próprias funções individuais. Considerando uma das funções de 
cada vez, examinarei como a fala introduz mudanças qualitativas na sua forma e na sua relação com 
as outras funções. 
O trabalho de Kohler enfatizou a importância da estrutura do campo visual na organização do 
comportamento prático de macacos antropóides. A totalidade do processo de solução de problemas 
foi, essencialmente, determinada pela percepção. Quanto a isso, Kohler tinha muitas evidências para 
acreditar que esses animais eram muito mais limitados pelo seu campo sensorial do que os adultos 
humanos. São incapazes de modificar o seu campo sensorial através de um esforço voluntário. De 
fato, talvez fosse útil encarar como regra geral a dependência de todas as formas naturais de 
percepção em relação à estrutura do campo sensorial. 
Entretanto, a percepção de uma criança, porque ela é um ser humano, não se desenvolve como uma 
continuidade direta e aperfeiçoada das formas de percepção anirnal, nem mesmo daqueles animais 
que estão mais próximos da espécie humana. Experimentos realizados para esclarecer esse problema, 
levaram-nos a descobrir algumas leis básicas que caracterizam as formas humanas superiores de 
percepção. 
O primeiro conjunto de experimentos relacionou-se aos estágios do desenvolvimento